Entre a literatura, a tradução e a atividade acadêmica: William Soares dos Santos é nosso convidado do AC Encontros Literários

Entre a literatura, a tradução e a atividade acadêmica: William Soares dos Santos é nosso convidado do AC Encontros Literários.
Confira a entrevista exclusiva a seguir:

ArteCult: Como a Literatura entrou na sua vida?

William Soares dos Santos: Foram vários os fatores, um deles foi o fato que o meu período de formação na escola fundamental e básica foram muito importantes para mim. Tive bons professores de humanidades; além disso, eu não era uma pessoa atlética, o que me forçava a fugir das atividades físicas e me levava a passar grande parte do tempo livre me “escondendo” na biblioteca, tentando descobrir mundos para além dos limites que me circunscreviam. Nesse processo, fui descobrindo muita coisa, das revistas do Tim Tim e da Turma da Mônica à obra de Miguel de Cervantes.

AC: Fale dos livros que publicou até agora.

WSS: Publiquei alguns livros de poesia, um de contos e um romance. Além disso, publiquei trabalhos acadêmicos e traduções. Deixando de lado alguns livros (que podem ser vistos com mais cuidado em minha página (http://williamsoaresdossantos.com.br/index.html ) posso resumir a minha produção da seguinte forma: entre os trabalhos acadêmicos, destacam-se os livros A entrevista na pesquisa qualitativa (Editora Quartet/Faperj, 2013), organizado com a Professora Dra. Liliana Cabral Bastos, e o Formação de professores de línguas em múltiplos contextos (Editora Pontes, 2015), organizado com a Professora Dra. Cláudia Maria Bokel Reis. Entre os trabalhos literários, destacam-se o livro Poemas da meia-noite (e do meio-dia) (Editora Moinhos, 2017), livro ganhador do Prêmio PEN Clube do Brasil para livros de poesias, em 2018, e finalista do 3º Prêmio Rio de Literatura, também em 2018; o livro de poesias Três Sóis (Editora Patuá, 2019) e o romance Memórias de um triste futuro (Editora Patuá, 2020). Traduzi para a língua portuguesa os livros Pedagogias da Libertação – Estudos sobre Freire, Boal, Capitini & Dolci, de Paolo Vittoria & Antonio Vigilante (Editora Quartet/Faperj, 2014) e os romances A cidade do vento, de Grazia Deledda (Editora Moinhos, 2019), tradução classificada entre as cinco últimas finalistas no Prêmio Jabuti de 2020, e Elias Portolu, também de Grazia Deledda (Editora Moinhos), publicado em 2021.

O romance Memórias de um triste futuro foi lançado em 2020. Foto: Divulgação.

 

AC: De onde vem a inspiração?

WSS: A inspiração vem da existência. As poesias, os contos, os romances que escrevemos e as histórias que contamos oralmente são sempre inspiradas na vida, em nossa percepção do mundo em que vivemos, a partir da sociedade em que somos circunscritos, de nossa história pessoal e coletiva e da terra que nos gerou e que nos abriga. Obviamente, para se escrever é preciso exercitar a escrita e desenvolver a criatividade. Com a inventividade, podemos ver desenvolver aquela literatura que procura ir além da vida, mas mesmo a mais absurda das fantasias, tem o seu eixo na existência humana, do contrário não nos reconheceríamos nela.

 

AC: Como nasce um poema? E um livro de poemas?

WSS: Tenho a impressão de que o nascimento de toda a literatura que se julgue digna de tal nome é gestado a partir da observação sensível de realidades ao nosso redor. A diferença está, justamente, em como depuramos e transformamos o que experienciamos em literatura. Em minha humilde opinião, ela ganha dimensionalidade quando a escritora, o escritor são capazes de fazer atravessar a poesia, a história que desejam narrar pelo filtro sensível de seus corações. Aí reside a beleza da obra de arte, pois cada escritor traz suas experiências, o seu olhar como ferramenta central desse processo. Por isso, uma mesma história contada por escritores diferentes será a história de universo particular, com visões e percepções diversas. Um tema pode ter sido tratado centenas de vezes por dezenas de poetas, mas quando a poesia passa pelo filtro do coração daquele que se dedicou diligentemente ao seu labor, algo diferente acontece, e a poesia que ele/ela produziu poderá falar ao coração de outras pessoas também, e, então, a mágica da literatura se desvela diante de nós. É aí que vemos surgir a empatia pelas palavras dos autores, pelos mundos que eles criam através de suas palavras, e, então, todos nós, leitores e escritores, começamos a existir de uma outra forma que nos parece superior.

Trêssóis, livro de poemas de William Soares dos Santos. Foto: Divulgação.

AC: Você tem o hábito de escrever todos os dias? Como é sua rotina de escritor?

WSS: Não escrevo todos os dias, principalmente porque sou, em primeiro lugar, um professor que escreve e não o contrário. A minha dedicação ao magistério é imensa, e não poderia ser de outra maneira, primeiramente porque amo o que faço e, também, por respeito aos meus alunos, à coisa pública e à UFRJ, instituição da qual eu faço parte e que me possibilita o próprio ato de escrever. Não obstante isso, procuro me dedicar com regularidade à escritura, mas compreendendo que, embora possa parecer contraditório, o ato de escrever é apenas o aspecto exterior do ato da escrita. Acredito que, mais importante do que escrever todos os dias seja o exercício regular do ato de leitura dos livros e do mundo. Ainda tenho a crença de que apenas os bons leitores podem almejar a querer ser bons escritores um dia.

