CONTO DE QUINTA: O percevejo

por César Manzolillo

 

O PERCEVEJO

 

Naquele ano, o inverno estava sendo rigoroso. Márcia abriu o armário e pegou um casaco comprado na Itália 12 anos atrás. Marrom, fazenda grossa, detalhes em veludo nas mangas e na gola. Seria a primeira vez que o usaria no Rio. Vestiu-o sem perceber que um percevejo se encontrava infiltrado na parte interna do agasalho. Apesar de cedo, as ruas de Botafogo já estavam escuras. Márcia estava gripada. Dor de garganta e nariz entupido. Febre baixa. Faria um percurso de cerca de um quarto de hora a pé. Cinco minutos depois de sair de casa, experimentou um leve incômodo na altura do ombro esquerdo, uma espécie de coceira. O inseto começava a se movimentar. Parou no jornaleiro de sempre e perguntou pela revista costumeira. Deixou a banca de mãos vazias e seguiu andando pela calçada estreita. O bicho se emaranhava agora pelos cabelos cacheados de Márcia. A partir da base do pescoço foi subindo lentamente. Dava voltas, hesitava, parecia perdido, sem conseguir decidir a direção certa. Ameaçou desprender-se dali e alçou um voo curto. Uma de suas patas traseiras ficou enganchada no cabelo de Márcia. Dez minutos após o início do trajeto, ela parou num bar conhecido e pediu um expresso. A essa altura o percevejo invadia seu ouvido esquerdo. Márcia passou a não escutar muito bem. O atendente perguntou-lhe alguma coisa, mas ela não entendeu. O barulho do trânsito já não era tão forte. Ao sair do estabelecimento, sentiu-se um pouco tonta. Dentro de sua cabeça, o inseto passeava. Enxergava luzes e via figuras amorfas. Era como se estivesse pisando numa superfície movediça. Em alguns momentos, achava-se prestes a ser engolido por uma gosma que se soltava do crânio da mulher. Por fim, Márcia chegou à casa de Hugo, seu namorado. Gata, tem um bicho na gola do seu casaco, fica quieta, ele falou, desferindo em seguida um golpe que matou o percevejo e espalhou um cheiro desagradável no ambiente.

 

 

CÉSAR MANZOLILLO

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

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