Tudo pode ser assunto para uma crônica?

Coluna de Márcio Calixto

TUDO PODE SER ASSUNTO PARA UMA CRÔNICA?

 

Tudo pode ser assunto para uma crônica?

Nesse desejo constante de escrever, fico de butuca ligada para poder transformar qualquer trivialidade em uma crônica. Como já afirmei em outro texto, crônica é tudo aquilo que gera o crônico, me peguei rascunhando naturalmente sobre o que deveria escrever, pelo longo desejo de preencher papel, pelo desejo de dar volume à coluna. Pelo escrever. Deveria escrever obre algo novo. Até que me pego pensando em como ando urinando.

Hoje, em especial, a forma como urino me deixou assustado e preocupado. Ela saía espiralada, dando voltas absurdas e constantes. Nunca fora assim. Sempre se apresentara tradicional, sem malabarismos ou sendo produto de alguma habilidade exótica. Era se deixar levar e pronto. Porém isso é material para se escrever? No momento em que praticava o exercício de alívio e ao mesmo tempo pensava em Rubem Braga, se ele escreveria algo assim ou não, juro que travei uma conversa com ele.

Rubem se aproxima no mictório ao lado:

  • Tarde!

  • Tarde.

  • Como vai, Calixtinho?

  • Quase pleno, e você?

  • Buscando alívio.

  • Posso fazer uma pergunta?

  • Melhor momento não há.

  • O senhor escreveria sobre urinar em alguma crônica sua?

 

A resposta não veio. Ele desapareceu antes de eu ter a chance à resposta. No exato momento em que eu consigo o alívio completo, fico mastigando que resposta teria. Passei o momento após pensando com quem ter essa conversa. Se os colegas de bancada aqui, o Manzolillo, o Tanussi ou mesmo se a Gosling usariam tal assunto como material para uma crônica. Conhecendo-os como os conheço, só eu que ficaria pensando em tal como assunto para uma crônica.

Pensei em ligar para o meu urologista. Que possibilidades de doenças passam pelo meu corpo a ponto de fazer minha urina espiralar? Estou mesmo doente? Há algo a mais em acontecimento com que devo me preocupar? Ou apenas algo de trivial é que me deixou encafifado? Sabe, é melhor não pensar nisso. Termino a tarde bebendo água e esperando que Rubem Braga me dê alguma ideia para um próximo texto. É melhor.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto

 

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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