Poesia e delicadeza num Envelope Violeta

 

Sonia Maria Mazzei tem a poesia na veia. Na observação da vida, nas imagens que captura em fotos, no jeito de falar e de oferecer sua amizade ou colaboração. Mesmo quando não está escrevendo poemas, Sonia pulsa poeticamente.

Em seu segundo livro de poesia, Envelope Violeta (Ed.Penalux),  seus poemas trazem a delicadeza e a maestria dessa artista tão sensível.  Seus versos soam com leveza e simplicidade. Evocam imagens fortes/significativas, íntimas à rotina comum de todos nós.  Nas cenas que servem como pano de fundo para suas reflexões ou dissertações poéticas – as lembranças de infância, as saudades da mãe, de um amigo ou de um amor, distanciamento social, o passar dos anos (da vida!), as receitas de bolo, a casa dos avós – o leitor se vê, também, ali. Sente como seu o passado do narrador ou sua angústia diante do desconhecido. Por isso, facilmente, a poesia encontra ressonância, despertando sentimentos profundos nos leitores.

Há melancolia mas não há sofrimento. Há o curso da vida. O que nos fica como doçura eterna e o que a vida leva de nós. Os caminhos que persistimos em percorrer. Um livro emocionante e necessário, principalmente em tempos obscuros: nos lembra da arte e da beleza, dos sentimentos que mais importam e de que como a vida pulsa, mesmo quando, com as portas fechadas, damos passos em pouco espaço; mesmo quando, ao fim do dia, a sopa quente nos embaça o olhar.

Conheça, através da entrevista abaixo, um pouco mais a autora e sua obra:

Como a Literatura entrou na sua vida?

Despertei para a literatura bem cedo. Família grande, a maioria de bons leitores.
Aprendi desde pequena, a ouvir histórias. Ganhava muitos livros e, mesmo sem saber ler, observava as páginas e tentava inventar nomes e situações para os personagens.
Destacava-se, entre os contadores de histórias, um primo mais velho que adorava reunir as crianças da família para um momento lúdico, ao menos duas vezes por semana. Eram contos, fábulas e, claro, a obra de Monteiro Lobato.

Quais foram suas primeiras obras literárias?

Capa do Livro. Vida de balão é Foguinho. Foto: Divulgação.

SMM: Dediquei o meu primeiro livro infantil a este primo: “Vida de Balão é Foguinho”, com ilustrações de Leonardo Vieira de Almeida – ZMF Editora – 1995. O lançamento ocorreu no Sesc da Tijuca, no Rio de Janeiro, neste mesmo ano.”

Nunca parei de escrever, mas publicar era difícil. Até que, em 2004, surgiu um concurso da prefeitura da cidade: “Prêmio Carioquinha de Literatura”, com o tema sobre o Rio de Janeiro. Era preciso enviar texto e ilustrações. Desta forma, preparei o texto. Contudo, faltavam as ilustrações. Falei com o ilustrador Leonardo Vieira, mas ele me disse que seria impossível ilustrar um livro em uma semana. Eu gostava do texto e não queria deixar de enviar. Então, com o pouco que sabia, comecei a criar as ilustrações.

Capa do livro “Doce Surpresa”. Foto: Divulgação.

“Doce Surpresa” é a história de uma formiguinha que morava em um hotel e adorava doces. Certo dia ela ouviu que haveria uma excursão ao Pão de Açúcar. Imaginem que alegria! Maior ainda foi a minha alegria, quando recebi o resultado do concurso. O lançamento ocorreu em 2007, na Biblioteca Escolar Municipal de Copacabana Carlos Drummond de Andrade, com edição da Prefeitura do Rio de Janeiro, fazendo parte da Coleção Biblioteca Carioquinha.

Sonia, você é uma das autoras que participou na campanha #ParaAGenteLembrarDaPoesiaDaVida , nos ajudando, através de poemas lidos e gravados em vídeos que foram divulgados em nosso canal do YouTube, a aquecer corações num momento tão sombrio. Você sempre gostou de poesia ? O que te inspirou a começar a escrever poemas?

