AC RETRÔ – Baiano e os Novos Caetanos: O humor musical a serviço da crítica social e política do país

AC RETRÔ – Baiano e os Novos Caetanos: O humor musical a serviço da crítica social e política do país

Por Jorge Ventura

 

Falar do múltiplo talento do saudoso humorista Chico Anysio e dos seus divertidos e carismáticos personagens não é nenhuma novidade. Mas destacar alguns que foram inspiração ou paródias de artistas famosos, vale, no mínimo, um artigo que revele peculiaridades curiosas e interessantes.

Nove entre dez críticos de TV e milhares de fãs, entre os quais me incluo, afirmam que a fase mais criativa e luminosa de Chico Anysio foi quando ele trabalhou em parceria com Arnaud Rodrigues. Enquanto Chico já era um nome consagrado no teatro, rádio e tv, Arnaud gozava de muita experiência como ator, humorista, cantor, compositor, roteirista, produtor e redator de programas humorísticos. Ambos desenvolveram diversos tipos marcantes, entre eles, em 1974, uma dupla de cantores chamada Baiano e Os Novos Caetanos. Obviamente, uma sátira ao movimento tropicalista liderado por Caetano Veloso e um grupo de artistas baianos. Chico era o Baiano, e Arnaud, o Paulinho Boca de Profeta (às vezes, Paulinho Cabeça de Poeta), numa referência a Caetano e a Paulinho Boca de Cantor, membro dos Novos Baianos.

Baiano e os Novos Caetanos. Foto: Rede Globo / Reprodução Internet

Esses personagens estrearam no programa Chico City, num quadro musical em que apresentavam suas canções, todas muito rítmicas com letras engajadas, acompanhadas de refinado instrumental, composto de belos arranjos de violões, sanfonas e cavaquinhos. Assinando as composições, além da dupla, muitos bons músicos e grandes letristas, como Orlandivo, Renato Piau, Sebastião Valentim, Geraldo Nunes, Venâncio e Sivuca. Além do canto, Chico explorava seu talento ao imitar a voz de Caetano e seus trejeitos por meio de uma performance inesquecível. Além dos bordões Legal… Tô numa boa… e Tá sabendo, Paulinho?, em alguns programas, ele terminava a canção dando requebros hilários. Chico, que havia criado “Baiano”, em 1973, uma vez, concedendo entrevista, revelou que o personagem nasceu na época do exílio de Caetano Veloso, período no qual ele, praticamente, não podia falar. Isso inspirou Chico a tornar Baiano um monossilábico.

Baiano e os Novos Caetanos. Foto: Rede Globo / Reprodução Internet

Em 1974, quando gravaram e lançaram o primeiro álbum, seus hits se tornaram clássicos, como “Vô batê pá tu” – esse título era uma gíria da época muito usada entre os jovens. Daí a ideia de Chico em usar o personagem Lingote, um hippie idoso, sempre “doidão”, como o garoto-propaganda dessa música que, na verdade, falava, de modo sutil, sobre as delações da ditadura vigente. Outra canção emblemática foi “Urubu tá com raiva do boi”, que misturava humor e crítica à situação econômica do país e ao “milagre econômico brasileiro”.

Baiano e os Novos Caetanos. Foto: Rede Globo / Reprodução Internet

Baiano e os Novos Caetanos chegaram às paradas de sucesso, com várias músicas, de diversos álbuns, sendo executadas nas rádios, o que resultou em uma excelente vendagem de discos. O que, inicialmente, era apenas um projeto musical satírico, acabou ganhando força no mercado fonográfico. Os dois passaram a ser vistos, de forma respeitosa, como divulgadores do gênero samba-rock, rock cômico, MPB e rock rural. O álbum de estreia, com o título homônimo, Baiano & Os Novos Caetanos trouxe faixas de destaque como “Folia de Rei”, “Véio Zuza”, “Selva de Feras” e “Dendalei”. Um detalhe: a segunda faixa, “Nega”, foi composição exclusiva de Arnaud Rodrigues. Outro detalhe: a dupla nunca realizou shows ao vivo. Além das aparições nos quadros musicais dos programas Chico City e Chico Total, Chico e Arnaud, ou melhor, Baiano e Paulinho participaram de gravações de programas da TV Globo, como o Fantástico, o Globo de Ouro e o Geração 80. Esse esquete cômico-musical contou com gravadoras de qualidade, como Som Livre e CID, reforçando a proposta da dupla de optar pela produção em estúdio em vez de turnês teatrais.

