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Nas estradas brasileiras, um bravo vigilante
Ele não foi, certamente, o primeiro herói da TV brasileira. Já haviam passado pela telinha os antológicos Capitão 7 (1954) – criado por Rubem Biáfora para a TV Record, canal 7 de São Paulo, o que explica a origem do nome do protagonista, interpretado por Ayres Campos, e considerado o primeiro personagem transmídia do país, sendo explorado, simultaneamente, na televisão e nas revistas em quadrinhos – e o Falcão Negro (1954) – interpretado por José Parisi e, depois, por Gilberto Martinho, uma criação do paraibano Péricles Leal para a TV Tupi, baseado no clássico herói mascarado do gênero capa e espada.
Em meio a tantos heróis e super-heróis “enlatados” ou criados no Brasil, porém inspirados ou copiados de personagens estrangeiros, o cineasta e produtor Ary Fernandes tinha um sonho desde criança: o de desenvolver um herói genuinamente nacional. Um herói de carne e osso que não tivesse vindo do espaço sideral nem tivesse superpoderes. Um herói sem influência da cultura europeia, norte-americana ou asiática. Que tivesse sua origem na realidade brasileira e zelasse pela ordem e justiça nas rodovias federais. Um herói que fosse um vigilante leal e destemido: O Vigilante Rodoviário.

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Segundo Ary – que também era dramaturgo, ator e dublador –, na época em que criou o personagem, no início dos anos 1960, a escolha do tema e perfil se deveu à sua admiração e à grande simpatia popular pela Polícia Rodoviária, órgão militar que gozava de respeito e credibilidade.
Ary foi ainda o criador da música-tema de abertura do seriado, intitulada “Canção do Vigilante Rodoviário” e interpretada pelo cantor Carlos Henrique, que, mais tarde, se tornou garoto-propaganda da antiga e extinta rede de supermercados Casas Sendas:
De noite ou de dia, / firme no volante. / Vai pela rodovia, bravo Vigilante! Guardando toda estrada, forte e confiante. / É o nosso camarada, bravo Vigilante! / O seu olhar amigo é um farol / que avisa do perigo, / audaz e temerário, pra agir a todo instante. / Da estrada é o Vigilante… Vigilante Rodoviário!
O Vigilante Rodoviário, produzido em película no Brasil e na América Latina por Alfredo Palácios, proporcionou a estreia de atores que se tornariam, anos depois, famosos na TV, no teatro, no cinema e na dublagem brasileira, como Stênio Garcia, Ary Fontoura, Rosamaria Murtinho, Fúlvio Stefanini, Milton Gonçalves, Dedé Santana, Juca Chaves, Luís Guilherme, Ary Toledo, entre outros. Em 1967, com a grande aceitação do público, Ary Fernandes fundou a Procitel (Produções Cine Televisão).
O seriado narrava as aventuras do Inspetor Carlos (interpretado por Carlos Miranda), um policial valente que patrulhava as estradas paulistas – na maioria das vezes, as gravações ocorriam nas imediações da Rodovia Anhanguera – onde o nosso herói tinha como missão o combate a ladrões, contrabandistas, falsificadores e foragidos da justiça que passavam pelas rodovias federais. Como todo herói que se preza, ele contava com veículos icônicos e um fiel sidekick (ajudante). Às vezes, o Inspetor Carlos estava a bordo de uma moto Harley-Davidson ou do seu famoso carro Simca Chambord. A seu lado, o fiel escudeiro, o pastor alemão chamado Lobo. Juntos, lutavam contra o crime e garantiam a segurança e o respeito nas estradas. Os episódios – 38 ao todo – eram marcados por enredos repletos de ação, com tramas com um tom moral e instrutivo, enfatizando valores éticos, coragem, solidariedade e obediência às leis. Os títulos são: Os cinco valentes, O recruta, Bola de meia, O ventríloquo, Extorsão, Jogo decisivo, Pânico no ring, Zuni, o potrinho, Remédios falsificados, Os romeiros, A repórter, O diamante Grão Mongol, O fugitivo, Aventura em Ouro Preto, Chantagem, O homem do realejo, A eleição, A pedreira, O pagador, O sósia, A aventura do Tuca, O invento, Terras de ninguém, Rapto do Juca, Aventura em Vila Velha, Pombo Correio, Ladrões de automóveis, O suspeito, O garimpo, A fórmula de gás, Café marcado, O assalto, O mágico, Mapa histórico, O mordomo, A história do Lobo, Mistério do Embu e A orquídea glacial. A série estreou na extinta TV Tupi e foi exibida em uma temporada, entre 1961 e 1962. A duração de cada episódio era, em média, de 20 a 25min.
Na infância, quando assistia ao seriado pela TV, eu achava as cenas de briga meio esquisitas, malfeitas mesmo. Faltava uma coreografia, digamos, mais apurada. Ou seja, os socos não pegavam em ninguém. A qualidade do som também não era das melhores. Eu tinha a sensação de que não havia um perfeito sincronismo com as imagens. Sei lá! Porém, nada disso retirava o brio e a bravura do nosso Vigilante. As cenas do Lobo intimidando e amedrontando os bandidos me pareciam mais convincentes. Aliás, o Lobo era – segundo fontes, chamado, verdadeiramente, de King – uma espécie de Rin Tin Tin, outro pastor alemão de um famoso seriado de 1954, cujo título levava o seu nome. Com o intuito de fortalecer a identificação com o público jovem, o roteirista Ary Fernandes resolveu criar o menino Tuca (Reginaldo Vieira) para que o Inspetor Carlos interagisse mais com as crianças amigas da região.
Algumas curiosidades sobre a série. Cinco cães diferentes, da raça pastor alemão, foram utilizados para representar o Lobo nas cenas de ação. O Simca Chambord, ano de 1959, acabou se tornando o “batmóvel” do Vigilante Rodoviário. Símbolo de blindagem rodoviária, o motor V8 e sua carroceria denotavam a força móvel nas rodovias. Com design elegante e imponente, e uma sirene no teto, o Simca Chambord foi um dos primeiros modelos de luxo produzidos no Brasil e, em razão do êxito do seriado, passou a ser admirado por fãs de automóveis clássicos, ficando eternizado também na ficção policial brasileira.
O Vigilante Rodoviário foi adaptado para os quadrinhos, em 1962, pela editora Outubro, mas reuniu poucas edições regulares e um almanaque especial. Os roteiros eram de Gedeone Malagola, e os traços, de talentosos desenhistas, como Flavio Colin e Oswaldo Talo.
Daqueles casos em que a fantasia se torna realidade, o sucesso de O Vigilante Rodoviário foi tão expressivo que motivou o ator Carlos Miranda – após o fim da produção – a entrar na corporação policial, onde se tornou tenente-coronel da Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo, chegando a receber a Medalha Anchieta, considerada a maior honraria da Câmara Municipal do estado. Ele foi também porta-voz e relações públicas até a sua aposentadoria. Em 1992, entrou para o Livro Guiness dos Recordes, como o único ator a transformar seu personagem fictício em um personagem da vida real.
Uma vez aposentado e sempre carismático, Carlos passou a ser convidado para comparecer a eventos de colecionadores de carros antigos, devidamente caracterizado de Vigilante Rodoviário, tendo a oportunidade de distribuir autógrafos e posar com fãs ao lado do Simca Chambord, um modelo similar ao usado no seriado. Além disso, ele proferia palestras e se apresentava em comemorações cívicas como representante das polícias militares.

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Carlos faleceu, aos 91 anos, no dia 17 de fevereiro de 2025, mas, nos últimos anos, se dizia orgulhoso por ter testemunhado o relançamento do seriado em DVD, em 2009, sob o selo da Spectra Nova (um box contendo 4 discos, com 35 episódios remasterizados, dos 38 originais), porque o seu personagem ganhou, novamente, o destaque merecido, obtendo sucesso em vendas, no segmento Home Vídeo, em virtude dos fãs saudosistas.
Vale ressaltar, entretanto, que o herói patrulheiro das estradas brasileiros voltou à cena, em 1978, nas telonas. Ary Fernandes dirigiu e roteirizou um filme de média-metragem (57 min) como piloto de uma moderna produção para a TV. No elenco principal, o ator Antonio Fonzar substituiu Carlos Miranda, assim como o clássico veículo Simca Chambord foi trocado por um Dodge Dart. Dessa vez, foram utilizados três cães da raça pastor alemão para interpretar o Lobo. Fonzar foi escolhido para estrelar como Inspetor Carlos porque havia despontado na mídia quando conquistou o concurso de “O homem mais bonito do Brasil”, realizado e promovido pelo programa Silvio Santos, nos idos de 1970.
Esse filme contou com parte dos recursos da Embrafilme, em Atibaia (SP), mas problemas administrativos e financeiros no órgão interromperam o projeto. Em razão disso, o “novo” Vigilante Rodoviário só foi exibido no cinema e não foi adiante na televisão. O produtor e diretor Ary Fernandes faleceu em 29 de agosto de 2010, aos 79 anos, e sua criação é um legado para a cultura automobilística e para a memória da televisão brasileira.
Ah, tempo bom! Quem se lembra?
Caso você queira conhecer um pouco mais sobre o “Vigilante Rodoviário”…
SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 14 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
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@jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ
Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️
Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨











