Simone de Beauvoir abre as asas da liberdade para nós.
“Porque vocês não sabem do lixo ocidental
Não precisam mais temer
Não precisam da solidão
Todo dia é dia de viver
Não precisam mais temer
Não precisam da solidão
Todo dia é dia de viver
Porque você não verá meu lado ocidental
Não precisa medo, não
Não precisa da timidez
Todo dia é dia de viver
Não precisa medo, não
Não precisa da timidez
Todo dia é dia de viver
Eu sou da América do Sul
Eu sei, vocês não vão saber
Mas agora sou cowboy
Sou do ouro, eu sou vocês”[1]
Eu sei, vocês não vão saber
Mas agora sou cowboy
Sou do ouro, eu sou vocês”[1]
(Para Lennon e McCartney)
“Todo dia é dia de viver.” A frase que começo o artigo da Revista ArteCult deste mês está na música Para Lennon e McCartney, de autoria desses gênios da nossa música brasileira, interpretada por tantos artistas da nossa cultura e aqui, neste recorte temático, funciona como uma alavanca para as reflexões que gostaria de apresentar hoje para vocês, queridas e queridos. “Todo dia é dia de viver.”: parece meio óbvio, mas é preciso trazer outra evidência associada – o contrário disto é singular e inescapável. Da morte não é possível se eximir, e ocorrerá apenas uma vez, então o que fazemos entre o instante presente e este dia tão enigmático?
A música nos abre muitas portas para ambientes filosóficos essenciais e que são partes constitutivas de nossas existências, bem como a literatura, a poesia, a pintura e todas as demais manifestações artísticas, e nos remetem a uma ideia que Nietzsche, filósofo alemão do século XIX afirma em O nascimento da tragédia[2]: a vida só vale se for vivida com arte de forma criadora. No centro disto tudo (vida e arte) estamos nós, humanos agraciados com o logos e também nutridos por afetos e pela capacidade de agir e de escolher. Eis nosso tema principal de hoje: liberdade. E para tanto vou me apoiar numa pensadora francesa do século XX, Simone de Beauvoir[3]. Filósofa, professora, escritora e uma das mais célebre feminista de nosso tempo, que desde sua adolescência já questionava o que esperavam dela e o ‘futuro’ pré-determinado. Para ela, como veremos, liberdade é sinônimo de autonomia (do grego auto + nómos, algo como uma norma/lei/regra para si próprio), de absoluta abertura de ação e de reflexão – sem um a priori ou um a posteriori. UAU! Parece mesmo libertador, mas há muitas implicações éticas e morais que contornam e estabelecem fronteiras de interdição. Uma dessas é o outro. Eis aqui a face complementar da liberdade: a alteridade. Por que, então, a importância de refletir sobre a liberdade e alteridade a partir de Simone de Beauvoir?
A obra em que me apoio é o Segundo sexo[4], em dois volumes, publicada originalmente na França em 1949. Nossa pensadora, então com 41 anos, propõe-se a falar sobre a mulher, num contexto histórico de pós-guerra e um mundo em profundas revoluções e transformações políticas, sociais, econômicas e de costumes. Mas já de início ela é taxativa (e irônica): “o tema é irritante, principalmente para as mulheres.” (P. 7). Mas ao longo do livro, a pensadora vai, aos poucos, trazendo o problema que deseja abordar: o Outro, com maiúscula, este segundo sexo. Porém o Outro é também o diferente, a negação e foi sistematicamente subjugado, como ela coloca:
“Um homem não teria a ideia de escrever um livre sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade. […] A mulher aparece como o negativo, de modo que toda determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade. Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstratas, ouvir os homens dizerem-me: ‘você pensa assim porque é uma mulher’. Mas eu sabia que minha única defesa era responder: ‘penso-o porque é verdadeiro”. (P. 9).
Sua ideia aqui está para além da questão do gênero e das oposições. Ela pensa a universalidade e também o outro, o diferente de mim, parte integrante do todo político-social. Novamente uma obviedade, mas para ela, este outro é tão ancestral quanto a nossa condição:
“A categoria do Outro é tão original quanto a própria consciência. Nas mais primitivas sociedades, nas mais antigas mitologias, encontra-se sempre uma dualidade que é a do Mesmo e a do Outro. […] a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. Nenhuma coletividade se define nunca como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si.” (P. 11).
A alteridade, então, para Beauvoir, é “uma categoria fundamental do pensamento humano” e está engendrada na condição humana. Mas onde erramos, então, enquanto indivíduos que vivem em sociedade e onde o outro é imprescindível? Há muitas possibilidades de reflexão para este ponto, mas uma delas, para Beauvoir, é um acontecimento histórico, “que subordinou o mais fraco ao mais forte” (P. 12). É a transição da vida comunitária para a propriedade privada e a mulher como parte desta ‘propriedade’. No fundo, além da questão da posse, o que está em cena é também a dominação de um sobre o outro, como lemos nesta passagem:
“Se a relação original do homem com seus semelhantes fosse exclusivamente uma relação de amizade, não se explicaria nenhum tipo de escravização: esse fenômeno é consequência do imperialismo da consciência humana que procura realizar objetivamente sua soberania. Se não houvesse nela a categoria original do Outro, e uma pretensão original ao domínio sobre o Outro, a descoberta da ferramenta de bronze não poderia ter acarretado a opressão da mulher.” (P. 77-8).
A pensadora faz uma análise detalhada, indo desde os nossos primeiros coletivos até os dias de hoje (no caso a década de 1940, mas que infelizmente ainda sobrevive em nossos dias). Aqui é importante destacar que antes do ponto da dominação da técnica está o fundamento essencial da necessidade de dominação do Outro – qualquer outro. Mas Beauvoir chama a atenção de que não somos indivíduos da produção e do consumo: “é preciso ir além do materialismo histórico que só vê no homem e na mulher entidades econômicas.” (P. 80).
Já na segunda parte do Volume I da obra, ela entra na questão histórica de dominação, afirmando que “o mundo sempre pertenceu aos machos” (P. 81). Mas, por outro lado, vemos a afirmação dela para pensar o outro e a diferença com e entre o outro, histórica e eticamente, nesta importante passagem:
“Assim, o triunfo do patriarcado não foi nem um acaso nem o resultado de uma revolução violenta. Desde a origem da humanidade, o privilégio biológico permitiu aos homens afirmarem-se sozinhos como sujeitos soberanos. Eles nunca abdicaram o privilégio; alienaram parcialmente sua existência na Natureza e na Mulher, mas reconquistaram-na a seguir. Condenada a desempenhar o papel do Outro, a mulher estava também condenada a possuir apenas uma força precária: escrava ou ídolo, nunca é ela que escolhe seu destino.” (P. 97).
Pensar a alteridade passa assim por destituir-se do papel tirânico de dominação do Outro. E nos dias atuais esse exercício me parece ainda mais imperativo, porque nesse Outro cabe uma diversidade muito mais abrangente do que em 1949. Para que possamos viver livremente é imprescindível reconhecer o Outro, respeitar integralmente o Outro e que este Outro seja plenamente autônomo e emancipado. Notem que mantive o pronome com o “o” maiúsculo para ser fiel ao que Beauvoir preconizava lá nos anos 40.
Avançando em sua obra, na terceira e última parte do Volume I, ela se volta para uma reflexão contundente em torno da alteridade e da necessária presença/existência do Outro:
“A história mostrou-nos que os homens sempre detiveram todos os poderes concretos; desde os primeiros tempos do patriarcado, julgaram útil manter a mulher em estado de dependência; seus códigos estabeleceram-se contra ela; e assim foi que ela se constituiu concretamente como Outro. Esta condição servia os interesses dos homens, mas convinha também a suas pretensões ontológicas e morais. Desde que o sujeito busque afirmar-se, o Outro, que o limita e nega, é-lhe entretanto necessário: ele só se atinge através dessa realidade que ele não é.
[…]
Só há presença de outro se o outro é ele próprio presente a si; isso significa que a verdadeira alteridade é a de uma consciência separada da minha e idêntica a ela. É a existência dos outros homens que tira o homem de sua imanência e lhe permite realizar a verdade de seu ser, realizar-se como transcendência, como fuga para o objeto, como projeto.” (P. 179).
Mas por outro lado:
“o drama pode ser resolvido pelo livre reconhecimento de cada indivíduo no outro, cada qual pondo, a um tempo, a si e ao outro como objeto e como sujeito em um movimento recíproco.
[…]
De maneira que, incapaz de se realizar na solidão, o homem em suas relações com seus semelhantes acha-se permanentemente em perigo: sua vida é uma empresa difícil cujo êxito nunca se encontra assegurado.” (P. 180)
Ou seja: precisamos uns dos Outros para que, cada um a seu tempo e no seu modo, possa ser livre para agir e reconhecer o Outro. Ela prossegue a obra – que permanece atualíssima em todo seu contexto – falando dentre outros assuntos sobre a liberdade e esse Outro, tão necessário quanto eu mesmo, com todo o ‘pacote’ envolvido. Mas por que a importância, então, de refletir sobre liberdade e alteridade a partir de Simone de Beauvoir? Eis aqui algumas possíveis respostas, mas que você poderá continuar com mais alternativas:
- Porque em sua trajetória de vida, a liberdade anda de mais dadas com a alteridade.
- Porque ela afirma no Segundo Sexo (Vol. I) que “[…] a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano.” (P. 11). E apesar de todas as diferenças existentes, por sermos homens e mulheres do logos, deveríamos continuamente pensar sobre este outro e esta outra.
- Porque a alteridade, por ser tão relevante para nossas relações, deveria ser inoxidável – sem jamais ser deteriorada.
- Porque esse outro – apesar de todas as diferenças – não é descartável.
- Porque pensar o outro é atemporal e atópico.
- Os valores éticos e morais devem ser invioláveis.
- Continua…
A liberdade, nos dias de hoje, de cobrança por maxi desempenho em praticamente todos os aspectos de nossas vidas passa pelo autêntico (e difícil) ato de autoquestionamento e de (des)acoplamento de determinados modos de pensamento, de consumo, de cobrança, de busca de aceitação/validação externa. E quando afirmo isto estou revisitando a vida e as escolhas que Simone de Beauvoir fez – rompendo com a expectativa que os outros tinham sobre ela – em relação, talvez, a quase tudo: carreira, casamento, família etc. Sua resposta foi se construindo à medida que crescia, com seus questionamentos sobre o modo de vida que lhe circundava. Sua resposta foi se alicerçando em suas leituras e estudos. Em suas experiências históricas. Sua resposta abriu portas para muitas e muitos que vieram depois dela e até hoje e para além de nós. Sua resposta foi um SIM para se permitir viver sua vida livre de pré condicionamentos impostos.
A cantora estadunidense Nina Simone tem uma frase muito conhecida sobre o tema, que a meu ver complementa o ponto de vista de Beauvoir: “liberdade é não ter medo.”. É o árduo exercício de autoquestionamento frente às angústias que se nos apresentam. E, acima de tudo, respeitar o Outro e deixá-Lo livre para viver, porque “todo dia é dia de viver”: sem as amarras do a priori e/ou do a posteriori. Porque simplesmente não cabemos numa caixinha que tentam nos colocar. Falar de liberdade e alteridade requer vigilância permanente, porque não podemos jamais esquecer da necessidade e da potência de que o Outro é/representa/constitui.
E para embalar o encerramento deste artigo de hoje, trago trecho de uma música, samba-enredo da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, de 1989: Liberdade, liberdade! Abre as asas sobre nós[5], interpretada pela cantora Simone Bittencourt de Oliveira, que ano passado celebrou 50 anos de carreira:
“Liberdade, liberdade!
Abra as asas sobre nós (bis)
E que a voz da igualdade
Seja sempre a nossa voz
Abra as asas sobre nós (bis)
E que a voz da igualdade
Seja sempre a nossa voz
Vem, vem, vem reviver comigo amor
O centenário em poesia
Nesta pátria, mãe querida
O império decadente, muito rico, incoerente
Era fidalguia
Surgem os tamborins, vem emoção
A bateria vem no pique da canção
E a nobreza enfeita o luxo do salão
Vem viver o sonho que sonhei
Ao longe faz-se ouvir
Tem verde e branco por aí
Brilhando na Sapucaí.”
O centenário em poesia
Nesta pátria, mãe querida
O império decadente, muito rico, incoerente
Era fidalguia
Surgem os tamborins, vem emoção
A bateria vem no pique da canção
E a nobreza enfeita o luxo do salão
Vem viver o sonho que sonhei
Ao longe faz-se ouvir
Tem verde e branco por aí
Brilhando na Sapucaí.”
Dedico este artigo muito respeitosamente a esta grande artista da nossa música. Com Simone aprendi a admirar a liberdade e ser quem sou, desde minha infância. Simone, esta brasileira, que “não foge à luta”, que foi farol para tantas e tantos e está sempre em movimento, “porque o tempo não para” e porque “todo dia é dia de viver”.
EVOÉ às Simones!
Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult.
[1] Trecho da música Para Lennon e McCartney. Composição: Fernando Brant, Marcio Borges, Lo Borges.
[2][2] NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Tradução de J. Guinsburg – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[3] Segundo a Wikipedia: Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir; Paris, 9 de janeiro de 1908 – Paris, 14 de abril de 1986), foi uma escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa. Embora não se considerasse uma filósofa, De Beauvoir teve uma influência significativa tanto no existencialismo feminista quanto na teoria feminista. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Simone_de_Beauvoir – Acesso em 15 de agosto de 2026).
[4] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet – Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
[5] Composição: Jurandir, Vicentinho, Preto Jóia, Niltinho Tristeza
ZAL
Zalboeno Lins (ZAL) | Foto: Divulgação
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