Um dos festivais mais cultuados da música alternativa internacional finalmente terá uma edição brasileira. O Levitation, criado em Austin, no Texas, anuncia sua chegada à América do Sul com a primeira edição do Levitation Brasil, marcada para 23 de janeiro de 2027, no Komplexo Tempo, em São Paulo.
A estreia reúne um elenco que representa diferentes vertentes do rock e da música experimental, com os norte-americanos Melvins, Osees, Boris e Frankie and the Witch Fingers no line-up internacional. A programação também destaca quatro nomes da cena alternativa brasileira: Test, Bike, Ema Stoned e Bufo Borealis.
Com realização da Maraty e patrocínio exclusivo da Kunumi, o festival fará parte de um circuito sul-americano que também passará por Buenos Aires, na Argentina, em 20 de janeiro, e Santiago, no Chile, em 21 de janeiro. Os ingressos para a edição brasileira começam a ser vendidos em 19 de agosto, às 10h, pela Fastix.
Mais do que uma nova opção no calendário de grandes eventos de São Paulo, a chegada do Levitation ao Brasil representa a expansão de um festival que, ao longo de 18 anos, construiu uma identidade própria ao aproximar psicodelia, rock, punk, metal, shoegaze, dream pop, darkwave e outras vertentes experimentais em uma curadoria que privilegia a diversidade e a relevância artística.
Confira o lineup:
Melvins

Foto: Divulgação
Formado em 1983, em Montesano, no estado norte-americano de Washington, o Melvins ocupa uma posição fundamental na história da música pesada. Ao desacelerar a violência do hardcore e submetê-lo a riffs densos, afinações graves e estruturas deliberadamente imprevisíveis, a banda ajudou a estabelecer as bases do sludge e exerceu influência direta sobre a geração que projetaria o rock do noroeste dos Estados Unidos nos anos 1990, como o stoner e o grunge. Aliás, o Kurt do Nirvana por diversas vezes falou que Melvins foi sua inspiração direta.
Conduzido desde o início pelo guitarrista e vocalista Buzz Osborne, com Dale Crover na bateria desde 1984, o Melvins construiu uma discografia extensa e avessa à repetição. Álbuns como Gluey Porch Treatments (1987), Bullhead (1991), Lysol (1992), Houdini (1993) e Stoner Witch (1994) transformaram a banda em referência para nomes do grunge, doom, noise rock e metal experimental. O repertório atravessa canções compactas, peças de longa duração, humor corrosivo e experiências que desafiam as divisões tradicionais entre punk e metal.
A liberdade de formação também se tornou parte do método. O Melvins já trabalhou com diferentes baixistas, duas baterias, alinhamentos alternativos e projetos como Melvins 1983, dedicado à parceria entre Osborne e o primeiro baterista Mike Dillard. Na formação de turnê de 2026, Buzz Osborne e Dale Crover dividem o palco com Steven McDonald e Coady Willis.
Depois de lançar Tarantula Heart em 2024 e Thunderball, creditado ao Melvins 1983, em 2025, a banda chegou a 2026 com Savage Imperial Death March, colaboração com o Napalm Death. O encontro liga duas trajetórias que alteraram, cada uma à sua maneira, os limites do punk, do metal e da música extrema. Vale falar que enfim o Melvins retorna ao Brasil após 17 anos!
Osees

Foto: NICK SAYERS
Poucas bandas contemporâneas traduzem movimento e transformação com a intensidade do Osees. Criada por John Dwyer em 1997, em São Francisco, e atualmente radicada em Los Angeles, a banda tornou-se uma das forças centrais da psicodelia norte-americana ao combinar garage punk, krautrock, hardcore, sintetizadores, improvisação e uma atividade quase ininterrupta em estúdio e na estrada.
A sucessão de nomes acompanha as diferentes fases dessa história: OCS, Orange County Sound, The Ohsees, Thee Oh Sees, Oh Sees e Osees representam mutações de uma mesma criação liderada por Dwyer. Discos como The Master’s Bedroom Is Worth Spending a Night In (2008), Carrion Crawler/The Dream (2011), Floating Coffin (2013), Mutilator Defeated at Last (2015), Orc (2017) e Face Stabber (2019) formam um catálogo no qual energia imediata e experimentação caminham lado a lado.
A formação consolidada por Dwyer nos vocais e guitarra, Tim Hellman no baixo, Tomas Dolas nos teclados e guitarras e os bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone deu ao Osees uma identidade de palco particularmente física. As duas baterias funcionam como motor para shows velozes, ruidosos e sujeitos a longos desvios instrumentais. Essa reputação ao vivo acompanha uma discografia que muda de direção sem abandonar o impulso rítmico.
Nos últimos anos, o Osees voltou-se ao hardcore em A Foul Form (2022), atravessou synth punk e no wave em Intercepted Message (2023), trocou grande parte das guitarras por samplers em SORCS 80 (2024) e recuperou a urgência política em ABOMINATION REVEALED AT LAST (2025).
Lançado de surpresa em junho de 2026, OFF COURSE abre outra frente: cinco faixas desenvolvidas a partir de jams psicodélicas, funk e rock progressivo.
No Brasil, a banda terá a participação da vocalista, tecladista e percussionista Brigid Dawson, que apesar de ter saído da formação oficial, ainda contribui com o grupo.
Boris

Foto: Divulgação
Formado em Tóquio em 1992, Boris construiu uma das discografias mais abertas e imprevisíveis da música pesada japonesa. Wata, Takeshi e Atsuo transformaram a mudança permanente em identidade, atravessando drone, doom, sludge, noise, hardcore, shoegaze, psicodelia, ambient e pop sem estabelecer uma versão definitiva para a própria música.
O nome foi retirado de “Boris”, faixa que abre Bullhead, álbum lançado pelo Melvins em 1991. A influência inicial tornou-se ponto de partida para uma linguagem independente, desenvolvida em discos como Absolutego (1996), Amplifier Worship (1998), Flood (2000), Feedbacker (2003) e Akuma no Uta (2003). Cada trabalho explora uma relação diferente entre volume, repetição, silêncio e textura.
Lançado no Japão em 2005 e internacionalmente no ano seguinte, Pink projetou o trio para um público mais amplo. O álbum reuniu peso, velocidade, melodias enevoadas e longas expansões instrumentais em faixas como “Farewell”, “Pink” e “Just Abandoned Myself”. Desde então, Boris ampliou o catálogo com colaborações frequentes, especialmente com Merzbow, além de discos como NO (2020), marcado pelo hardcore, e W (2022), construído com atmosferas minimalistas e próximas do dream pop.
Em 2025, o trio realizou a primeira apresentação de sua carreira no Brasil. A fase atual concentra-se nas comemorações dos vinte anos de Pink, com turnês pela Ásia, Reino Unido e Europa ao longo de 2026. De volta ao Brasil, prometem tocar petardos do início da carreira.
Frankie and the Witch Fingers

Foto: BELLA PETRO
Formada em 2013, em Bloomington, Indiana, e posteriormente estabelecida em Los Angeles, Frankie and the Witch Fingers surgiu no circuito independente norte-americano com uma combinação elétrica de garage rock, surf music e psicodelia. A banda passou a década seguinte desmontando essa fórmula e reconstruindo o próprio som por meio de post-punk, funk, new wave, sintetizadores e texturas industriais.
A evolução pode ser acompanhada em álbuns como Heavy Roller (2016), Brain Telephone (2017), ZAM (2019) e Monsters Eating People Eating Monsters… (2020). O salto representado por Data Doom (2023) aprofundou as estruturas rítmicas, os arranjos angulares e a presença eletrônica, consolidando uma identidade distante de qualquer leitura limitada ao revival psicodélico.
Dylan Sizemore, Josh Menashe, Nikki Pickle Smith, Nick Aguilar e Jon Modaff formam atualmente uma banda construída em torno do movimento. A intensa circulação internacional e a ética DIY levaram Frankie and the Witch Fingers a dividir palcos com Osees, Ty Segall, OFF!, Cheap Trick e ZZ Top. A energia dos shows acompanha um repertório em constante mutação, com guitarras nervosas, baixo pulsante, sintetizadores instáveis e canções que alternam impacto direto e passagens experimentais.
Produzido por Maryam Qudus, Trash Classic foi lançado em 2025 pela Greenway Records e pela Reverberation Appreciation Society. O oitavo álbum radicaliza a fusão de proto-punk, industrial e new wave em faixas como “Economy”, “Total Reset”, “Dead Silence” e “Gutter Priestess”.
As letras observam tecnologia, consumo e colapso social com ironia, enquanto a produção troca a nostalgia de garagem por uma sonoridade urbana, tensa e deliberadamente deformada.
Ema Stoned

Foto: Divulgação
Formada em São Paulo em 2011, Ema Stoned desenvolve uma música instrumental guiada pela improvisação, pela psicodelia e pela liberdade de estrutura. Alessandra “AL” Duarte na guitarra, Elke Lamers no baixo e Theo Charbel na bateria formam o trio, que adota a expressão “rock digressivo” para definir composições capazes de avançar, interromper caminhos e encontrar novas direções durante a execução.
A trajetória começou com formações mais abertas e passagens vocais, mas encontrou sua configuração mais característica na interação entre os três instrumentos. O álbum Gema (2013) apresentou a base experimental da banda; Live From Aurora (2016) documentou sua força em apresentação; e Phenomena (2019) nasceu de uma sessão de improvisação com Makoto Kawabata, guitarrista do Acid Mothers Temple, e Douglas Leal, do Yantra. O encontro aproximou a psicodelia paulistana do universo experimental japonês em uma sequência de seis movimentos.
Em Devaneio (2023), Ema Stoned aprofundou a combinação de krautrock, rock instrumental, ruído e improvisação. Faixas como “Spirulina”, “Curva do Sonho”, “Vale da Lua” e “Bico do Corvo” alternam passagens rítmicas compactas e expansões nas quais guitarra, baixo e bateria assumem funções móveis. O disco também registra uma formação feminina que ocupa o experimentalismo brasileiro sem tratar essa presença como elemento separado da criação musical.
A partir de 2025, “Curva do Sonho” ganhou uma leitura visual inspirada pelas reflexões de Ailton Krenak. Em 2026, o trio iniciou uma colaboração com Edgard Scandurra por meio do single “Cinza das Horas” e de um novo repertório apresentado ao vivo. O encontro liga a pesquisa instrumental da Ema Stoned à trajetória de um dos guitarristas mais inventivos do rock brasileiro.
Bike

Foto: Divulgação
Formada em 2015, em São José dos Campos, a Bike tornou-se um dos nomes brasileiros de maior circulação internacional dentro do rock psicodélico contemporâneo. Julito Cavalcante, Diego Xavier, Daniel Fumega e Gil Mosolino constroem uma música que conecta psicodelia, krautrock, Tropicália, rock progressivo e repetição motorik a ritmos, imagens e referências brasileiras.
O primeiro álbum, 1943 (2015), abriu uma sequência de lançamentos marcada por mudanças de linguagem. Em Busca da Viagem Eterna (2017) ampliou a dimensão narrativa das composições; Their Shamanic Majesties’ Third Request (2018) acentuou o caráter psicodélico; e Quarto Templo (2019) avançou sobre atmosferas mais pesadas e ritualísticas. Em Arte Bruta (2023), a banda aproximou distorção, percussão e canção brasileira com maior nitidez.
A trajetória ganhou alcance fora do país por meio de turnês europeias, apresentações no SXSW e uma sessão gravada para a rádio norte-americana KEXP. Arte Bruta também apareceu na seleção da emissora dedicada aos destaques da música alternativa latino-americana de 2023.
Em diferentes fases, a Bike dividiu apresentações com The Brian Jonestown Massacre, Os Mutantes, Boogarins e Graveyard, além de circular por festivais e palcos independentes da Europa e das Américas.
Lançado em setembro de 2025, Noise Meditations nasceu de sessões abertas de improvisação. As dez faixas preservam a psicodelia da banda, mas deslocam o centro criativo para a interação coletiva, a repetição e o desenvolvimento espontâneo. Incluído entre os cem melhores discos brasileiros de 2025 pela APCA, o álbum abriu o ciclo que levou a Bike a novas apresentações no Brasil, Chile e Argentina em 2026.
Test

Foto: Divulgação
O TEST converteu deathgrind, ruído e experimentação em um modelo próprio de criação e circulação. Formado em São Paulo em 2010 por João Kombi na guitarra e voz e Barata na bateria, a trajetória começou nas ruas, com apresentações realizadas do lado de fora de grandes shows e estádios, alimentadas por um gerador transportado em uma Kombi. A ação colocou o duo diante do público sem depender de convite, palco ou estrutura convencional.
O que nasceu como intervenção transformou-se em uma carreira internacional. O TEST já ultrapassou mil apresentações em trinta países, passou por todos os estados brasileiros e realizou turnês pela América do Norte, Europa, Ásia, Oceania e América Latina. A agenda inclui festivais como Obscene Extreme, Maryland Deathfest, Dark Mofo, SWR Barroselas, Novas Frequências, Abril Pro Rock e Coquetel Molotov.
A mesma abertura aparece na discografia. Arabe Macabre (2012) e Espécies (2015) estabeleceram a violência concisa do duo; O Jogo Humano (2019) foi concebido como álbum interativo, com diferentes possibilidades de percurso; e Disco Normal (2023) levou o processo de gravação para espaços abertos e locais afastados do formato tradicional de estúdio. Essa experiência deu origem ao documentário Um Disco Normal, exibido na Cinemateca Brasileira.
Ao longo da carreira, o TEST dividiu programações com Napalm Death, Carcass, Cannibal Corpse, Mr. Bungle, King Diamond, Tom Zé, Boogarins e Metá Metá. Em 2025, a colaboração com Deafkids resultou em Sem Esperanças, encontro entre grindcore, drones e percussão experimental. Depois de realizar 38 apresentações na Almost World Tour de 2026, o duo abriu outra frente com o GoaTesT, parceria com integrantes do Goatburner.
Bufo Borealis

Foto: Divulgação
Criado em São Paulo em 2020 pelo baixista Juninho Sangiorgio e pelo baterista Rodrigo Saldanha, Bufo Borealis explora o ponto de contato entre jazz-funk, psicodelia, rock experimental e improvisação. A formação é completada por Anderson Quevedo no saxofone, Paulo Kishimoto e Vicente Tassara nos teclados e Tadeu Dias na guitarra.
O nome nasceu de uma constelação fictícia presente na arte de One Size Fits All, de Frank Zappa and the Mothers of Invention, e também remete ao imaginário dos sapos venenosos. A referência combina com uma música que absorve fontes distintas sem buscar pureza de gênero. Miles Davis em sua fase elétrica, Curtis Mayfield, Lou Donaldson, Sly Stone, hip-hop, ritmos latinos e música instrumental brasileira aparecem entre as coordenadas do sexteto.
Pupilas Horizontais (2020) apresentou uma sonoridade baseada em grooves extensos e interação instrumental. Diptera (2022) ampliou a presença do funk e da psicodelia, enquanto Ao Vivo no Sesc Pompeia (2024) documentou a natureza variável dos shows, nos quais os temas funcionam como pontos de partida para improvisações. A experiência acumulada em diferentes cenas, do punk e hardcore ao jazz, alimenta uma execução precisa sem retirar o risco de cada apresentação.
Lançado em março de 2025, Natureza foi o primeiro álbum da banda com composições desenvolvidas por todos os integrantes. O disco apareceu entre os cem melhores trabalhos brasileiros daquele ano na seleção da APCA. Em seguida, “Mãe da Lua”, gravada com Mista Luba, aproximou o Bufo Borealis da cultura de produção do hip-hop e da fragmentação rítmica associada a Donuts, de J Dilla.
Serviço | Levitation Brasil
Data: sábado, 23 de janeiro de 2027
Local: Komplexo Tempo
Endereço: Avenida Henry Ford, 511, Parque da Mooca, São Paulo
Atrações: Melvins, Osees, Boris, Frankie and the Witch Fingers, Test, Bike, Ema Stoned e Bufo Borealis
Ingresso: fastix.com.br/events/levitation-brasil
Venda: a partir de 19 de agosto na Fastix
Ingressos físicos sem taxa: Loja 255 da Galeria do Rock (R. 24 de Maio 62, Centro)
Patrocínio: Kunumi
Produção: Maraty
Apoio: Powerline
Censura: permitida a entrada de menores de 18 anos desde que acompanhados de responsável legal.
Acessibilidade: o local é totalmente equipado para atender a PCDs e haverá um espaço exclusivo para cadeirantes poderem ver os shows com toda a visibilidade e conforto.










