“Porque era ele; porque era eu”: vamos falar sobre amizade?
“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”[1]
(Mãos dadas – Carlos Drummond de Andrade)
O título deste artigo é uma citação do filósofo francês Michel de Montaigne, a partir de um ensaio sobre a amizade[2], de 1580, para homenagear o amigo, Etienne de la Boétie, filósofo contemporâneo e amigo seu, que escreveu O discurso da servidão voluntária, sobre a liberdade, contrapondo-se à tirania, e que antes de morrer, aos 32 anos, deixou seus escritos em testamento ao amigo. Logo no início do Ensaio, Montaigne chama a atenção afirmando que ¨
“eu a quem, por afetuosa atenção, ao render o último suspiro, entregou sua biblioteca e seus papéis. Por isso sou muito apegado a esse ensaio, tanto mais quanto foi o ponto de partida de nossas relações. Fora-me comunicado muito antes que conhecesse o autor cujo nome só então me foi revelado, e assim se preparou essa amizade que nos uniu e durou quanto Deus o permitiu, tão inteira e completa que por certo não se encontrará igual entre os homens de nosso tempo.” (P. 9).
Montaigne eterniza neste ensaio seu afeto e admiração ao amigo, mas também espelha em suas ideias um dos temas mais seculares das nossas vidas. A amizade é delineada, descrita e retratada na literatura e poesia, por exemplo, desde Homero, Goethe, Cervantes, Dumas até nossos contemporâneos: é fonte de inesgotável inspiração. Na pintura, na música e na Filosofia…Uma fonte incontável de referências. Muitas possibilidades para falarmos sobre amizade. Mesmo na Filosofia, com diversos pensadores que se dedicaram ao assunto – um dos mais célebres podemos dizer que é Aristóteles, filósofo grego do século IV a.C. que escreveu sobre isso em Ética a Nicômaco.
E por que é necessário, ainda, falar sobre amizade? Eis aqui nossa questão filosófica que proponho hoje. E a minha motivação primária foi o Ensaio de Montaigne, que me levou a outro pensador, Cícero, um estoico do século I a.C. e sua obra Da Amizade[3]. A ‘conexão’ está posta a partir do filósofo francês, que articula o amor e seu vínculo com a amizade:
“‘amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza’[4]. Volto à minha tese que diz respeito a uma amizade mais natural e estimável: ‘a amizade atinge sua irradiação total na maturidade da idade e do espírito’. Em suma, isso a que chamamos comumente amigo e amizade não passam de ligações familiares, travadas ao sabor da oportunidade e do interesse e por meio das quais nossas almas se entretêm. Na amizade a que me refiro[5], as almas entrosam-se e se confundem em uma única alma, tão unidas uma à outra que não se distinguem, não se lhes percebendo sequer a linha de demarcação. Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que o não saberia expressar senão respondendo: porque era ele; porque era eu.” (P. 98).
Quando Montaigne se refere ao afeito, a sua referência, conforme nota do tradutor, é Cícero, o outro filósofo que quero trazer hoje. O romano escreveu sua obra em 44 a.C., aos 62 anos, em forma de diálogo, com 104 parágrafos, para também homenagear alguns amigos já falecidos, que lhe são muito estimados. Como contexto histórico-social, a Roma que Cícero viveu passava por momentos de instabilidade política, perseguições, assassinatos e, talvez, podemos supor, um vazio existencial – fica aqui uma possível articulação com nossos dias. Por isso pergunto: é possível atravessar momentos de dores, angústias e sofrimentos sem a presença/existência de um amigo? É possível viver uma vida sem compartilhar a existência com outrem? A vida, em si, tem sentido se não existir a amizade? Desde os mais remotos tempos, a amizade é tão ancestral quanto é a nossa forma de se relacionar, de crer, de amar e de agir. A amizade está posta na vida do homem nas mais diferentes culturas, nos mais remotos registros e lugares. A frase ‘ninguém larga a mão de ninguém”, muito ouvida nos dias atuais, é um eco da magia ancestral sobre a potência indescritível de uma amizade. E por que é necessário, ainda, falar sobre isto? Porque é da nossa constituição humana ter afeição por outro semelhante, de modo que isto fica indelevelmente marcado no tempo, como dádiva divina, segundo afirma Cícero:
“deleita-me a esperança de que nossa amizade permaneça lembrada para sempre, tanto mais que, em todos os séculos, só podem ser mencionados uns três ou quatro pares de amigos. Eis o grau – acredito poder esperar isso – que atingirá a notória amizade de Cipião e Lélio na posteridade[6]. (§ 15)
[…]“Pois a amizade nada mais é que o acordo perfeito de todas as coisas divinas e humanas, acompanhado de benevolência e afeição, e creio que, exceto a sabedoria, nada de melhor receberam os homens dos deuses. (§ 20).”
Cícero, ao longo da obra, fala sobre o sentido da amizade e o seu caráter não utilitarista, como vemos:
“Ora, na amizade não há simulação nem fingimento algum: a amizade é tudo aquilo que é verdadeiro e voluntário. (§ 26). Penso, pois, ser a natureza e não a indigência a fonte de amizade, uma propensão da alma acompanhada por um sentimento de amor, nunca o cálculo do proveito que dela se auferirá. (§27).”