Uma forte característica no trabalho musical de Baiano e os Novos Caetanos era o tratamento poético e inteligente dado às letras engajadas das canções, sempre repletas de metáforas e frases de duplo sentido. Mesmo sendo uma crítica, por meio de sátira, ao capitalismo desenfreado e ao momento político e social brasileiro, em certas canções, os versos chegavam a profetizar o futuro e as relações humanas nas sociedades de consumo:

… Faço do meu canto a neura existencial / O conteúdo do cotidiano, o dia a dia da vida / A eletrônica está substituindo o coração / A inspiração passou a depender do transistor / O poeta de aço, de poesia programada, é demais para os meus sentimentos, tá sabendo? – (“Nega”). Amo, amo a mata porque nela não há preços / Amo o verde que me envolve, o verde sincero / que me diz que a esperança não é a última que morre / Quem morre por último é o herói… / E o herói é o cabra que não teve tempo de correr – “Cidadão da Mata”. Urubu tá com raiva do boi / E já sei que ele tem razão / É que o urubu tá querendo comer / Mas o boi não quer morrer / Não tem alimentação… – (“Urubu Tá com Raiva do Boi”).

Em meio às canções, Baiano dava o seu recado, meio irônico, meio apocalíptico, em tom reflexivo:

… O medo, a angústia, o sufoco, a neurose, a poluição, os juros, o fim… Nada de novo /A gente de novo só tem os sete pecados industriais…(…) Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: Tudo bem? / E ele diz pra gente: Tudo bem! / Não é um barato, Paulinho? / É um barato! (…) Nada a dizer…Nada ou quase nada / O que tem é a fazer: tudo / Na rua, a obra do homem, o cheiro de gás, o asfalto fervendo, o suor batendo… o suor batendo…

Na faixa “Dendalei” – na verdade, uma corruptela de “dentro da lei” – a dupla celebra a geração flower power, enaltecendo o desprendimento material e o hedonismo dos hippies:

Sou fã da viração do vento / Sou fã do livre pensamento / Sou fã da luz do nascimento / Sou fã aqui do melhor momento!

O sucesso dessa iniciativa rendeu quatro LPs: Baiano & Os Novos Caetanos I (1974) e II (1975), A volta (1982) e Sudamérica (1985), e isso acabou impulsionando a carreira de Arnaud Rodrigues, como cantor e compositor, fazendo com que ele lançasse alguns álbuns solo, como Murituri (1974) e Som do Paulinho (1976). O pernambucano de Serra Talhada, Arnaud Rodrigues, quis levar adiante uma proposta séria e inovadora, sendo bastante elogiado pela crítica especializada. Porém, a sua imagem sempre esteve associada ao humor, o que resultou em baixa vendagem de discos.

 

Contudo, ele insistiu. Em 1978, gravou a faixa “A Carta de Pero Vaz de Caminha”, que fez parte de Redescobrimento, considerado o primeiro disco roots reggae gravado no Brasil. Seu nome também foi creditado como um dos precursores do rap brasileiro. E a canção “Melô do Tagarela”, lançada em compacto pela RCA, em 1979, foi cantada e falada por Luiz Carlos Miéle, como a primeira versão de um rap gravado no Brasil.

Paralelamente, Chico Anysio embarcava em outros projetos fonográficos, porém mantendo a proposta de humor. Em parceria com Arnaud, lançou, em 1975, o álbum Azambuja & Cia, com a participação especial do trio Azymuth. Entre 1975 e 1982, lançou Baiano e Amaralina (a personagem, embora fosse uma cantora baiana, interpretada pela atriz comediante Nádia Maria, era uma sátira em homenagem a cantora paraibana Elba Ramalho).

Baiano e os Novos Caetanos – SUFAMERICA. Foto: Rede Globo / Reprodução Internet

No balaio musical e humorístico de Baiano e os Novos Caetanos, entre samba, samba-rock, samba-jazz, forró, xaxado, MPB e outros gêneros, suingues e estilos, as letras e canções de sutil protesto continuaram a ser uma marca autoral. No álbum A Volta, por exemplo, a faixa-destaque “Só Pa Dá um Toque” não deixava dúvidas:

Baiano e os Novos Caetanos – A VOLTA. Foto: Rede Globo / Reprodução Internet

É só pa dá um toque / É só pa dá um toque /As coisa tão rolando do Chuí ao Oiapoque / Ao Oiapoque/ Ao Oiapoque / E tudo começou no festival de Woodstock / É só pa dá um toque / É só pa dá um toque / A falta de feijão e o saco cheio no estoque / E no estoque / E no estoque / E o filho do vizinho tá dançando um tal de rock / Um tal de rock/ Um tal de rock (…) A coisa tá chocante e o chocante me dá choque (…) E o filho do vizinho continua ao som do rock…

Quando a parceria deles se desfez, abriu-se uma lacuna nesse tipo de humor. Mas a genialidade de Chico “Baiano” Anysio e Arnaud “Paulinho” Rodrigues ficou em nossa memória e deixou muita saudade.

 

Ah, tempos bom! Quem se lembra?

 

BONUS: Confira alguns vídeos de Baiano e os Novos Caetanos!

 

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

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Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

One comment

  • Coluna deliciosa, atual, fluida em sua escrita e, principalmente, fazendo do passado alavanca para se entender o presente e, também, o futuro. Grande Jorge Ventura. Parabéns!

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