AC Literatura Convida: Ricardo Alfaya

 

Hoje, no projeto AC Literatura Convida, nosso colunista César Manzolillo (@cesarmanzolillo) nos traz  a crônica “Máscaras e ilusões ou Adeus, Zorro“, do autor Ricardo Alfaya (@ricardo_alfaya):

 

MÁSCARAS E ILUSÕES ou ADEUS, ZORRO

 

Os editores brasileiros da obra “L’ Amour Masqué ou Imprudence et Bonheur”, de Honoré de Balzac (1799-1850), como se vê, dispunham de uma alternativa ao título “O Amor Mascarado”, adotado na edição daqui (pela Bom Texto, Rio de Janeiro, 2003). Todavia, não há dúvida de que “O Amor Mascarado” é bem mais impactante do que a alternativa: “Imprudência e Felicidade”.

Isso, embora eu seja forçado a reconhecer que o gosto pela “imprudência” pareça ter impregnado a cultura literária francesa, como se pode deduzir da leitura das biografias dos 25 poetas daquele país, apresentadas pelo escritor Márcio Catunda, em seu extraordinário livro “Paris e seus poetas visionários” (Rio de Janeiro, Batel, 2021).

Até a pandemia, meu fascínio por máscaras foi absoluto. E máscara que se prezasse teria de combinar com a cor da noite, a bela máscara negra que esconde o rosto do escaldante dia, para que possamos adentrar nos portais do sonho.

Máscara típica desse gênero é a de Dom Diego, o Zorro: misto de poeta e espadachim, o mais fascinante e romântico dos heróis dos quadrinhos e do cinema.

Como sempre fui ingênuo, acreditava mesmo que um pedaço de pano na cara seria suficiente para ocultar a identidade de alguém. Assim, outro herói dos quadrinhos que me fascinava era o Cavalheiro Negro, um personagem do Velho Oeste, que usava uma máscara preta sobre o rosto. Por sinal, muito semelhante às que usamos agora, nesta época de pandemia. No caso do antigo herói do faroeste, com aquele lenço na boca, ninguém o reconhecia.

Assim, fosse cobrindo os olhos ou a boca, pôr uma máscara no rosto seria mergulhar no mistério, no fascínio, na noite. Dom Diego, quando vestido de Zorro, somente atacava à noite. Com sua espada, humilhava os orgulhosos, poderosos e arrogantes. Mas nunca matava ninguém. Era tudo de mentirinha. E tão habilidoso se exibia com a espada, que conseguia fazer um “Z”, nas roupas de seus adversários, sem lhes arrancar uma gota de sangue sequer. Nessa habilidade, Zorro somente seria superado pelo “fakenista” que, supostamente, tentou matar com faca o ex-presidente Bolsonaro, em Juiz de Fora.

Crítico implacável das inverossimilhanças, fossem no cinema ou nas narrativas escritas, desde guri eu percebia a impossibilidade de que ninguém, naquela remota Los Angeles, percebesse que Dom Diego e o Zorro fossem a mesma pessoa. Ainda assim, eu me traía e me enganava, fazendo de conta ser possível semelhante fantasia.

Afinal, “fazer de conta” é o que torna a vida suportável. “A Menina do Faz de Conta”, de Regina Vianna, um livro de contos para jovens que me marcou para sempre (Niterói, Dowslley Editora, 2017).

A gente faz de conta, porque, se não fizer, o que sobra para ver é o cine Bozo, o fascismo mandando no país. É homem dando tiro em mulher. É a PM entrando nos morros e matando todo mundo. É o interior do Brasil sendo destruído por grileiros assassinos de índios, por poluidores de rios e derrubadores de árvores.

Mas as máscaras… Foi duro perceber, com a vinda da Covid-19, que, na verdade, máscaras na cara não escondem ninguém. Se o outro conheceu você sem máscara, não há como se autoenganar: pode pôr o pano do tamanho que for na face, que será reconhecido. Mais um devaneio que eu tinha e que, com essa pandemia, foi para o cesto das balzaquianas ilusões perdidas, para todo o sempre. Adeus, Zorro.

 

 

Minibiografia do Autor

Ricardo Ingenito Alfaya, Ricardo Alfaya, nasceu no Rio de Janeiro, onde reside. Bacharel em Direito e em Comunicação. Trabalhou no Banco do Brasil S. A., por 21 anos. Escreve poesia, conto, crônica, artigo e ensaio. Está em mais de 100 periódicos e em 60 antologias. Cinco livros de poesia publicados; destaque para “Fronteiras em Liquidação”, solo, 2016: “Prêmio Diretoria”, da UBE-RJ. Contato: https://alfayalivreiro.com.br/

 

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A curadoria é realizada pela equipe do canal LITERATURA. Veja também o convite do idealizador do projeto:

 

 

 

 

 

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Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de vinte e quatro antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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