Escrevi muitos poemas. Era um sonho publicar um livro solo, já que vinha participando de várias antologias. Em 2016, fiz uma viagem a Portugal e algo me dizia que traria na mala muita inspiração. Adoro fotografar. Em Évora, as andorinhas passavam em bando. Tão velozes, que era difícil registrar. Fui então “clicando”, “clicando”, até que, ao ver as fotos, dentre todas, só em uma delas estavam as andorinhas. Pronto. Aí estava o nome do meu livro “Revoada”. Com cinquenta poemas e fotos, foi lançado em 2017, pela Editora Penalux, no Instituto Estação das Letras, no Rio de Janeiro. A foto original das andorinhas de Évora e o poema Revoada estão no final do livro.

Capa do livro “Revoada”. Foto: Divulgação.

Revoada

Quem sabe hoje
Seja o dia de rever canções
Juntar notas musicais
Perdidas na bagunça
De um quarto de guardados.

Quem sabe hoje
Pássaros retornem à janela
Fechada outrora para balanço.

Quem sabe hoje
A poda seja feita
E o vento sopre de leve
Varrendo as folhas mortas.

 

Mas no seu coração a literatura infantil sempre teve um espaço reservado, não?

Sim, fiz um curso no Instituto Estação das Letras com a escritora Ninfa Parreiras, especialista em literatura para crianças e jovens. Na primeira aula, o tema foi floresta. Criei um personagem chamado “Lili”, a serpente mais esperta da floresta. Aconteceu que, em todas as aulas, mesmo com outros temas, “Lili” aparecia. O que fazer? “Lili” sentava-se ao meu lado e ditava as histórias. Foi Ninfa quem deu a ideia: faça várias histórias com “Lili”, seja qual for o tema.

Oito histórias e um novo livro “Vida, Encontro e Festa: no vai e vem da floresta”. Ilustrado por Mariana Velozo, em um lindo cenário: a Floresta da Boa Vida. Foi lançado em 2018, pela Editora Penalux, no Museu da República, no Rio de Janeiro.

 

E como nasceu o delicado e sensível ENVELOPE VIOLETA, seu novo livro pela Ed. Penalux?

Capa do livro”Envelope Violeta”. Foto: Divulgação.

Veio a pandemia, em 2020, o isolamento social, amigos doentes, poetas queridos partindo e familiares também… Eu já havia iniciado um livro de poemas. E mais do que nunca, me juntei às palavras. Com elas, podia conversar sem máscara e tocá-las sem medo. Meus sentimentos se misturaram e assim nasceu Envelope Violeta.

O lirismo que permeia meus versos se misturou à saudade, ao tempo, à reflexão, ao cotidiano, ao medo, à ilusão, à emoção, à solidão e à esperança. Tudo isso, envolto em metáforas de que tanto gosto e que são, para mim, essenciais na poesia.

De fato, em Envelope Violeta não há sofrimento e sim a constatação da realidade. São setenta poemas de temas variados onde procuro imprimir um ritmo constante. Uma musicalidade. “Passadiço”, na página 94, é uma homenagem ao grande poeta e amigo Marcus Vinícius Quiroga, que passou para o outro lado.

“Sem ao menos saber por que
Deixava para trás a vida”.

Envelope Violeta, o primeiro poema do livro, foi o último que escrevi e, quando terminei, sabia que este seria o título.

Envelope Violeta

Reconheço aquele traço,
Aquela caligrafia,
No cartão de aniversário.
Afago as flores
Borrifadas de perfume.
São reais e pulsam as palavras,
Os votos, o abraço,
As reticências…
Ah! Tenho certeza:
A eternidade mora
Em um envelope
Violeta.

Finalmente, no último poema, Saideira, homenageio alguns poetas preferidos, de uma maneira leve e divertida.

Saideira

Palavras fogem,
A vista embaça,
O teclado não obedece.
Onde quero por um A
Ele dedilha S.
Transformo noites em dias.
Palavras, letras, sinais
Um chão de papel picado.
Tropeço nos is e nos ais.
Mas poeta não desiste.
Me espanto: o verso é forte!
Mas olhando bem de perto,
Eu copiei de Eliot.
Sem sentir, durmo sentada.
Vem Cecília, vem Drummond,
Até Pessoa aparece.
João chega com seu galo
E o meu quarto alvorece.
Abro os olhos, não me encontro
Qual era mesmo o tema?
Melhor concluir o livro
Com este último poema.