É um bom contraponto com os tempos atuais porque vivemos tempos de extremos. Por um lado, o vazio existencial, a solidão e os adoecimentos psíquicos que vivemos ou testemunhamos. Por outro lado, as excessivas cobranças, muitas vezes autoimpostas, de atingimento de ‘alta performance’, ‘sucessos’ e a impossível hiper conexão a que somos expostos – é tudo ao mesmo tempo, agora. Mas esse ´pacote’ faz ruir todo o edifício humano que somos e suas humanidades intrínsecas. Por isso é preciso – é imperativo, eu diria – olhar para nossa condição humana e as amizades que nos atravessam e nos cercam, como uma teia protetora. Voltando a Cícero, ele fala, na passagem a seguir, sobre a amizade como “afeto mútuo”:
“Quando prestamos um serviço ou nos mostramos generosos, não exigimos recompensas, pois um préstimo não é um investimento. A natureza é que inspira a generosidade, por isso acreditamos que não se deve buscar a amizade com vistas ao prêmio, mas com a convicção de que esse prêmio é o próprio amor que ela desperta (§31).
[…]Eis, pois, a lei da amizade que se deve estabelecer: nada pedir de vergonhoso, nada de vergonhoso conceder. (§40).”
Isso porque:
“A primeira lei da amizade a ser sancionada: só pedir aos amigos coisas honestas; para ajudá-los, fazer apenas coisas dignas sem sequer esperar que no-las peçam; mostrar interesse sempre, não hesitar jamais; finalmente, ousar dar francamente sua opinião. Na amizade, convém que os amigos mais prudentes tenham maior autoridade, intervenham para advertir, não apenas com franqueza, mas com severidade quando a situação o exigir, e que se obedeça a essa intervenção. (§44).”
O filósofo menciona ainda sobre isto um trecho de Hécuba, tragédia do teatro grego de Eurípedes: “em meio a males, os bons mostram-se mais claramente amigos; a prosperidade em si tem sempre amigos.[7]” “Amigo é casa”, como nos ensina Hermínio Belo de Carvalho. É onde nos abrigamos e nos (re) (des) velamos autenticamente. O amigo nos ergue e nos conduz pela mão, quando nos encontramos enfraquecidos. E vice-versa. Amigo é equilíbrio e energia vital ou doçura, como nos diz Cícero:
“Ora, o fundamento da estabilidade e constância que buscamos na amizade é a lealdade: de fato, nada é estável sem ela. Também é preciso escolher um caráter simples, aberto às confidências e que tenha sentimentos semelhantes aos nossos. Isso tudo contribui para a fidelidade, pois não pode existir lealdade num espírito duplo e doloso. (§65). Junte-se a isso a doçura na conversação e no trato, condimento não desprezível da amizade. (§66).”
Acredito que amigo é referência, é represa, é porto, é lugar de acolhimento. Amigo é… verbo de ligação com muitos predicados possíveis, porque “com efeito, dos bens que interessam aos homens, a amizade é o único cuja utilidade todos unanimemente reconhecem. (§ 86). […] Assim a natureza não ama a solidão e sempre procura, por assim dizer, um apoio – e o amigo íntimo lhe oferece o mais doce dos apoios. (§88).
Volto à questão proposta no começo deste artigo por que é necessário, ainda, falar sobre amizade? Porque o afeto da amizade revela nossa face mais sublime que é desejar o bem do outro.
Tanto Cícero, quanto Montaigne, os dois pensadores que trouxe hoje para esta reflexão filosófica sobre a amizade, no meu modo de ver, deslocam-nos para pensarmos a amizade como um repositório afetivo (um lago onde a vista não alcança o fim) onde mergulhamos e onde podemos concretizar a verdadeira face de sacralidade. Cícero é categórico sobre isto: a amizade “[…] é o acordo perfeito de todas as coisas divinas e humanas, acompanhado de benevolência e afeição […] (§20)”. É preciso ainda lembrar que a amiga ou o amigo está abrigado na nossa memória afetiva, que não precisa de auxílio de notificações de dispositivos ou aplicativos para nos ‘alertar’. Simplesmente sentimos e intuímos, como canta Emicida em Quem tem um amigo, tem tudo[8]:
“Nesse mundo louco é pra poucos, tanto sufoco insano encontrei
Voltar pra esse plano e vamos estar voltando
É tipo um Rococó, Barroco em que Aleijadinho era rei
… É presente dos deuses, rimos tantas vezes
Como em catequeses, logo perguntei
Pra Oxalá e pra Nossa Senhora
Em que altura você mora agora, um dia ali visitarei”
Dedico este artigo de julho, mês onde celebramos o Dia do Amigo (20) às minhas amigas e aos meus amigos, que me habitam e com as quais e os quais compartilho incontáveis afetos existenciais. Sem vocês a vida não teria a doçura que alimenta a alma, porque uma amizade expande nosso horizonte de existência. Vocês são os fios vivos do tecido que forma a teia de proteção que me envolve!
Afinal “quem tem um amigo, tem tudo”.
Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult.
[1] IN: ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo – 4ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2004. P. 59. [2] IN: Os Pensadores – Vol. XI. Abril Cultural S/A – São Paulo: 1972. P. 95-101. [3] CÍCERO, Marco Túlio. Da Amizade. Tradução de Gilson César Cardoso de Souza – 2ª ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012. [4] Neste ponto e no próximo entre aspas, Montaigne cita Cícero. [5] Sua amizade com la Boétie. [6] Caio Lélio, nascido por volta de 190, foi inseparável amigo de Cipião Emiliano. [7] IN: EURÍPEDES. Duas tragédias gregas: Hécuba e Troianas. Tradução Christian Werner – São Paulo: Martins Fontes, 2004. P. 67 [8] Compositores: Leandro Roque De Oliveira / Wilson Das Neves
Letra de Quem Tem Um Amig
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