Um Poema Ausente

Coluna de Márcio Calixto

Um Poema Ausente

Percebi que há muito tempo não escrevo um poema. Antes eles eram mais simples, me apareciam, me acompanhavam. Agora parece que estou sozinho. Esquecido, largado.

Tentei mesmo buscar de memória quando foi o último poema que escrevi. Por estar fazendo tudo pelo caderninho, era somente retornar páginas e ver quando foi o último momento em que estive em um poema de meu punho, escrito na saudade e na saidade da poesia. Quando eu tenho muito mais o sentimento de condução do que de escritor do poema. Nada.

Penso que pode ser influência mesmo. Tenho escrito muitos parágrafos, muita coisa. É como se eu direcionasse apenas a eles e não mais às estrofes. Relembro Ferreira Gullar, que escreveu sobre o fato de ter de buscar o poema e não mais ser buscado por ele. Será que terei de caçar poesia?

A vida não tem sido tão poética assim. Nada mais tem sido tão poético assim. Tenho vivido monotonias absurdas, excessos de responsabilidades amedrontadoras. Quero mesmo voltar a me sentir poeta, pois poeta não consigo mais ser.

Transformo o sentimento em crônicas. Drummond, nesse mesmo sentimento, criou um poema. Ele era poeta maior. Eu nem sei se sou poeta menor. Perdoai! Perdoai-me todos! Sei que escrevo algo. Terás relevância, Márcio? Já tentou ser grande também. Já se viu Tanussi. Ele, um gigante. Já se viu Gosling. Ela, uma outra gigante. Como Chris Hermann. O que me sobra agora que o poema está ausente? Relembro de Gregor em seu processo de metamorfose. Estamos no mesmo caminho.

 

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor


Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto

 

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.