
Del Schimmelpfeng – Imagem gerada por IA
Aqui, nesse nosso espaço no ARTECULT, já conversamos de um monte de coisa relacionado à gastronomia, né? Já ensinei algumas receitas, já visitamos inúmeros restaurantes, já passeamos por algumas regiões desse país continental atrás dos pratos típicos que as definem. Inclusive, já me aventurei na seara dos vinhos, assunto que me é particularmente instigante, tendo em vista a enormidade de temas que podem ser abordados.
E no âmbito das bebidas – afinal, todas elas, em alguma proporção, guardam relação com a arte culinária – me deparei com aquela que é a mais antiga do mundo, o HIDROMEL, com registros e evidências de produção que ultrapassam 9.000 a 10.000 anos, surgindo antes mesmo da invenção da escrita. E resolvi transformá-lo em um delicioso tema da minha coluna…
Já tive a oportunidade de experimentar a bebida em alguns eventos temáticos que visitei, como uma feira medieval que acontece no shopping UPTOWN na Barra da Tijuca. Achei, então, que seria sempre o mesmo tipo das que provei nessas oportunidades – uma bebida doce, com teor alcoólico baixo. Porém, para minha surpresa, o universo do HIDROMEL é bem maior e mais complexo do que eu supunha e pode incluir, inclusive, variações com frutas ou especiarias.
Em um desses eventos, minha filha me trouxe de presente uma curiosa novidade: um hidromel misturando o dulçor caramelizado da rapadura com o toque picante da pimenta elaborado pelo HIDROMEL MARTELO PAGÃO (@hidromel_martelo_pagao), uma empresa carioca.

Tive contato, também, com um hidromel que ainda está em fase de regularização e montagem da empresa – portanto, ainda não está liberado pra venda. Experimentei em primeira mão! E a história por trás dele é bem legal: há uns oito ou nove anos, meio que sem querer, o Rafael teve o primeiro contato com a bebida e não gostou. Um amigo, mestre cervejeiro, preparou e o presentou com uma garrafa de hidromel, que mudou seu conceito até então. A bebida foi batizada como “DINASTIA R“, em homenagem ao Romário, que foi a pessoa que ensinou; Rafael, que resolveu acreditar no negócio; e o primo e sócio Ricardo.

Aí, resolvi me aprofundar um pouquinho mais no assunto…
Hidromel ou água-mel é uma bebida alcoólica fermentada cuja maior parcela dos açúcares que a criou são provenientes do mel, independentemente dos adjuntos usados na preparação do mosto. Por se tratar de uma bebida alcoólica fermentada, seus volumes alcoólicos variam de acordo com a receita, admitindo fortificação em alguns casos. Somente com a fermentação, produtores artesanais alcançam teores alcoólicos que beiram 20 ºGL.
Encontrada na China durante o período neolítico, há 9 000 anos, uma bebida fermentada à base de mel, arroz e o fruto de um espinheiro, sendo essa a evidência mais antiga de um fermentável alcoólico. Entre os vikings era tão estimada que a própria Mitologia Nórdica explicava seu surgimento e preciosidade. Os povos da América Pré-Colombiana também produziam hidromel, tanto os maias quanto os povos indígenas brasileiros. Em ambos os casos, relatados pelos jesuítas, o mel utilizado era de abelhas nativas, as chamadas Meliponinis uma subfamília das apidae. (Wikipédia)
Poucas bebidas atravessaram tantos séculos cercadas de histórias, mitos e simbolismos quanto o hidromel. Considerada uma das bebidas alcoólicas mais antigas da humanidade, sua origem se perde no tempo e é frequentemente associada a um curioso acaso da natureza: a combinação de água e mel acumulados em cavidades de árvores teria entrado em contato com leveduras selvagens, dando início, por fermentação espontânea, a uma bebida que acompanharia diferentes povos ao longo da história. Vestígios de bebidas fermentadas à base de mel remontam à Antiguidade e há registros arqueológicos na China associados ao período neolítico, evidenciando que a relação do ser humano com o mel fermentado é muito mais antiga do que se poderia imaginar.
Nas civilizações clássicas, o hidromel ganhou uma dimensão que ultrapassava o simples prazer de beber. Entre gregos e romanos, a bebida esteve relacionada a divindades, celebrações e práticas culturais, chegando a ser associada ao chamado “néctar dos deuses”. O mel, por sua vez, era considerado um alimento precioso, carregado de simbolismo e ligado à abundância, à fertilidade e à própria ideia de imortalidade. Dessa forma, o hidromel acabou incorporando à sua história uma aura quase mítica, que ajudou a preservar seu prestígio através das gerações.

