Com Ana Gosling

Foto: Alexander Grey, em Unsplash
Primeira manhã
Duas voltas no quarteirão, sem vaga na frente da padaria. Pensou em desistir. Precisava marcar o ponto eletrônico às 8 horas e não podia prever o horário da fornada nova. Estava em jejum, arriscou o atraso. Parou na rua de trás, aumentando também o tempo da caminhada. “Quatro pães?”, a atendente decorara o pedido diário. “Dois!”.
Um para ela, outro para o porteiro do prédio em que trabalhava. A atendente não sabia do que se tornara certeza: ele não voltaria. Não precisava mais deixar-lhe os pães antes de seguir para o trabalho, enquanto ele ainda tomava banho.
A casa deserta de gente àquela hora. A sua rotina desacelerada. O pequeno atraso se estabilizou diante da nova rotina: chegou no horário de sempre, diminuídas as tarefas da manhã. Deixou a porta entreaberta, sinalizando ao porteiro que o pão chegara e a água estava sendo aquecida. O setor ainda vazio.
O homem repousou a mochila na mesa, estendendo-lhe a caneca. “Bom dia”. O pão com manteiga, a bebida quente na mão. Despediram-se, sem cerimônia. O hábito de preparar-lhe o café virara quase obrigação, perdendo o verniz da gentileza. Nem se preocupou em sorrir.
Eram 8:20h quando percebeu que suas manhãs seriam silenciosas. Sem conversa na cama, sem adeus ao deixar os pães na cozinha de casa, sem assunto de futebol para compartilhar com o porteiro por não mais assistir aos jogos com ele. Até o primeiro colega cobrar-lhe a entrega de um trabalho, ela existiria à margem do dia.
Ligou o rádio para afastar o silêncio. A alegria do locutor àquela hora era cansativa. As músicas, barulhentas. Procurou uma estação de música-ambiente. Clássicos ecoaram na sala vazia e os violinos lhe arranharam o peito. Chorou, pela primeira vez, desde que ele batera a porta. Chorou por todos os minutos seguintes até o colega entrar, distraído.
Lavou o rosto no banheiro. Retocou o batom. Escondeu-se atrás do computador até o nariz vermelho embranquecer-se. “Bom dia!”.
Na manhã seguinte, com o tempo de sobra, decidiu percorrer mais longo caminho: comprou o lanche em uma confeitaria. Escolheu uma broa doce, coberta de creme e recheada com goiabada. O porteiro lhe agradeceu a novidade, lembrando-se da merenda preparada pela mãe: biscoito maisena com goiabada. A história era longa e sentaram-se juntos para o café. Ela, criança, misturava aos pães doces um sabor salgado: manteiga, queijo minas. “Comida de grávida, dona!” e riram-se.
Não ligou o rádio. Deixou a porta aberta, ocupando-se com o som do prédio. A campainha do elevador chegando ao andar. As conversas entrecortadas dos que passavam à porta. Um trecho de música saindo de um ipod, fazendo-a cantar para si o restante da letra.
Em diferenças miúdas, foi alterando seus dias: tarefas, caminhos, hábitos. Assuntos antigos se revelaram interessantes para quem não os conhecia. Saía para papear e beber e jogar dardos e dançar. O silêncio da noite a descansava da rotina, preparando-a para novos planos.
Quando ele veio devolver-lhe a chave, deixou-a na portaria. Já não abriu a fechadura trocada. Já não a encontrou na hora de sempre.
DICAS DA SEMANA:

O lançamento da semana é do poeta Jorge Ventura!
Mas, dessa vez, o livro não é de poesia e, sim, de pesquisa memorialística.
“O morcego era azul – Memórias da primeira batmania” é o terceiro livro do autor, dedicado a tratar da cult-série de tevê, Batman, de 1966.
Será publicado no ano em que se comemoram os 60 anos da série que consagrou Adam West como o intérprete da memória afetiva de toda uma geração.
O lançamento será no próximo sábado, 15/8, no Cine Botequim 2.
Atendendo a um gentil convite do autor, também tenho um depoimento registrado na obra.
Vamos encontrar-nos lá?
SERVIÇO:
Lançamento do livro “O morcego era azul – Memórias da primeira batmania”
- Editora: CQI
- Dia e horário: 15/08/2026, a partir das 16 horas.
- Local: Cine Botequim 2
- Endereço: Rua Dona Zulmira, 111, Maracanã, Rio de Janeiro, RJ.
- Foto: Arquivo pessoal da autoraLivro: “O Morcego era Azul”, de Jorge Ventura.

Foto: Divulgação
O canal “Cuidado em Prosa” no Youtube recebe, todas as quartas-feiras, profissionais que trazem luz a questões como saúde, envelhecimento, bem-estar e vida, para uma boa conversa em seu podcast.
No dia 12/8, hoje, a convidada é Rafaeli Mattos, professora de Dança, Doutora em Artes Cênicas e parceira nossa aqui no Artecult. A conversa promete ser inspiradora e versará sobre arte, movimento e expressão corporal, através da dança. Além do lindo trabalho desenvolvido com o Grupo de Sapateado Gingers, Rafaeli se dedica à pesquisa sobre sapateado e envelhecimento e, em breve, publicará sua tese de doutorado, tornando-a acessível ao público e aos profissionais que desejam enveredar pelo mesmo campo de trabalho ou estudo.
O link do canal “Cuidado em Prosa”, onde ocorrerá o podcast, conduzido por Matheus Nolasco, é este: https://m.youtube.com/@cuidadoemprosa


com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo













