
Coluna de Márcio Calixto
Um Poema Ausente
Percebi que há muito tempo não escrevo um poema. Antes eles eram mais simples, me apareciam, me acompanhavam. Agora parece que estou sozinho. Esquecido, largado.
Tentei mesmo buscar de memória quando foi o último poema que escrevi. Por estar fazendo tudo pelo caderninho, era somente retornar páginas e ver quando foi o último momento em que estive em um poema de meu punho, escrito na saudade e na saidade da poesia. Quando eu tenho muito mais o sentimento de condução do que de escritor do poema. Nada.
Penso que pode ser influência mesmo. Tenho escrito muitos parágrafos, muita coisa. É como se eu direcionasse apenas a eles e não mais às estrofes. Relembro Ferreira Gullar, que escreveu sobre o fato de ter de buscar o poema e não mais ser buscado por ele. Será que terei de caçar poesia?
A vida não tem sido tão poética assim. Nada mais tem sido tão poético assim. Tenho vivido monotonias absurdas, excessos de responsabilidades amedrontadoras. Quero mesmo voltar a me sentir poeta, pois poeta não consigo mais ser.
Transformo o sentimento em crônicas. Drummond, nesse mesmo sentimento, criou um poema. Ele era poeta maior. Eu nem sei se sou poeta menor. Perdoai! Perdoai-me todos! Sei que escrevo algo. Terás relevância, Márcio? Já tentou ser grande também. Já se viu Tanussi. Ele, um gigante. Já se viu Gosling. Ela, uma outra gigante. Como Chris Hermann. O que me sobra agora que o poema está ausente? Relembro de Gregor em seu processo de metamorfose. Estamos no mesmo caminho.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

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