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Foi, porém, entre os povos nórdicos que o hidromel encontrou algumas de suas histórias mais fascinantes. Para vikings e outras culturas escandinavas, a bebida estava relacionada à coragem, à bravura, à sabedoria e à poesia. Na mitologia nórdica, uma das lendas mais conhecidas conta que Kvasir, ser dotado de grande sabedoria, teria sido morto e seu sangue misturado com mel por anões. Dessa combinação teria surgido o chamado hidromel da poesia, bebida capaz de conceder conhecimento e inspiração àqueles que a consumissem. A narrativa ajuda a explicar por que, na tradição nórdica, beber hidromel não representava apenas celebrar: significava também buscar força, inteligência e inspiração.
Com o passar dos séculos, entretanto, a bebida perdeu espaço. O crescimento das cidades, as mudanças nos hábitos de consumo e, principalmente, o aumento do valor do mel contribuíram para tornar sua produção menos competitiva. Cerveja e vinho, produzidos a partir de matérias-primas mais abundantes e facilmente disponíveis em diversas regiões, ganharam terreno e passaram a ocupar um lugar predominante nas mesas europeias. O hidromel, que durante muito tempo esteve associado a banquetes, rituais e celebrações, acabou se tornando uma bebida menos comum, preservada sobretudo por tradições locais e por pequenos produtores.
Mesmo relegado a um papel secundário durante determinados períodos da história, o hidromel deixou uma marca curiosa até mesmo na linguagem e nos costumes matrimoniais. Uma das explicações tradicionalmente associadas à expressão “lua de mel” remete ao antigo hábito de oferecer ou consumir hidromel durante o primeiro ciclo lunar após o casamento. A bebida, feita à base de mel, estaria simbolicamente ligada à fertilidade, à prosperidade e aos bons desejos para a vida a dois. Embora a origem exata da expressão seja objeto de diferentes interpretações históricas, a associação entre mel, casamento, fertilidade e celebração atravessou os séculos e permanece presente no imaginário popular.
De bebida que pode ter surgido de um acidente natural a símbolo de deuses, guerreiros, poetas e recém-casados, o hidromel carrega uma história muito maior do que sua composição aparentemente simples. Mel, água e leveduras deram origem a uma bebida que acompanhou civilizações, alimentou mitologias e sobreviveu à concorrência de outras bebidas fermentadas. Hoje, seu ressurgimento revela não apenas uma busca por sabores diferentes, mas também o interesse crescente por produtos artesanais, histórias ancestrais e formas de beber que recuperam tradições esquecidas. Mais do que uma bebida milenar, o hidromel é, portanto, uma espécie de elo líquido entre passado e presente — uma experiência em que cada taça pode carregar um pouco da história, da cultura e das lendas que ajudaram a moldar a humanidade.
Foi muito legal descobrir que, a partir de uma receita básica – água, mel e leveduras – é possível adicionar um sem-número de variações, que podem incluir frutas, especiarias, ervas, grãos, flores etc. Por conta disso, surgiram classificações para os diferentes estilos / categorias resultantes dessas alquimias, sendo a mais conhecida a da Beer Judge Certification Program (BJCP), uma organização sem fins lucrativos formada em 1985 nos Estados Unidos, cujas diretrizes são utilizadas em concursos nacionais e internacionais.
No guia de estilos da BJCP (Mead Style Guidelines) o hidromel é classificado através de parâmetros como quantidade de mel residual, teor alcoólico, insumos utilizados, métodos e receitas históricas, nível de carbonatação da bebida, entre outros. A partir daí, a grosso modo, temos: Hidromel Tradicional (versão mais simples), Melomel (com adição de alguma fruta), Metheglyn (com adição de ervas e especiarias), Bochet (quando parte ou todo mel da composição é caramelizado), Rhodomel (com adição de flores) e Specialty Mead (hidromeles históricos produzidos de acordo com a cultura e tradição de um povo).

Imagem: hidromelmead.com.br

A história do Hidromel MEADWINE começou de maneira quase casual, a partir da descoberta de uma bebida ainda pouco conhecida no Brasil. Durante uma viagem à Grã-Bretanha, um amigo de ALEX SCHEFFER, o conhecido “barba”, teve contato com o hidromel e voltou ao país trazendo não apenas a experiência de degustar uma bebida milenar, mas também a curiosidade sobre suas possibilidades de produção. Ao retornar, convidou Alex para conhecer melhor a bebida, estudar seus processos e, juntos, tentar reproduzi-la em território brasileiro. O que começou como uma experiência entre amigos logo se transformaria em um projeto marcado por pesquisa, experimentação e persistência.

Alex aceitou o desafio imediatamente. Naquele momento, há cerca de cinco anos, praticamente não havia hidromel disponível no mercado brasileiro, e a primeira intenção era produzir a bebida para consumo próprio. O caminho, porém, esteve longe de ser simples. Foram dezenas de receitas testadas, inúmeras adaptações e uma longa sequência de experimentos até que, ao final do terceiro ano, os produtores chegassem à fórmula que consideraram ideal. O resultado foi uma receita própria, desenvolvida a partir de uma antiga preparação celta encontrada em um livro na Biblioteca Nacional do Reino Unido, em Londres, unindo referências históricas e conhecimento adquirido durante anos de testes.
A experiência doméstica acabou dando origem a uma iniciativa pioneira. A MEADWINE tornou-se a primeira hidromelaria a produzir legalmente a bebida no estado do Rio Grande do Sul, consolidando uma trajetória que combina tradição, pesquisa e empreendedorismo. Mais do que reproduzir uma bebida de origem ancestral, a proposta passou a ser apresentar ao consumidor brasileiro uma nova possibilidade dentro do universo dos fermentados, valorizando tanto a história do hidromel quanto a qualidade e a experiência proporcionada em cada taça.
A resposta do público ajudou a confirmar que havia espaço para esse novo mercado. Em um segmento cada vez mais competitivo, no qual a satisfação do consumidor se tornou um dos principais fatores de diferenciação, a aceitação do MEADWINE surpreendeu positivamente. A bebida passou a conquistar diferentes perfis de consumidores: apreciadores de vinhos e de fermentados não gaseificados, frequentadores de eventos e feiras medievais, interessados em gastronomia e harmonizações e até mesmo pessoas que tiveram contato com o produto por meio da televisão. Em comum, todos encontram no hidromel uma combinação de novidade, curiosidade e possibilidade de descoberta.
Essa diversidade de público também revela uma das principais forças da MEADWINE: a capacidade de dialogar com diferentes experiências gastronômicas e culturais. O hidromel deixa de ser apenas uma bebida exótica ou uma referência distante às antigas civilizações e passa a ocupar espaço à mesa, acompanhando pratos, experiências de degustação e momentos de confraternização. A curiosidade inicial frequentemente se transforma em apreciação, e a experimentação abre caminho para um consumidor cada vez mais interessado em conhecer diferentes estilos e buscar produtos de maior qualidade.
Com vendas para todo o Brasil, a MEADWINE acompanha e, ao mesmo tempo, participa ativamente da expansão desse mercado. O crescimento da procura demonstra que existe um público disposto a experimentar, comparar e descobrir novas possibilidades no universo das bebidas fermentadas. Nesse cenário, a trajetória da marca representa mais do que a história de uma hidromelaria: é o retrato de uma bebida ancestral que começa a conquistar um novo espaço no paladar brasileiro, impulsionada pela combinação entre tradição, inovação, pesquisa e, sobretudo, pela busca crescente dos consumidores por experiências autênticas e produtos de qualidade.
Chegou a hora de experimentar, né?

Fiz contato com o Alex que me orientou acerca dos seus produtos. Ele me disse que a temperatura de serviço seria entre 5ºC e 11ºC, utilizando-se taças Riesling ou ISO. A degustação, assim como se faz no vinho, deve seguir os seguintes passos: observação da cor, sua clareza e brilho; apreciação dos aromas, que são delicados e podem incluir notas de mel floral, frutas frescas e um toque sutil de especiarias; e, por fim, o sabor, tomando um primeiro gole, pequeno, deixando o líquido espalhar-se pela boca, enquanto aprecia toda a complexidade que o mel proporciona.
Disse ainda que, para se ter realmente uma experiência do que é o Hidromel, seus sabores e segredos, eu deveria seguir uma ordem de consumo do rótulos produzidos. E foi isso que eu fiz…
Seguindo sua sugestão, comecei pelo Hidromel Tradicional, que é adocicado no nariz mas seco no paladar, revelando a pureza da fermentação de mel e água, apresentando uma cor dourada viva, aroma marcante de flores e favo de mel, e um paladar que varia de seco a suave com retrogosto duradouro e equilibrado.

Na sequência, experimentei o Hidromel Pyment, que é um estilo que mistura mel e uva ou suco de uva. Na degustação, ele apresenta coloração que vai do rosa ao vermelho-púrpura, aromas florais e frutados do mel e das viníferas, e um paladar equilibrado com a estrutura e os taninos da uva, com lágrimas lentas e viscosas na taça, indicando bom corpo e densidade.

Passamos, agora, para o Hidromel Metheglin, que é estilo fermentado com ervas, especiarias ou vegetais, cujas notas de degustação variam conforme os ingredientes, mas costumam destacar uma intensa complexidade aromática que une a base de mel a notas picantes, florais ou herbáceas marcantes. No caso desse exemplar da MEADWINE, ele é feito com hibisco, o que lhe dá uma coloração linda, perfeito para um jantar romântico!