 

AC: Bloqueio criativo: mito ou verdade?

WSS: Se o ato de escrever (ou qualquer labor humano) se torna uma imposição de qualquer tipo, seja ela do interior (do próprio escritor, de sua necessidade de escrever melhor do que um outro qualquer, com o qual se compara ou contra o qual compete, etc.) ou do exterior (do mercado, da necessidade de fazer sucesso, dos prazos, etc.), o bloqueio pode, certamente, acontecer. Toda vida precisa de fluidez. O que acontece com uma fonte de águas que busca naturalmente o seu caminho? Ela pode virar um rio e alimentar uma miríade de espécies ao seu redor. Mas se ela é impedida de correr livremente, pode acabar secando e não favorecendo a manutenção da existência. Assim também o é com a arte da escrita. Se a deixamos fluir naturalmente, ela pode vir a dar bons frutos, mas se ficamos presos a tensões fúteis, tais como a vaidade da escrita, a necessidade de agradar, etc., a escrita pode começar a pesar sobre os ombros e sobre o espírito do escritor e se tornar um fardo difícil de suportar, daí que surge o que chamamos de “bloqueio”, e a escrita nos foge, porque nem sempre ela faz o que queremos, temos de deixá-la fluir em um jogo de forças bem medido e deixar nascer, naturalmente, esse mistério. Isso não significa que ela não exija constância, dedicação e paciência, mas mesmo exercendo essas qualidades, o escritor pode se ver imerso em bloqueios se ele não consegue deixar a vida fluir como ele deveria deixar.

  
AC: O que você anda lendo ultimamente?
 

WSS: Tenho revisitado antigos mestres. Estou relendo Dante (1265-1321), Shakespeare (1564-1616), Machado de Assis (1839-1908), Deledda (1871-1936), Virginia Woolf (1882-1941) e Cesare Pavese (1908-1950). Quase nunca saio do eixo de minha formação brasílico-ítalo-anglo-saxã.


AC: Você está trabalhando em algum projeto literário no momento? O que vem por aí nos próximos dias?

WSS: Sempre estou trabalhando em muitas coisas, mas é melhor esperar que elas aconteçam…

 

AC: Sei que você também trabalha como tradutor. O que poderia nos dizer sobre essa atividade?

WSSHá diversos tipos de tradutores e há muito o que dizer sobre cada um deles, mas não saberia fazê-lo, porque sou um tradutor sazonal, ou seja, não me dedico a traduzir de forma regular durante todo o tempo, mas é algo que sempre busquei e que me faz feliz, porque me aproxima das línguas e das culturas que abracei (e que me abraçaram de alguma maneira) e às quais me dedico a estudar durante anos. Por isso, também me sinto feliz porque o ato de traduzir me faz, de algum modo, parte de uma ponte entre culturas. Possibilitar a comunicação, o entendimento, a troca de experiências e o nascimento da beleza entre pessoas de diferentes mundos pode ser um belo ideal a ser perseguido, e tenho muita gratidão por conseguir isso de alguma maneira através das traduções que publiquei. Por outro lado, de forma geral e com raras e honrosas exceções, acho que as editoras remuneram mal e dão pouco reconhecimento ao trabalho dos tradutores, muitas vezes seus nomes nem aparecem nas capas dos livros (o que já seria uma forma de reconhecimento), então o amadurecimento dessa relação precisa ser algo a ser alcançado em nosso país.

Elias Portolu, de Grazia Deledda, foi traduzido por William Soares dos Santos. Foto: Divulgação.

AC: Para finalizar, deixe aqui uma amostra do seu trabalho.

WSS: Alguns dizem que a melhor forma de se conhecer um(a) autor(a) é através de sua obra, e se o(a) autor(a) escreve poesia é lá que iremos buscá-lo(a) primeiramente. Despeço-me agradecido pela oportunidade de conversar com você e com seus leitores e deixo o poema que dá título ao meu livro Três Sóis, publicado pela editora Patuá em 2019. Espero que gostem. Muito obrigado, grande abraço e ótimas leituras.

 

Três sóis

 

 Três sóis

invadiram a

minha retina,

como se dela

emergisse

a luz aguardada

de um novo amanhecer

e refulgissem

os raios de uma

sabedoria ansiadaa

no futuro.

 

Eu vi, também,

os três sóis

ao acordar

do novo dia

da esperança,

banhada de versos

que

não se distinguiam

do brilho secular

da lua nova.

 

Ao ver os três sóis,

confundiu-se

o peregrino,

esquecendo o seu

destino e preferindo o

perder-se em

cercanias e estradas

que não conduziam

a lugar algum.

 

Os três sóis

iluminaram a abadia e

os fiéis

antigos pensaram

se tratar da volta

do redentor.

 

Os três sóis

dançavam no etéreo

da galáxia

atraindo o planeta

mais cheio de vida a

girar ao redor de

seu contrapasso.

 

O parélio que

fez-se claro

no horizonte

levou-nos à vertigem

do ocaso,

em que não mais

assombravam as

constrições do amanhã,

nem as narrativas incertas

do passado.

 

Ao sermos banhados

pela luz que emanava

dos três sóis,

fundimo-nos em matéria e

espírito

na irrestrita

densidade do presente

Até a próxima!

César Manzolillo – Colunista do canal LITERATURA

 

 

 

 

 

 

 

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César Manzolillo
Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de vinte e quatro antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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