Assim, numa mistura de sentimentos, escrevi “Envelope Violeta”. Não houve lançamento presencial, nem abraços, apenas a sensação do dever cumprido e a felicidade de ainda estar por aqui.

Sinopse de ENVELOPE VIOLETA

A poesia de Sonia Maria Mazzei, em Envelope violeta, se estampa por uma ambivalência singular. Mistura a simplicidade e a estética. Ao mesmo tempo em que utiliza palavras cristalinas e acessíveis ao público, sem rebuscamentos desnecessários, trabalha com a linguagem através de metáforas e imagens com grande originalidade e inventividade. Com combinações inusitadas, apresenta desfechos surpreendentes, alterando o tom inicial.

 

SERVIÇO

Livro Envelope Violeta

 

SOBRE SONIA MARIA MAZZEI

Sonia Maria Mazzei. Foto: Divulgação.

Sonia é carioca, nascida em 20 de junho 1950, bacharel em Português/Literaturas pela UFRJ, com pós-graduação em Literatura Portuguesa pela UERJ.
Atuou como colaboradora do Jornal “O DESPERTAR”, de Coimbra-Portugal.
É autora três livros infantis: “Vida de Balão é Foguinho, de 1995, “Doce Surpresa” (Prêmio Carioquinha de Literatura Infantil de 2004) e “Vida, Encontro e Festa: no vai e vem da floresta” que foi lançado, no dia 08 de dezembro de 2018, pela Editora Penalux, no Museu da República – Rio de Janeiro.
Participou de várias antologias de contos e poesias e em 2017 lançou seu primeiro livro solo de poemas: “Revoada”, pela Editora Penalux. “Envelope Violeta” é seu novo livro de poemas inéditos, publicado em 2020, também pela Editora Penalux. Neste mesmo ano, em comemoração aos vinte cinco anos do Instituto Estação das Letras (IEL), do Rio de Janeiro, foi convidada a participar da Antologia, “Viver de Escrever”.
A autora, sempre atuante na divulgação da literatura, participou de vários projetos em bibliotecas públicas, escolas e centros culturais, o que inclui participações no projeto “Paixão de Ler”, dentre outros.
Em 2018, no Centro de Letras do Paraná, em Curitiba, apresentou a palestra “Palavra de Poeta” junto do evento de lançamento de seu livro “Revoada”, nesta cidade. Na mesma oportunidade, participou do Projeto “Oficina Permanente de Poesia”, da Biblioteca popular de Curitiba, ministrando a aula, com o tema “Ah! O amor”, onde analisou poemas de Cecília Meireles, Adélia Prado, Hilda Hilst e Florbela Espanca.
Neste mesmo ano, foi publicada sua entrevista no Blog do Projeto “Como eu escrevo” que reúne entrevistas de vários escritores. Também participou do evento “Concerto de Poesia”, do Instituto Estação das Letras (IEL).
Em 2019, participou do debate “Poesia: substantivo feminino”, no estande da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa, na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro e do evento “Poesia na Rua das Estrelas”, em Niterói.
Participou, em 2020, da III Mostra de Poesia Contemporânea da Apperj (edição virtual) e do Projeto “Para a gente lembrar da poesia da vida”, da ArteCult, onde apresentou seus poemas através de gravação de vídeos.
Foi entrevistada, na edição virtual, de junho de 2021, do Projeto Poeta Saia da Gaveta (PSG), a respeito do fazer poético, sobre o seu mais recente livro, “Envelope Violeta”.
Seu novo projeto para 2022 é o lançamento de um livro de contos, já iniciado.

Redes Sociais:

@soniamaria.mazzei.9

@mazzeisoniamaria/

 

 

 

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Ana Lúcia se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo esgarçado pra sempre. Continua experimentando cursos em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 400 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não estão só nos livros mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Links: Contos, poemas, crônicas: anagosling.com Artigos, crônicas: http://obviousmag.org/puro_achismo Redes Sociais: Twitter: https://twitter.com/gosling_ana Facebook: https://www.facebook.com/analucia.gosling

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