E, por fim, o Hidromel Suave, que se revela uma bebida de dulçor moderado a alto, com coloração entre dourado e âmbar. No aroma e no paladar, destacam-se notas florais de mel, toques frutados (como maracujá, pêssego ou frutas frescas), nuances de caramelo e uma textura encorpada, macia e persistente. Com certeza, ele faz muito bem o papel de um vinho de sobremesa para um evento especial…

Posso garantir que essa minha experiência de iniciação no mundo do HIDROMEL, que é vasto e bastante complexo, foi bastante proveitosa e cheia de descobertas. Quando me proponho a dissertar sobre qualquer assunto, gosto de mergulhar nele por inteiro, atrás de todas as informações disponíveis.
A gastronomia e as bebidas constituem uma unidade integral em que o copo e o prato possuem a mesma relevância. As bebidas não são somente acompanhamentos, mas componentes essenciais que ajustam sabores, limpam o paladar e se relacionam diretamente com os ingredientes utilizados na culinária. E por isso acho super válido qualquer oportunidade de aumentar o repertório, seja de pratos ou de bebidas, de forma a obter o máximo de cada um deles – e, principalmente, harmonizando-os adequadamente.
No Brasil, o mercado de hidromel conta com marcas artesanais de destaque nacional e regional, como a VALHALA HIDROMEL (@valhalahidromel) e a PHILIP MEAD (@hidromelphilipmead) conhecida por rótulos premiados. A produção nacional é unida por entidades como a ASH – Associação Sul Brasileira de Produtores de Hidromel.
Sobre a ASH:
Fundada em 4 de julho de 2017, em Curitiba, no Paraná, a ASH – Associação Sul Brasileira de Produtores de Hidromel surgiu a partir da união de produtores e entusiastas da cultura fermentativa, reunidos em torno do objetivo de promover o desenvolvimento, a valorização e a disseminação do hidromel no Brasil.
Constituída como uma entidade sem fins lucrativos, a associação tem entre suas principais atribuições o fortalecimento do setor hidromeleiro, a disseminação de conhecimento, o incentivo à qualificação técnica e a promoção de práticas que contribuam para o crescimento sustentável da atividade. Nesse contexto, são desenvolvidas iniciativas como cursos, palestras, seminários, encontros técnicos, workshops, competições e outras ações voltadas ao aperfeiçoamento da produção e à capacitação de profissionais e produtores.
Inicialmente concebida para reunir produtores dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, a ASH ampliou gradualmente sua área de atuação e passou a congregar associados de diferentes regiões do país. A expansão reflete o próprio crescimento do mercado e da comunidade dedicada à produção de hidromel, consolidando a entidade como um espaço de representação, integração e intercâmbio para o setor em âmbito nacional.
Entre as iniciativas de maior destaque está a Copa Kylix, criada em 2017 e considerada a primeira competição brasileira dedicada exclusivamente ao hidromel. Realizada anualmente, a competição reúne amostras produzidas em diferentes partes do país e promove a avaliação dos exemplares segundo critérios técnicos baseados nas diretrizes internacionais do BJCP para a categoria. Além de estimular a busca por qualidade e excelência, a iniciativa favorece a troca de experiências e conhecimentos entre produtores profissionais e caseiros.
Ao longo de sua trajetória, a ASH passou a ocupar posição de referência no desenvolvimento da cultura hidromeleira brasileira. Sua atuação ultrapassa a promoção da bebida e envolve a formação de uma comunidade voltada à colaboração, à profissionalização e ao aprimoramento contínuo dos processos de produção.
Nesse movimento de consolidação do setor, a associação contribui para ampliar o reconhecimento do hidromel como uma bebida de qualidade, produzida segundo boas práticas e parâmetros técnicos, ao mesmo tempo em que estimula a construção de uma identidade própria para a produção brasileira. A expansão da comunidade de produtores e apreciadores reforça, assim, o papel de iniciativas associativas na valorização e na disseminação da cultura do hidromel no país.
Creio que o mercado ainda é incipiente e, com certeza, comporta um grande crescimento. Muitas pessoas nunca ouviram falar, ou tiveram a oportunidade de experimentar essa que é a bebida mais antiga do mundo. Por isso, entendo que qualquer iniciativa no sentido de aumentar a divulgação e fornecimento de maiores informações sobre o HIDROMEL é válida e irá ajudar, de alguma forma, a disseminação do seu consumo para uma ampla gama de espectros.
E por isso, resolvi trazer esse assunto para pauta. Vamos descobrir juntos?
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Espero vocês no nosso próximo encontro. Até lá!!!













