The Santis MC

Coluna de Márcio Calixto

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The Santis

por Márcio Calixto

 

Ele me pediu para que eu escrevesse sobre ele.

Na hora, peguei o celular e mostrei que já escrevia sobre o THE SANTIS MC, o motoclube que, por ora, estamos criando. A ideia é essa mesma, criar o motoclube, com o nome da família. Não cheguei a expor o que eu já havia escrito, queria manter algum ineditismo.

Logo depois daquele encontro, regado a pizza e coca-cola, percebi como esse processo de aqui conduzir palavras tem lá todo o valor de seu significado. É fundamental escrever. É fundamental escrever sobre as pessoas que de alguma forma estão ao seu lado, não somente como desejo de imortalizá-los, mas para que se sintam profundamente importantes. Essa importância que já têm e que precisam, de alguma forma, lerem aqui como concretização de meu sentimento por cada um sobre quem escrevo.

Agora escrevo a você, Maurício Júnior.

Pois bem, a crônica, que se iniciaria nesse ponto, agora se soma a essa declaração.

A crônica: THE SANTIS MC

Eu e um primo, o Maurício, criaremos um Motoclube com o nome da família. Esse daí que ilustra o título. O motivo: uma desculpa para que pudéssemos nos encontrar em qualquer lugar do Brasil. O incômodo com o fato de que eu fiquei cinco anos – sem que eu percebesse – longe de meus primos e tios me levou a mover ideias que deveriam vir a comungar em nosso reencontro. Aliás, as três últimas crônicas que escrevi vieram nessa mesma toada, esse desejo de me fazer presente e de me encontrar mesmo.

A ideia: nos encontrarmos nos distintos municípios que compõem o Brasil. Vou aqui expor um desejo de viagem que tenho: conhecer todos os 5570 municípios do Brasil. Utópico? Talvez. Mas sabemos da história de pessoas que saíram por esse mundão todo atrás dessas experiências locativas e particulares. Quero ser um. Claro que a vida de trabalho e de tantas outras responsabilidades me impedem de realizar imediatamente. Porém, já fiz o levantamento, uma prévia de planejamento e vou passar agora a dividir essa ideia com o máximo de pessoas para ver se comigo desbravam esse Brasil todo. Por que não com o The Santis?

Em plena festa de aniversário de minha mãe, percebi que não nos víamos desde a morte de nossa avó, em Agosto de 2021. Com a chegada dos 70 anos de minha progenitora, houve um reencontro, que expôs a falibilidade das persistências.

Vovó era uma âncora nossa. Para alguns, como eu, uma avó, em sua plenitude, me perguntando sobre questões da vida e de como ela se seguia. Para outros, uma mãe, principalmente quando percebi que havia mães ausentes, não por uma fraqueza psíquica, mas porque havia algum lapso a ser reparado. Esse meu primo, em especial, perdeu a mãe antes de perder a avó. Nossa avó, nesse caso, que viu sua filha se ir abruptamente, foi a esse primo e em consequência também à sua irmã uma mãe, profundamente zelosa e presente. A um outro primo também, nossa avó foi mãe, quando a mãe dele precisava estar em outros espaços atendendo a demandas infindas. Nossa avó não foi só avó, foi alicerce, câmara de ar, local de refúgio, coração mais quente do que o normal. O fiel de uma balança que não parava de se mexer. Acreditei, em minha ingenuidade, que certas questões aos nossos encontros familiares iriam persistir, como memória fórmica e insaturável. Ver sua deterioração natural não me fez antever como ela era esse esteio que fundamentava sinergia. Com sua partida, um universo se partiu ao meio e o que era encontro virou agonia argumentativa entre aquelas que julgavam ser sucessão. Não houve sucessão. Não houve cadeira a ser sucedida. Não há reinado. Porém, nossa rainha mor não está mais aqui.

Com o motoclube, quero de alguma maneira trazer isso de volta. Sem me preocupar com egos que persistem inflados. Só não irei apenas ser profundamente restritivo. O que teremos é um real motoclube. Em miúdos, aqueles que leem essa crônica e que querem de alguma forma participar de um motoclube, que tem o desejo de rodar o Brasil, conhecer seus meandros mais absurdos, indo de culinária à viagem cultural, premiando-se com insígnias, marcações, exposição e principalmente fazer isso dentro de um coletivo, pode se unir ao grupo. Estamos nesse momento fechando detalhes, como o estatuto do grupo.

Iremos começar as viagens pelo Rio de Janeiro. Com esses passeios, vamos criando as nossas percepções e alinhando detalhes. Sim, é um Motoclube, mas não há a necessidade de se ter uma moto para se juntar ao clube. Tem carro, tem desejo de viajar, pode se juntar, vamos incluí-lo em nosso grupo. Também iremos aceitar crianças, pois o motoclube será profundamente familiar. Alguns elementos que são comuns ao motoclube também estarão presentes, como o gosto pelo rock. Montaremos uma sede, usaremos colete e criaremos uma hierarquia. No primeiro ano de existência do motoclube não iremos graduar por baixo. Ao entrar, já terá direito ao patch que impõe a insígnia do nosso motoclube. Apesar do nome, THE SANTIS, um reducionismo de um dos nossos nomes, SANTIAGO, não seremos um grupo religioso. Partiremos da laicidade e sua religião não será um problema. Espectro político também, mas vamos logo deixar bem claro nosso apego ao progressismo. Extremistas de direita nem cheguem perto.

Um detalhe que vou colocar em nosso estatuto é que não iremos aceitar membros com histórico de violência familiar, criminal ou qualquer outro elemento que desabone a presença do membro no grupo. É um grupo familiar mesmo. Se o desejo é família se reunindo, nada do que possa ser problemático estará por ali.

Para se ter uma ideia do que move esse meu desejo de criar o motoclube e atrair ainda mais aqueles que conheço para esse espaço: o próprio editor do site, Raphael Gomide, pessoa que conheço a mais de uma década, é alguém que pouco vi ao longo de minha vida. Não lembro quando foi nosso último encontro, mas acredito que tenha sido em um dos eventos que movemos em uma das escolas onde trabalhei. Depois disso, de vários outros acontecimentos em nossa sociedade, como uma pandemia, não consigo lembrar quando o vi pela última vez. Na atual fase de minha vida, julgo que seja inadmissível. Muito. Lutamos pela cultura há mais de uma década. Cadê as nossas fotos de quando estivemos juntos? Já logo digo que está convidadíssimo a entrar no motoclube e participar dos encontros que iremos fazer.

Um outro detalhe que moverá o motoclube é o desejo de estimular cultura. Teremos uma biblioteca no espaço, aliado a videogames. Qualquer criança poderá aparecer para jogar. Para jogar, tem que estar lendo algum dos livros. Quero fazer o mesmo que fez um camarada chamado William Santos, de Itatiaia, que criou um projeto fantástico para sua lanhouse, a cada dez minutos de leitura, 20 minutos de jogo liberado. As crianças que não podem pagar estão lendo horrores. Adorei a ideia do projeto, quero reproduzi-lo. Também quero ajudar a criar livrarias. É comum em eventos de motociclistas receber alimentos, que irei direcionar ao projeto de Cidadania da Portela, onde já me encontro.

Relembro as palavras de meu primo, a quem dedico essa crônica, esse motoclube e esse nosso novo momento de vida. “Primo, por favor, não me abandone”.

Escrevo essa crônica também expondo esse intento, como forma de convocar nosso coletivo: Por favor, não me abandonem. Vamos conhecer o mundo sobre duas rodas.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

 

com Márcio Calixto


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Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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