De palavras e florescimentos

As palavras não existem para enfeitar e sim para dizer. Graciliano Ramos (1892-1953), jornalista, político e escritor brasileiro

Ao consultarmos um dicionário etimológico, podemos constatar que o termo “palavra” vem do latim “parabola”, significando “fala” ou “discurso” que, por sua vez, tem origem no grego arcaico “parabole”, cujo significado é “comparação”. Analisando a origem, grega ou latina, e decompondo o termo, temos “para”, que quer dizer “ao lado” e “ballein”, que podemos entender por “atirar ou jogar”. Deste modo, segundo a etimologia consultada, “palavra” pode ser entendida como um termo que tanto pode significar, como no linguajar comum acontece, um discurso (aquilo que se diz), quanto pode ser uma forma de estabelecermos uma comparação entre duas coisas ou fenômenos “jogados”, ou melhor definindo, dispostos próximos para efeitos, afinal, comparativos.

Palavras podem assumir o sentido original para a qual foram criadas (denotação) ou o sentido de sua recontextualização (conotação). Uma palavra pode ter, deste modo, duas origens, por assim dizer: uma literal, a primeira origem, quando a palavra é criada para designar fenômeno, pessoa ou objeto, material ou imaterial e outra, derivada, quando esta mesma palavra é empregada em uma metáfora ou como gíria, ou ainda, para simbolizar um código secreto, por exemplo. De todo modo, o sentido conotativo é não literal, se distanciando do contexto semântico original.

Nem todas as origens de uma palavra são aceitas sem contestação. A origem da palavra “raça”, por exemplo, não é consensual. Alguns pesquisadores atestam sua origem como vinda do latim “radix”, indicando a raiz de uma planta ou, derivadamente, a raiz de alguma coisa ou fenômeno, no sentido de ser aquilo que está na base de sustentação dessa coisa ou fenômeno. Outros estudiosos, por sua vez, atribuem significado diverso, como se “raça” viesse da palavra italiana (que por si só, seria uma derivação do Latim antigo) “razza”, que quer dizer “linhagem” ou mesmo “criação”. A despeito desta origem embrionária, contudo, a palavra raça também pode designar a força de alguém que se empenha para a realização de uma tarefa, como quando alguém diz, em relação a um jogador de futebol, que ele “joga com raça”.

Florescer é outra palavra interessante. A origem é latina e quer dizer “brotar, despontar”, como quando escrevemos “as margaridas florescem, prioritariamente, no verão e no outono” ou “o espírito da juventude e da alegria floresce na alvorada dos novos tempos”. Atenhamo-nos a esta segunda acepção, mais poética e metafórica. Ao dizermos que algo floresce na alvorada dos novos tempos, estamos a imaginar o despontar de fato ou fenômeno acalentador e que renova as esperanças de dias melhores ou, para mantermo-nos na metáfora natural, de levantes inspiradores. E aqui, ao me referir ao levante, por sua vez, tanto podemos entender o lugar do horizonte onde o Sol nasce, o Ponto Cardeal Leste (para frisar, o Sol não nasce “no” Leste, mas vindo da direção Leste, já que sua posição exata varia conforme as estações do ano e, mesmo durante elas, também há variação), quanto podemos estar a nos referir a um processo de levantar ações transformadoras de vida, ações que sejam realizadas com dedicação, com “raça”, por assim dizer.

Na bela frase de Graciliano Ramos, está expressa, para quem lê com a alma, mais do que com os olhos, um dos componentes da receita que deve ser prescrita para que consigamos produzir a cura ao paciente “humanidade”, que tem agoniado em sua luta insana pela autodestruição: uma comunicação mais carinhosa e mais eficiente entre nós – condição não suficiente para as transformações devidas, claro, porém necessária e sem a qual, elas simplesmente não acontecerão.

Comunicar não é apenas transmitir dados e informações, mas é também e, sobretudo, se fazer entender. Para um analfabeto, este artigo não trará informação alguma, senão pelo filtro de quem para ele se proponha a ler. O subjetivo e sua autoconstituição passam, e muito, pelas interpretações que fazemos em nosso dia a dia, seja sobre fatos narrados, seja sobre fatos lidos. Palavras não foram criadas para enfeitar estantes ou para serem usadas apenas para vituperação, como, parece, para muitos, ser a tônica do momento em que vivemos; palavras não existem para serem proferidas ao léu de modo a causar admiração, da parte de quem não as domina, em relação a quem delas consegue fazer boa serventia. Palavras são formas de expressão do que sentimos e pensamos e, por outro lado, elas igualmente nos constituem e geram quem somos e o que fazemos; fazem emergir nossas características, gostos, costumes, hábitos e ações, nossos valores, em uma palavra.

A comunicação humana, na política e na economia, duas áreas muito importantes, desde macro ações estruturantes, como a realização de políticas públicas universalizantes, tal como a institucionalização do Bolsa Família, até realizações mais comezinhas, como o simples ato de sair de casa para ir trabalhar, foi transformada, no mais das vezes, em um linguajar técnico que poucos dominam e/ou entendem. Deste modo, como consequência direta, escassos são, e cada vez menos, aqueles que conseguem, efetivamente, participar do debate que conduz os destinos de todos nós. E essa alienação não acontece por acaso, faz parte de um projeto muito bem urdido de exclusão da maioria do poder social.

Por outro lado, a comunicação humana, no tocante às relações humanas interpessoais, também não anda lá muito bem das pernas, como dizia vovó. As pessoas não estamos sabendo ouvir, nem ao outro, nem a nós mesmos e, portanto, não estamos conseguindo nos entender. Ouvir não é apenas escutar o que nos é dito e continuar a fazer aquilo que desejávamos, inicialmente; ouvir é refletir sobre o que foi dito (e/ou escrito), para negociar os acordos possíveis e desejáveis a cada situação de vida com as quais nos deparamos ao nos relacionarmos, uns com os outros, nunca esquecendo que somos diferentes. E enquanto não entendermos, realmente, que os outros não são um saco de batata largado à nossa frente, e que não são pessoas que só podem ter direitos se sentirem, pensarem e agirem como nós, o ciclo, ou melhor, a espiral comunicacional não seguirá em bons termos e modos. Os outros somos nós, só que diferentes; essa diversidade maravilhosa, criativa e promissora tem que ser respeitada, revalorizada e incentivada.

Parodiando o grande poeta brasileiro Vinícius de Moraes (1913-1980), a palavra faz a coisa e a coisa faz a palavra; os valores fazem o homem e o homem faz seus valores – e nossas ações, individuais e coletivas, são baseadas nesses valores, mais ou menos humanistas.

Os tempos em que vivemos, muito difíceis sob todos os aspectos, pedem atitudes diferentes das que temos tido. O mundo e a vida estão pedindo socorro e muitos ainda estão a fingir que nada acontece ou pior, que o que está acontecendo está sendo bom! Algo como uma pessoa olhar para uma parede branca e teimar que ela é verde e amarela Não obstante, o levante de novos tempos urge florescer! Um levante que não erga, apenas, uns poucos, mas todos nós! Sigamos, pois, Graciliano e digamos tudo o que há para ser dito, mas com muito carinho e respeito, com calma e de modo direto, porém educado e elegante. E realizemos as ações consequentes aos sentimentos e às falas. Intolerância, apenas contra a própria intolerância! Agressividade não leva a nada. Como dizia o profeta popular: gentileza, gera gentileza!

 

Carlos Fernando Galvão, Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br

 

 

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Carlos Fernando Galvão
Carlos Fernando Galvão é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 120 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil (atual colaboração), também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Além deste, o autor publicou outros 9 livros, textos acadêmicos e literários.

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