
Com Ana Gosling

Foto: Ahmad Odeh, em Unsplash
PERDAS E GANHOS
Perdi o eclipse lunar. O vendaval da noite. A chuva da madrugada. Esgotei os assuntos à mesa. Doei sorrisos leves. Esqueci as rixas. Desci do salto. Massageei os pés cansados. Os calos e rachaduras. Relaxei o corpo, acalmei a alma.
Não me pus a esperar. Não sabia se viria. Quis seguir.
Abri cadeados. Tirei o pó das ideias. Inventei coragens. Fingi disposição. Aprendi coisa nova para desprender as antigas.
Dancei entre quatro paredes. Num domingo, dancei na praça, sob sol. Em outro, em teatro, com ar condicionado. Me calcei sentada no chão. Me maquiei em pé, sem moldura de luz. Andei em penumbra. Girei sob o foco. Coberta com glitter, o brilho todo em mim.
Não foi para você. Não foi para os outros. Dancei para mim.
Prendi o ar diante do medo. Perdi o fôlego debaixo do aplauso. Aprendi a aceitar elogio, emoção, possibilidade.
Você não estava entre a multidão. Eu não estava ali. Eu estava em destaque. Na luz. Glitter sobre cicatriz.
Agora caminho na chuva sem medo de desbotar. Abro os braços no vento sem ele me carregar. Deixo o corpo no mar a boiar. Deixo a mente vazia de nós dois. Durmo do outro lado da cama. Ensaboo sozinha o corpo no chuveiro. E canto.
Sorrio, sonhando bobagem de menina. Sorrio, sábia e madura que sou. Sorrio sempre.
E nas noites em que as lágrimas caem, não as interrompo com as pontas dos dedos. Permito rolarem sobre a pele, esfriando meu rubor. E nos dias em que o sol me busca à cama, atendo ao chamado. Resisto à vontade de me demorar.
Sei ter menos tempo. Sei: há vida. Sei a vida não esperar.
Não fecho porta para sempre. Quem tiver a chave, poderá entrar. Não descarto viagem. Que me levem os caminhos!
Mas me compraz a brisa na varanda. Me alimenta a desaceleração do dia. Me basta estar no mundo.
Perdi o nascer do sol. O orvalho evaporando à primeira hora da manhã. O botão prestes a desabrochar. Esgotei o sono. Espreguicei com tempo. Esqueci da obrigação. Desci da cama. Massageei os pés. Pintei as unhas.
Não sucumbi à pressa. Esperei o dia crescer. E a melhor hora chegar.
Você não me reconheceria de cara lavada. Nem à primeira hora, nem no silêncio da noite. Você não me imaginaria trocando a combinação, a senha, os números. Nem a pele. Você me desejaria todo o bem, sem saber: ele já mora em meu coração.


com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo














