AC ENTREVISTA – DANÇA: Bate Papo sobre Dança do Ventre com Hanna Aysha

AC ENTREVISTA – DANÇA : HANNA AYSHA

Hanna Aysha. Foto: Adelita Chohfu

A bailarina de Dança Oriental Árabe Hanna Aysha, em bate papo ao Canal da Dança Arte Cult apresenta uma panorâmica e curiosidades sobre a arte da dança do ventre. Tendo Selo de Qualidade Nabak e Selo de Excelência Oriente, Encanto e Magia, possui diversos prêmios como bailarina e com suas alunas. Ainda possui ampla atuação na área como produtora de eventos, shows, workshop, jurada e professora.

Rafaeli Mattos (ArteCult) – Fale sobre sua experiência e como encontrou a dança do ventre.

Hanna – Desde criança eu praticava esportes, nunca tive contato com a dança, até que com 18 anos decidi que faria alguma dança. A dança do ventre não foi minha primeira opção. Inicialmente pensei na dança espanhola, pois meus bisavós paternos eram espanhóis, e eu falava espanhol, então achei um caminho natural em função da minha origem. Assim fui em busca de um lugar para começar, optei por uma academia de ginástica perto da minha casa onde eu sempre ouvia uma música de dança do ventre. Eu já sabia que era dança do ventre porque tinha como referência as músicas da cantora Shakira. Cheguei lá em busca de dança espanhola, modalidade que não tinha, mas me ofereceram dança do ventre. Lá fui aluna por 7 anos, me profissionalizei no final de 2007 e em 2008 eu comecei a trabalhar profissionalmente com dança do ventre.

Rafaeli Mattos (ArteCult) Fale resumidamente sobre as origens da dança do ventre e suas diversas vertentes.

Hanna – Sobre as origens da dança do ventre, muitos dirão que é uma dança milenar que as sacerdotisas praticavam em cultos da deusa Ísis, porém, não existe uma prova da origem da dança do ventre, ao menos com relação ao lado ritualístico. Os registros que existem referem-se a década de 20 e 30 onde haviam alguns espaços no Egito chamados os Cabarés. Esses espaços inspirados nos cabarés europeus, eram onde os homens da elite egípcia e europeia que frequentava o país iam comer, beber, e assistir algum tipo de manifestação artística, música, poesia, dança. A dança do ventre como conhecemos atualmente nasceu nesses espaços como mais uma alternativa, como algo a mais para ser oferecido nesses espaços noturnos. Ela não foi criada ali, existiu uma troca entre o Egito e os Estados Unidos que gerou o produto final que conhecemos hoje.

Paralelo a isso, aconteciam as feiras mundiais europeias no final do século XIX, décadas antes dos campos cabares existirem. Essa feiras eram realizadas na Europa, porém tiveram duas ou três edições nos Estados Unidos,onde pretendiam levar ao público coisas exóticas que aconteciam no mundo: lugares, pessoas, comidas, músicas exóticas. O que eles ofereciam nessas feiras era generalizado como egípcio, mas hoje sabemos que não era egípcio, seria o que hoje generalizamos como árabe. Nesses eventos haviam artistas de rua de vários países do Oriente Médio como Argelia, Egito, Libano, tanto músicos quanto bailarinos, para tocarem, dançarem para as pessoas. O objetivo principal era o entretenimento.

Tanto essas feiras como os cabarés se utilizavam de uma base cultural, de música e dança dos países entorno do Egito. Fizeram modificações para tornar aquelas manifestações artísticas um pouco mais palatável para o público ocidentalizado, para que não parecesse tão exótico e chocante. Então o que era possível apreciar era um entretenimento exótico, chocante, mas ocidentalizado.

O intercâmbio entre feiras mundiais, os cabarés e os produtores dos Estados Unidos, especialmente o cinema, que surgiu no início do século XX influenciaram muito a forma como as bailarinas se vestiam. As músicas de dança do ventre começaram a serem criadas, não eram necessariamente genuínas, no sentido de serem populares, mas criadas para dança do ventre.

Badia Masabni foi uma empresária responsável pelo o que conhecemos como dança do ventre, pegou tudo isso e criou a personagem da bailarina, com top, cinturão e sutiã, dançando semi nua num palco com músicas de dança do ventre. Ela criou essas bailarinas para entreter o público de seu cabaré, o qual foi o maior cabaré do Egito da história.

