Sob o Sol de Raduan

Raduan-NassarRaduan Nassar voltou à tona ao longo do ano de 2016.
Ganhou o prêmio Camões de Literatura pelo conjunto de sua obra – pequeníssima, diga-se de passagem – e apareceu em um discurso a favor da então Presidenta Dilma, afirmando que ela não praticara crime de responsabilidade. Foi do prêmio o décimo segundo brasileiro a ganhar.  À época do discurso de defesa, alguns obviamente quiseram diminuí-lo, afirmando que voltara à tona para autoexposição e porque não já variava das ideias. Levianos e mesquinhos eram. Raduan é de uma força e presença ímpares. Incapaz de ser ofuscado por qualquer um de seus detratores.
Desaparecido desde a década de 1980, longe dos holofotes, vários mitos em torno de seu sumiço começaram a pulular. Eles não convêm aqui. Hoje com 81 anos, torna-se muito mais do que um ícone do meio literário, é um verdadeiro exemplo a ser seguido.
Neste período de claustro, tornou-se fazendeiro. Há pouco mais de sete anos, fez a doação desta propriedade para a Universidade Federal de São Carlos, sob algumas condições que privilegiassem a educação e desenvolvimento local.

“Inaugurado oficialmente em 26 de junho de 2014, o campus Lagoa do Sino, em Buri, na macrorregião administrativa de Sorocaba, é o quarto da UFSCar no Estado de São Paulo. Desde o início de 2014, oferece três cursos de graduação: Engenharia Agronômica, com ênfase em agricultura familiar; Engenharia Ambiental, com foco em sustentabilidade, e Engenharia de Alimentos, focado em segurança alimentar. Atualmente, cerca de 250 alunos estão matriculados nos cursos, todos em período integral e com duração de cinco anos. Desse total, 98% são do Estado de São Paulo, e 65% oriundos das cidades da macrorregião administrativa de Sorocaba como: Angatuba, Itapetininga, Buri, entre outras. Para o ano que vem, o total de alunos deve subir para 500. O campus Lagoa do Sino fica a 6 km de Campina do Monte Alegre.” Afirma reportagem de 2015 do Jornal Cruzeiro. É um feito que demonstra a grandiosidade do homem que é.

Raduan-Nassar-02Li “Lavoura Arcaica” agora no final de 2016. Havia comprado seu livro nas férias de início de ano, mas só pude me dedicar à leitura agora em Dezembro. Este tempo entre aquisição e real leitura fez maturar a minha percepção sobre o autor, a quem pouco explorei ao longo de minha graduação na área de Letras e depois pouco procurei. Essa premiação, somada ao seu surgimento na política e consequente estudo sobre sua pessoa, me fez perceber a singularidade do autor. Não afeito a aparições, mas quando andando teve passos firmes e pés gigantes. Calcinou sua esfinge ao lado de nomes como Clarice Lispector e Guimarães Rosa.
Quando o realmente li – ainda não fui ao Copo de Cólera -, encontrei em Lavoura Arcaica uma literatura pulsante, forte e de uma poesia lancinante. Capítulos formados por apenas um parágrafo, alguns compostos só por um período. Em um primeiro momento me lembrava Faulkner, em seu fluxo de consciência. Lembrou-me bem de quando li “Palmeiras Selvagens”. Ainda novo demais, sabia que deveria retornar à obra anos depois, para entender a grandiosidade e graciosidade daquela fúria. Durante anos, aquela frase que finaliza o livro – “Entre a dor e o nada, eu prefiro a dor” – foi um lema para a dedicação.
André – personagem principal em Lavoura Arcaica – tem em seu eu a fúria da decomposição. Ele se desconstrói, firmando-se como uma persona que não pertence àquele lugar atrasado. Como se vê no Severino de Cabral ou em Nelo do Torres. São personagens que representam uma gama de homens que são tomados por uma fúria singular, em desconstrução, em morte com o local a que antes pertenciam. É uma violência constante e silenciosa. Lavoura Arcaica traduz esta violência na linguagem.

Reler Raduan torna-se uma premissa para uma compreensão de tempos tão memoriais. Nesta velocidade lancinante das transformações e na forma como tudo se julga pertinente, “Lavoura Arcaica” se torna um símbolo que se mescla de validade e atemporalidade.
André é um em meio a tantos nós que não mais dominamos os desejos e ensejos em torno da vida.

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.
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