Às Quartas – Afetos musicais

Com Ana Lúcia Gosling

Foto Gil: @pridiabr, no Instagram // Foto AX-80s: – cena do videoclipe “Algo Programado – Divulgação @ax80s.music

Lembro-me de quando ouvi a primeira música do AX-80s, dupla formada por Afrânio Alves e Xande Rosa: “Algo Programado”. A primeira de uma série de excelência, envolvendo inéditas com o Synthwave 80 de referência. Um ótimo resultado de um projeto, hoje, alargado em seu significado: álbum, contrato com gravadora, participação em trilha sonora de filmes e show.

Soa pop mas traz sentimentos profundos. O arranjo empolga mas enraiza-se em uma dor emocional aguda e persistente, na falta de sentido na vida.

Eu conto os dias

Peço mas nada alivia

Nem desfaz a minha dor.

Todo dia, vida real, sem sintonia

Procuro refazer o que existia

Tentando encontrar um porquê

O sonho, refúgio, guarda a beleza e a referência da felicidade autêntica.

Sonho a cores só que o me faz bem

Há outras no mesmo tom confessional. Em “Eu só quero você”, aparentam-se os pensamentos:

Fecho os olhos pra poder pensar

Se os sonhos são leais

A quem sempre sonhou

Eu passo os meus dias, minhas noites e não sei quem sou

Foto: Rapa Gomide/@artecult – Ensaio AX-80s

Estive no último ensaio da dupla. Amigos leigos presentes se divertindo, cantando, filmando, como crianças experimentado, descoordenadas, as teclas de um piano, fascinadas pelo som. Afrânio e Xande, generosamente, nos acolheram. No fim do sábado, suas músicas haviam tecido uma rede de afeto e lembranças amorosas daquele momento. Se éramos fãs do trabalho, agora conecta-nos.

Com uma amiga, preencho o domingo com Gilberto Gil, na plateia de “Tempo Rei”, em sua última turnê. Dizer que suas músicas permeiam minha vida e reconhecer sua importância é o óbvio. Prefiro falar do enternecimento.

O show é, acima de tudo, uma confraternização amorosa. Gil se cerca de familiares e companheiros de estrada, no palco das suas últimas performances. Chama os fãs para um adeus festivo. Conta histórias pessoais de cada músico apresentado à plateia e dá o nome de suas mães antes de apontar-lhes o currículo. Seu jeito zen se alterna com sua alegria, arrisca dancinhas, não esconde a dor nem a crítica, mas nos deixa leves.

Somos cúmplices. Ele nos chamou para um último banquete em casa. Revemos sua trajetória. Os ídolos, a Ditadura, os Novos Baianos, os filhos, as mulheres, as mãos dadas. Sua poesia gira no palco, colorida e sinuosa. Ele é intérprete, músico, poeta mas, principalmente, homem simples, afetivo, cujas histórias moldam seu espírito forte e seu equilíbrio.

Emociona-nos a tragédia humana:

Não há o que perdoar

Por isso mesmo é que há

De haver mais compaixão

Foto: @pridiabr, no Instagram

Aceitamos nossas incoerências:

Se eu sou algo incompreensível

Meu Deus é mais

Lembramos, por outros motivos, como a rotina dos dias pode perder o sentido:

Como beber dessa bebida amarga?

Tragar a dor, engolir a labuta?

Gil e Chico Buarque cantam sentados, amigos num bar, “Cálice”. O show era íntimo, o encontro e o nosso testemunho, também.

Se música comove, a autenticidade do artista a faz ainda mais emocionante. Um fim de semana impregnado por boa música mas, principalmente, por conexões reais e pela amorosidade dos seus criadores.

Foi um privilégio viver esses dias.

ANA LUCIA GOSLING

@analugosling

 

 

 

 

 

 

 

Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:


com Ana Lúcia Gosling

com César Manzolillo


com Tanussi Cardoso

 

 

Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

6 comments

  • Que delícia de crônica, Ana, repleta de memória, amorosidade, respeito, emoção e fé, pois é ela que move os artistas. Noites privilegiadas, com certeza, como é certo o privilégio de ser seu leitor. Obrigado

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  • São momentos como esses que nos fazem refletir o tom que damos às nossas vidas! E é claro que o teletransporte que suas crônicas nos presenteiam ao longo da sua leitura!
    Que maravilha o encontro com o Afrânio e o Xande do AX80’s! Que estado vibracional musical deve-se ter feito presente nesse momento! Assistindo pela live do Instagram já dava para perceber o todo!

    Do show do Gil e, ainda, com a participação do Chico Buarque nem digo nada! Seria chover no molhado de tanto falar o quanto esses dois são adorados por quem gosta de musica!

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  • Ana, minha querida amiga, sua crônica é um bálsamo para a alma! Tantas reflexões e carinho com as palavras. O show do Gil me trouxe acalento, paz e amor. O que mais importa nessa vida a não ser esses momentos singelos!

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