De Jasão à Medéia, passando por Midas, Édipo tornou-se Narciso – Parte IV

 

“Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária.”

Machado de Assis (1839-1909), escritor realista brasileiro – no conto “Um apólogo”

 

Dando um fecho tupiniquim às narrativas mitológicas helênicas, que tanto nos agradam, vemos, de modo mais direto, algumas das lições que podemos tirar ao analisarmos a quadra histórica em que vive o povo brasileiro. Neste ano de 2022, é de suma importância que não nos omitamos, que sintamos e que ajamos, pelo bem de nosso país e de nosso povo.

A sabedoria pré-filosófica clássica pode nos ajudar a entender, ao menos parcialmente, o que se passa no mundo e no Brasil de hoje. Procurei, ao longo das três partes anteriores deste artigo, estabelecer ligações entre as histórias narradas com o processo político em curso por aqui, neste país infelicitado pelo obscurantismo fascista, desde 2016 e, com mais força, desde 2018. Minha intenção foi a de, tal como na brincadeira de criança, ligar, com o lápis da mitologia grega antiga, alguns pontos para formar uma, de várias figuras sociais e políticas possíveis, que compõem ao menos parcelas deste mosaico caótico, cruel e surrealista em que transformamos o Brasil.

O título deste artigo, repetido em suas quatro partes, exprime algumas transformações que presenciamos no Brasil, nos últimos anos. Bolsonaro apresentou-se como o aventureiro Jasão, viajando pelos mares revoltos do que chamou, cinicamente, de velha política, como se dela não fosse um subproduto (descartável) do que há de pior nela. Esse Jasão tupiniquim prometeu para sua Medéia, aqui representada pelo povo brasileiro, um país melhor e, não obstante falou muito do que iria fazer (e está fazendo, ou seja, está destruindo este país), traiu a mulher (deve ter sido em um daqueles apartamentos funcionais em que ele disse que pagava com dinheiro público para, nas próprias palavras cínicas, “comer gente” e com que enganava, no mais das vezes, o ingênuo, ludibriado e beócio, povo brasileiro), enganando-a que não era corrupto, dentre outras promessas não cumpridas, como dizer que ia administrar o país para o bem geral e não apenas para dar vazão à sua guerrinha cultural tosca, autoritária, corrupta e assassina. Vamos ver quando, e não se, essa Medéia irá “trair” o voluntarioso Jasão nacional (uma parte, felizmente, já começou a fazer isso) o que, na prática, na verdade, significa a redenção nacional.

As reflexões provocadas por essas (e outras) histórias da antiguidade ainda guiam nossos sentimentos e comportamentos e deveriam nos servir de base para a renovação que tanto necessitamos, como mudar, radicalmente, a total falta de empatia pela vida alheia, expressa diariamente pela indiferença, de muitos, como a do reacionário insensível que, infelizmente, ainda preside este país, aos mais de 700 mil mortos nesta pandemia, só no Brasil, e já com mais de 8 milhões de mortos pelo mundo.

Como o Rei Midas, Jair “Jasão” Bolsonaro acha que tudo o que toca é ouro, embora saiba, no fundo (bem, talvez a psicopatia e o embotamento mental e emocional, reduzindo o pouco raciocínio e empatia que talvez tenha tido um dia, na vida, já o tenham consumido a tal ponto que é possível que, efetivamente, já não saiba mais disso), que sua política é genocida pela inação na saúde pública e que sua política de destruição ambiental, da educação, da credibilidade nacional perante o mundo etc. é deliberada e não fruto, apenas, de incompetência, embora também o seja. Esse Jair “Jasão” Bolsonaro, como Midas, transforma tudo o que toca; na verdade, vira pó (hummm…); tudo é aniquilado. Assim, Jair “Jasão” Bolsonaro, transformou-se em Jair “Narciso” Bolsonaro, ao apaixonar-se, inicialmente, por sua “mãe”, que o pariu simbolicamente, a Lava Jato, e, com ela tendo se casado, nomeou o já expelido juiz fascista, ilegalista e anti-democrático Sérgio Moro e se vendeu como restaurador da ordem universal no país, crente que seria um Zeus, opa, um Messias.

A Jocasta brasileira, a Lava Jato (a qual, diga-se de passagem, e admita-se, foi um bem sucedido golpe autoritário para minar o Estado de Direito por dentro, contribuindo para esfacelar nossas instituições democráticas, embora, felizmente, muitos brasileiros já estejam acordando para o fato), há um tempinho percebeu-se, também ela, traída, e está desesperada e vendo, na verdade, o Jasão Castrense transformar-se, como dito há pouco, em um Narciso de quinta categoria, assumindo sua paixão auto-referenciada. Uma paixão que não vem da Harmonia (equilíbrio entre extremos), simbolicamente, filha de Afrodite (ou Vênus), deusa do amor, e Ares (ou Marte), deus da guerra, embora tenha com este deus da guerra, no tocante à paixão pela morte (alheia), forte laço “parental”, mas de um céu sem estrelas, tal como em um desastre de proporções épicas.

Esse Narciso redivivo tenta, agora e a todo custo (nosso), se agarrar ao Rei Pélias, aqui representado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que tem nas mãos o Velocino de Ouro da proteção jurídica (com Supremo e com tudo, não é? Lembre-se! Não obstante venha havendo tentativas de redenção na Suprema Corte) e também pela Câmara Federal e pelo Senado, que em troca de moedas de ouro (verbas públicas, cargos, perdão de dívidas de banqueiros e latifundiários grileiros, títulos da dívida pública, cujo pagamento é garantido por lei, como mostra o orçamento secreto, ou seja, ilegal, corrupção pura com o dinheiro público, a maior corrupção já vista neste país, fim do sistema previdenciário, quebra da espinha dorsal do serviço público etc.), se propôs a proteger Jair “Narciso – Midas” Bolsonaro contra os recordistas 145 pedidos de impedimento, que o Presidente da Câmara dos Deputados, deliberamente “ignorou”, em nome sabe lá do que (na verdade, sabemos sim, não é?), em face dos muitos crimes já realizados, por Bolsonaro, como Presidente da República, que é o Velocino do legislativo, enquanto dele precisar para executar seu projeto de anti-nação não-democrática/ditatorial e injusta, com métodos castradores de dominação e alienação sociais.

A ordem, para os abonados de sempre, tem que ser mantida para que eles permaneçam sobejamente abonados. Mudanças drásticas? Apenas as que deixarem tudo como sempre foi! Aos “súditos”, cabe apenas, nesta visão reacionária e escravocrata que nos governa, obedecer e pagar a conta da festa, sem dela usufruir, senão com as migalhas que os donos do poder deixam cair da mesa, e sem reclamar.

Outros mitos, que não da Grécia Antiga, não obstante também os gregos o tenham assumido como seus, posteriormente, como o da Fênix, ave egípcia que renascia das próprias cinzas, podem ser associados a uma ideia antípoda do Narcisismo: a do renascer do próprio caos, ideia muito apropriada para o momento mundial e brasileiro. Males psíquicos e sociais como este Narcisismo podem nos levar a um estado lastimável de catatonia que é, na concepção médica original, uma perturbação de comportamento motor, cuja causa pode ser tanto psicológica quanto neurológica, mas que, individual e socialmente, é uma metáfora representativa da inação e da omissão conformista, assumida pela maioria egoísta, covarde e oportunista para promover mudanças drásticas que acabam deixando tudo como sempre foi. O fato é que ficamos paralisados perante o mundo e assim permaneceremos, tanto mais quanto maior for o Narcisismo a que nos permitirmos escravizar neste “mundo capitalista das celebridades a qualquer preço”. Não podemos mais permitir que esse sistema de vida nos conduza; não podemos mais deixar que a crueldade desumana nos aprisione. Temos que libertar nossas mentes nossos e corações dessa apoplexia (que é um derramamento de sangue cerebral, conhecido como AVC, que pode paralisar a pessoa ou mesmo deixá-la inválida) existencial e social. Urgente!

O Narcisismo é, assim, uma espécie de doença da psiquê humana. Psiquê, em grego antigo, significa “alma; ego” e, atualmente, ou, já de há muito, também é uma palavra usada para expressar ideias como “mente” e “espírito”. Psiquê também aparece, na mitologia, ora como amante de Eros, mais conhecido entre nós como “Cupido” (na versão latina), o Deus do Amor, ora como espécie de personificação da alma humana, um ser que é representado, por vezes, em forma de borboleta e que, tendo sido, anteriormente, uma lagarta, significa a crisálida que há, ou pode haver – que tem que haver, em todos e em cada um de nós.

A palavra “desastre” tem origem no italiano antigo, sucedâneo do Latim, “disastro”, que por sua vez vem do Grego antigo e, decomposta, apresenta o prefixo “dis” (que indica separação ou negação) e “aster” (estrela). Desastre é, pois, uma noite “sem astro” ou, em outro sentido, uma “estrela ruim”. Em uma acepção única, desastre pode ser um sinônimo possível para “desgraça”. Talvez por isso, o escritor irlandês Oscar Wilde (1884-1898) dizia que dois homens podem olhar da mesma janela; porém, um pode só conseguir ver a lama da rua, enquanto o outro consegue ver as estrelas no céu. A perspectiva do observador e sua intenção são fundamentais para ver belas estrelas ou desastres motivados por estrelas ruins, por assim as definir, como, metaforicamente, a lama, do homem que insiste em olhar para baixo, desprezando outras formas de olhar e outros lugares para onde apontar os olhos, da cara e da alma.

Precisamos de uma grande catarse nacional que nos tire da catatonia (que é uma síndrome comportamental caracterizada pela incapacidade de se mover normalmente, sendo uma forma de esquizofrenia que pode levar a momentos de calmaria e outros de muita excitação) cívica em que sempre vivemos e em que nos chafurdamos a mais não poder, com os esgotos humanos destampados em 2018!

Renasçamos, pois, como a Fênix! Renasça, Brasil, com o fim dos narcisismos e dos fascismos! Façamos brotar a nossa crisálida de cidadania, generosa e solidária, de um país não apenas belo e alegre, mas livre, fraterno e justo!

Lembremos do mestre Machado de Assis: não sirvamos de linha para agulhas ordinárias: costuremos novas redes de afeto, gentileza, honestidade, justiça e dignidade, que durem e que acolham toda nossa riquíssima e bela diversidade e que, deste modo, acolham todas as pessoas boas, de direita, de centro ou de esquerda, negras ou brancas, espiritualizadas ou não, ricas ou pobres, do gênero que for, deste país!

Viva a vida e sua diversidade! Flanemos em novos sonhos, realizando-os com afeto e dignidade para todos, sem exceção.

 

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana
cfgalvao@terra.com.br

 

 

 

 

 

Fontes:

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia – histórias de deuses e heróis. 34.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006

FERRY, Luc. A sabedoria dos mitos gregos. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2009

Carlos Fernando Galvão, Geógrafo e Pós Doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br

 

 

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Carlos Fernando Galvão é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 120 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil (atual colaboração), também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Além deste, o autor publicou outros 9 livros, textos acadêmicos e literários.

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