Rafaeli Mattos (ArteCult) Alguns objetos são utilizados na prática dessa dança, quais são eles? E qual é o significado do uso de cada um?

Hanna – Existem muitos objetos utilizados na dança do ventre e no folclore árabe. A véu é o mais popular, sendo o bastão o segundo mais popular, passando pela espada, pelo candelabro, pelo snujs (que são címbalas de metal), o pandeiro, punhal etc. Esses são os mais comuns.

snujs

Algumas vertentes atribuem significados à cada um desses objetos, porém não existem registros sobre esses significados. Esses elementos estão presentes na cultura árabe do dia a dia, com exceção do véu. Com a dança do ventre tornando-se cada vez mais cênica e popular, em termos de entretenimento, esses elementos foram incorporados nas danças como elementos cênicos. Assim não existe um significado, mas o uso de elementos cênicos em determinadas danças. Por exemplo, a dança Tartib, é uma dança masculina egípcia de luta, é uma dança-luta, como a nossa capoeira, onde se utilizam um bastão. O bastão é um objeto do dia a dia principalmente dos pastores, assim é um elemento que foi incorporado em uma luta-danca. Quando uma bailarina quer representar uma dança tartib, ela irá utilizar esse bastão sem nenhum tipo de significado sagrado ela pois o objeto faz parte do contexto dessa dança.

O véu foi um elemento introduzido pelos americanos, ele não é um elemento árabe, mas com as trocas culturais, foi incorporado pelas bailarinas das décadas de 40 e 50, pois é um elemento que sugere mistério, sensualidade, elementos esses que caíram muito bem na construção desse personagem que é a bailarina da dança do ventre.

Hanna Aysha. Foto: Adelita Chohfu

Rafaeli Mattos (ArteCult) – Que diferencial possui a dança do ventre feita na contemporaneidade?

Hanna – O que temos hoje na Dança do Ventre é uma influência bem maior de outras danças, tão grande que hoje existem as fusões com a dança do ventre,estabelecendo relações com o samba, tango, o jazz, existindo uma influência maior de elementos de outras danças.

O balé e o jazz entram como elementos de preparação corporal, que se tornaram tão básicos que muita gente acha que alguns movimentos são originais da dança do ventre, mas na verdade não são, vieram destas danças.

Existe uma preocupação imensa com a produção, referente a estética, isso significa cabelo, figurino, maquiagem, há um grande investimento nisso. Há também a preocupação com o corpo, as pessoas não querem ver a bailarina acima do peso, mas acredito que não tenha tanto haver com a dança do ventre, mas antes com o texto que o mundo vem passando atualmente. Essas são as discussões que existem hoje no meio.

Um ponto positivo da atualidade é a preocupação com o estudo das teorias que envolvem a dança do ventre: a cultura árabe, o contexto que a dança nasceu, os folclores, as danças populares árabes, a inspiração que elas trazem para a dança do ventre. Existe uma preocupação em entender os países em que a dança do ventre acontece de forma mais comum, diferente daqui do Ocidente, pois elas estão inseridas no contexto mais familiar. Pois mesmo fazendo-se muita dança do ventre aqui no Ocidente, ainda sim é uma dança exótica,especialmente por conta das músicas. Então há essa preocupação de estudar a teoria é refinar a técnica, tem pessoas desenvolvendo metodologias e considero isso um ponto positivo.

Rafaeli Mattos (ArteCult) – Qual é o público que mais procura essa dança? Quais são seus objetivos?

Hanna Aysha. Foto: Adelita Chohfu

Hanna – O público é maciçamente mulheres, mas também existem alguns homens praticando. No Rio de Janeiro é extremamente incomum, outros estados como São Paulo o Minas Gerais é possível ver mais homens dançando.

De modo geral no Brasil os praticantes são essencialmente mulheres adultas, algumas iniciando na adolescência e seguindo até a vida adulta e em raros casos, iniciando na infância e continuando até a vida adulta.

Geralmente são mulheres que já estão na faculdade, ou trabalham, ou seja, podem pagar suas aulas, e os objetivos variam: algumas querem dançar para seu companheiro, outras buscam as aulas para espairecer a cabeça, geralmente são pessoas que não gostam de academia e buscam uma atividade diferenciada. Chegam às aulas porque viram alguém dançando ou viu alguma amiga que faz aulas dançando e acaba querendo conhecer.

