
Com Ana Gosling

Foto: Imagem IA/GPT
Copa e infância
A Copa do Mundo produz muitas imagens de comunhão, entusiasmo, paixão. Nenhum personagem dessa festa, porém, me comove mais do que as crianças.
Vez ou outra, as câmeras dos estádios lhes dão protagonismo em pequenas lances. Hoje, no segundo gol do Brasil contra o Japão, um torcedor mirim chorava sem conter-se, abraçado ao pai, pela vitória conquistada no último minuto. No jogo da Alemanha contra o Paraguai, depois de o goleiro paraguaio defender o segundo pênalti, um menino gritava na arquibancada: “Vamos! Vamos!”.
Dias atrás, no confronto entre Colômbia e Uzbequistão, viralizou: um menino balançava a bandeira do Uzbequistão, gritando sozinho o nome do país, no meio da torcida colombiana. Após o adversário marcar um gol, suas lágrimas partiram corações. Sua tristeza profunda contrastava com a euforia da torcida adversária que o cercava. Algo mágico aconteceu: os torcedores colombianos passaram a gritar o nome do país adversário, para consolar o menino. Gente mostrando seu melhor: o acolhimento.
A euforia infantil, alheia às disputas políticas, econômicas, às hegemonias técnicas, é uma semente de pureza no mar das disputas do campeonato. É o compromisso com a essência: a emoção e o encanto que o esporte ainda pode provocar. Não à toa, muitos se inspiram na infância a jogar profissionalmente. No campo, às vezes, o mais fraco vence; o menos conhecido, o mais improvável. O futebol coroa os grandes mas também subverte a lógica das estatísticas, reduz favoritismos, escreve histórias de superação. Há dias em que iguala os mais fracos aos mais fortes.
A Copa é uma festa de esperança.
Craques e mascotes entram de mãos dadas antes da partida. Uma aliança entre presente e futuro, um compromisso com a paixão que deveria mover as disputas em campo. É bonito vermos os grandes jogadores acolhendo seus fãs mirins, dando-lhes colo, mãos, tirando fotos. De todos os torcedores do mundo, as crianças são as mais fiéis, as que sofrem com as perdas, antes de culparem seus ídolos pelo fracasso. Mesmo para aquelas que não sonham ser jogadoras, torcer é um compromisso de lealdade.
Fui uma criança apaixonada por Copas. Com vuvuzela, camisa da seleção, detalhes em verde e amarelo nos acessórios, nas roupas, na decoração do quarto, nos adesivos do caderno. Rezei com fé em momentos decisivos e chorei nas desclassificações.
Ainda hoje, vejo crianças mobilizadas pelo evento, passando, em turma, pelas portas das casas recolhendo o dinheiro para decorar a rua. Chamam adultos para ajuda-las a rabiscar com giz o contorno de seus heróis sobre o asfalto, pintando-os com a paleta brasileira. Chutam bolas, meias, garrafas, latas pelas vielas e quintais pavimentados de sonhos. Colecionam figurinhas. Gritam gol em jogos simulados, vivendo a fantasia da vitória em paralelo à realidade dos placares.
Quando um descrente me diz não torcer pela seleção, por esse ou aquele motivo, respondo-lhe: “Torça. Se não por você, ao menos pelas crianças”. São elas as guardiãs do verdadeiro sentido dessa festa.


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo















