Lucifer encerra turnê em São Paulo após passagem marcante por Curitiba

Havia uma expectativa particular pairando sobre o Basement Cultural na noite de 18 de abril. Não apenas pela estreia do Lucifer em Curitiba, mas pelo momento em que a banda chegava ao Brasil: a penúltima parada de uma turnê que encontraria seu desfecho dias depois, em São Paulo. Para quem acompanha o circuito underground, esse tipo de noite raramente decepciona, ainda que o alcance da banda siga aquém do que sua consistência artística sugere.

Com a casa relativamente cheia, Curitiba recebeu um Lucifer já moldado pela estrada. O que se viu no palco foi uma banda em pleno controle da própria identidade, com uma imersão estética e sonora profundamente ancorada nos anos 1970, trazendo ecos evidentes de Black Sabbath, Pentagram e Coven. Mais do que referências, trata-se de uma linguagem consolidada ao longo de cinco álbuns e reconhecida inclusive fora do circuito alternativo.

Liderado por Johanna Sadonis, o grupo apresentou uma formação coesa, com Claudia González Díaz no baixo, Coralie Baier e Max Eriksson nas guitarras e Kevin Kuhn na bateria. Em Curitiba, essa engrenagem funcionou com precisão quase ritualística.

A abertura com “Anubis” deixou claro que, mesmo anos após seu lançamento, as raízes do projeto seguem vivas. No palco, os elementos simbólicos, como crucifixos, referências ao ocultismo e a presença da cruz Ankh, não operam apenas como estética, mas como extensão da experiência proposta pela banda. A sequência com “Ghosts”, “Crucifix (I Burn for You)” e “Riding Reaper” conduziu o público por diferentes fases da discografia, mantendo a coesão de um setlist que se repetiria também na última noite da turnê.

O calor intenso do Basement Cultural rapidamente se tornou parte da narrativa da noite. Mesmo assim, Johanna manteve o controle com naturalidade, alternando comentários bem-humorados com uma presença de palco magnética. Havia proximidade com o público, mas também uma aura quase cerimonial, como se cada faixa fosse conduzida com intenção precisa.

Se Curitiba apresentou um Lucifer seguro, técnico e completamente alinhado à sua proposta, São Paulo revelou uma camada adicional, a da despedida. O setlist foi essencialmente o mesmo, de “Anubis” ao encerramento com “Fallen Angel”, passando pelo encore que incluiu trechos de Ozzy Osbourne e Twisted Sister na introdução de “Bring Me His Head”, além da releitura de “Goin’ Blind”, do KISS, mas o peso emocional foi outro.

Na capital paulista, “Fallen Angel” deixou de ser apenas o último ato e ganhou caráter de despedida direta. Dedicada aos fãs, a faixa carregou um significado ampliado, transformando o encerramento da turnê em um momento de conexão explícita entre banda e público. A mesma execução precisa vista em Curitiba deu lugar a uma entrega mais carregada, onde cada detalhe parecia consciente de seu papel como ponto final.

Entre as duas cidades, não houve mudança estrutural, mas houve transformação. Em Curitiba, a banda estava em movimento, consolidando sua passagem. Em São Paulo, encerrava um ciclo. E é justamente nesse deslocamento de sentido que se revela a força do Lucifer ao vivo, não apenas pela fidelidade à sua estética, mas pela capacidade de fazer com que um mesmo roteiro assuma significados completamente diferentes de uma noite para outra.

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Sou Victória Heloise, fotógrafa, publicitária, atriz e musicista. Sempre quis que a música fizesse mais parte da minha vida do que ser só uma ouvinte, e descobri na fotografia um novo jeito de captar a essência dos espetáculos e eternizar as emoções que só os .shows nos proporcionam.

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