Eterno, Nelson para sempre…

Bruce Gomlevsky. Foto: Divulgação.

 

Um simples “boa noite” —
e pronto.
O espetáculo já valeu a saída de casa.

Há algo de raro quando isso acontece.
Não é sobre grandiosidade.
É sobre presença.

O pensamento de Nelson Rodrigues invade o CCBB Rio de Janeiro não como lembrança, mas como assombro vivo. A montagem não se contenta em revisitar sua obra — ela costura suas falas, entrevistas, crônicas, fragmentos de um homem que nunca coube inteiro em lugar nenhum.

E ali está ele: amor, adultério, futebol, política, teatro — tudo misturado, tudo pulsando. Nelson sendo Nelson. Contraditório, genial, incômodo.

Ao entrar no teatro, antes mesmo da palavra, a cena já fala.

O cenário de Nello Marrese é mais que homenagem — é um mergulho. Fitas de máquina de escrever cortam o espaço como pensamento em descontrole. Papéis amassados no chão. Livros empilhados como se o saber pesasse. Letras espalhadas — no ar, no chão, no invisível. É como se estivéssemos dentro da cabeça de Nelson.

E que cabeça.

Gostando ou não, é impossível negar: Nelson fez do teatro um campo de batalha. Contra a hipocrisia das famílias, contra a censura, contra o silêncio imposto. Um homem que, mesmo sem se encaixar em rótulos políticos claros, se posicionou quando foi preciso.

A luz de Elisa Tandeta não ilumina — revela.
Abre o espetáculo com uma força quase divina. Há recortes agressivamente precisos, como bisturis desenhando a cena. É uma luz que parece dizer ao ator: “hoje, você será visto”. E ele é.

Sempre é.

O figurino de Maria Callou entende o jogo. Poderia envelhecer mais, talvez. Mas escolhe a elegância — e acerta. Porque há verdades que, se expostas demais, quebram o encanto. O suspensório, o lenço levemente brega, o desalinho calculado — tudo conversa com esse Nelson que nunca foi exatamente “correto”.

E ainda bem.

A trilha de Liliane Secco nos transporta. Há algo de fantasmagórico nas sonoridades, como gravações antigas que insistem em permanecer. Um eco de tempo. Uma memória sonora que sustenta a atmosfera.

A direção de Carlos Jardim é precisa — e ousada na simplicidade. Um português apurado atravessa o texto, valorizando cada palavra como se fosse necessária (e é). Não se trata de contar a obra de Nelson, mas de revelar o homem por trás dela.

E isso muda tudo.

Nunca é só sobre as peças.
É sobre quem escreveu — e por quê.

E então entra Bruce Gomlevsky.

E não sobra espaço vazio.

Bruce não interpreta — ele serve. Serve ao teatro com um cuidado quase obsessivo. Seu olhar vê o que ninguém vê. Seu corpo reage ao mínimo detalhe. Ele brinca com a plateia, nos captura, nos mastiga e nos devolve transformados.

Há verdade.

Quando ele desce do palco e nos conduz, quando rompe a barreira, quando nos faz cúmplices — ali o teatro acontece em estado bruto. E o público responde. Aplausos em cena aberta. Riso. Escuta.

Ele segura o monólogo com firmeza e afeto.
Nos leva pela mão por dentro do tempo.

E há algo bonito nisso: Bruce já pertence à história que conta. Há um elo invisível entre ator e personagem — o amor pelo teatro. Esse amor que não se escolhe. Que escolhe a gente.

A dramaturgia colaborativa pulsa nesse corpo em cena. Há troca, há leveza, há construção coletiva. E isso chega. Segurança também é linguagem.

Ao redor, tudo vibra junto — até quem está na técnica. o caso de Consuelo. É impossível não notar a presença atenta de quem opera a luz, de quem sustenta o invisível. Teatro é coletivo até no silêncio.

E Nelson?

Talvez esteja lá, no Cemitério São João Batista, pernas cruzadas, cigarro na mão, observando tudo com aquele sorriso enviesado. Ao lado de Luz del Fuego, quem sabe.

E dizendo, com ironia:

— A vida como ela é… vocês demoram, mas entendem.

Ela responde:

— Nem morto você sossega, Nelson.

E ainda bem.

Porque alguns artistas não nasceram para descansar.
Nasceram para permanecer.

A peça em cartaz no CCBB Rio de Janeiro é o monólogo “Nelson Rodrigues – O Passado Sempre Tem Razão“. A montagem mescla recortes de crônicas, entrevistas históricas e trechos de obras para explorar o pensamento provocativo do autor sobre temas como amor, adultério, política e futebol.

 

Confira algumas imagens do espetáculo 

(Fotos: Divulgação)

 

Ficha Técnica:

Elenco: Bruce Gomlevsky (interpretando o próprio Nelson Rodrigues)
Direção e Dramaturgia: Carlos Jardim
Colaboração Dramatúrgica: Bruce Gomlevsky
Direção de Produção: Luiz Prado
Assistente de Direção: Flávia Rinaldi

 

SERVIÇO

“Nelson Rodrigues – O Passado Sempre Tem Razão

Local: Teatro II – Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ)
Horários: Segundas, quartas, quintas, sextas e sábados, às 19h; Domingos, às 18h
Ingressos: R$ 30 (inteira)
Mais informações e compra de ingressos podem ser acessadas diretamente no portal oficial em Ingressos CCBB.

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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