De forma geral, nota-se uma melhora na auto estima, não sendo este o motivo da busca pelas aulas, mas uma consequência da prática em si. Raros são os casos de profissionalização, ou seja, de pessoas que buscam essa dança com objetivo de profissionalizar-se.

Rafaeli Mattos (ArteCult) – Sendo uma prática de dança aparentemente voltada para o público feminino, existem homens praticando a dança do ventre?

Hanna – Sim, existe. No Egito especialmente os homens dançam dança do ventre. A imagem da dança do ventre como uma dança exclusivamente feminina partiu de seu início no cabaré, com moças bonitas dançando. Ao contrário do que se pensa, os homens que dançam no Egito não usam as vestimentas como as bailarinas que estamos acostumados a ver, mas fazem os movimentos básicos da dança do ventre. Dançam em casamentos, entre si, em alguns povoados dançam com Movimentos de quadril, sua dança não apresenta jogadas de cabelos e movimentos delicados das mãos, mas os movimentos de quadril estão muito presentes. No Brasil é um Movimento que está crescendo devagar, existem alguns bailarinos famosos no Brasil que mostraram que são capazes de dançar a dança do ventre, só que sua dança é um pouco diferente do que se espera de uma dançarina mulher. Existem variações entre os bailarinos, alguns são mais femininos, outros mais baléticos, a dança dos homens é menos estereotipada.

Rafaeli Mattos (ArteCult) – Qual é o principal estímulo que você deixa a quem está pensando em iniciar a dança do ventre?

Hanna – Acredito que o principal estímulo que a dança do ventre deixa em uma praticamente,é que nunca mais ela se enxergará da mesma maneira, pois é uma dança que mexe muito com os nossos sentimentos e a visão sobre o nosso próprio corpo e sobre o corpo das outras dançarinas. Fez-se necessário ter uma afinidade, seja pela música, ou pela estética como um todo para gostar. E se a pessoa tem essa afinidade, recomendo enormemente que faça, porque as pessoas se transformam, mudam, depois que começam a dança do ventre, do meu ponto de vista pra melhor. Não estou falando de personalidade, mas a cabeça da pessoa muda, e principalmente a visão sobre si mesma que passa ser mais positiva.

VEJA um pouco sobre a dança de Hanna Aysha :

 

 

 

 

 

 

Quem quiser saber mais sobre a arte da dança do ventre pode conferir o blog http://hannaaisha.blogspot.com.br e os demais links abaixo,  onde é possível conhecer mais a dança de Hanna Aysha dança e suas aulas particulares online.

RAFAELI MATTOS

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Rafaeli Mattos
Mestre em Artes Visuais, com ênfase em dança – UFRJ (2013), Especialista em Estudos Contemporâneos em Dança –UFBA/FAV 2007 e Bacharel em Dança, Intérprete e Coreógrafa, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – 2006/1. Possui formação em jazz, ballet, ballet moderno – Horton, dança contemporânea, sapateado e canto popular. Qualificada Profissional da Dança, artista-dançarina sapateadora e Instrutora de Dança, seguimento sapateado, pelo SPDRJ, atua como professora de sapateado, jazz e balé desde 2007 em diversos espaços de dança do Rio de Janeiro. Integrou a Cia de Dança Contemporânea Helenita Sá Hearp – 2004/1 a 2005/1, Cia Étnica de Dança e Teatro – 2007 a 2008, Projeto Ateliê Coreográfico do Centro Laban RJ – 2008 a 2009, Projeto de residência internacional da coreógrafa Erica Essner (Erica Essner Performance CoOp) no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro 2007 e do grupo A.C.Ho com a performance Q _ _ _ _ _ , realizada no eventro Transperformance em 2011. Como cantora atuou na Cia Nós da Dança no espetáculo Bossanossa – 2009. Foi coreógrafa residente no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro de julho de 2005 a julho de 2006, onde realizou seu primeiro trabalho autoral Chora Corpo Choro, composto pelos solos Rádio e Violão Mudo e pelo quarteto Choro na Feira. Seu segundo solo autoral Ah vai andas?! participou, em junho de 2012, em work in progress do evento Novíssimos da Ocupação Dança pra Cacilda. Em 2015 integrou o corpo de jurados dos festivais de dança Barra Dance e Barra Dance Kids. Sua oficina de Sapateado para Terceira Idade foi contemplada nos anos de 2014 e 2015 nos editais Viva a Cultura e Viva o Talento da secretaria de Cultura do RJ. Hoje atua como professora de balé e sapateado na ONG Projeto Dançarte.

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