
com César Manzolillo

CARDÁPIO INDIGESTO
Arnaldo era dono de uma língua que era quase um organismo independente. Seu passatempo preferido era triturar reputações entre um gole de vinho tinto e outro, entre uma garfada de estrogonofe de camarão e outra. A fortuna dela… bem você sabe. O cargo dele foi obtido com favores impublicáveis… Aquela antevéspera de Natal era a noite do banquete de gala da alta sociedade do município. No amplo salão, cristais tilintavam, e o aroma de ravióli de burrata com manteiga e sálvia inebriava o ambiente. Nesse dia, a língua de Arnaldo estava particularmente inquieta. Saltitava atrás dos dentes, sentindo-se ansiosa para menosprezar a anfitriã, que sorria ingenuamente na cabeceira da mesa. Vejam só o colar dela. Dizem que as pérolas são tão falsas quanto o seu… Nesse momento, Arnaldo, impossibilitado de decidir entre mastigar ou falar, foi pego de surpresa: os molares do homem caíram com a força de uma prensa sobre o músculo maledicente, a língua foi atingida em cheio. Não houve grito, e apenas um som abafado de surpresa foi emitido ao mesmo tempo que um filete de sangue manchava o guardanapo de linho belga. Arnaldo perdeu a voz e passou o resto da noite em silêncio, incapaz de articular uma única sílaba.
CÉSAR MANZOLILLO

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