Crônica dos 100 dias em quarentena

Foto: Arquivo Pessoal da autora.

100 dias em casa.

No dia 100, a paranóia dos cuidados preventivos está absorvida pela rotina. A angústia está mais branda. No inicio, paralisava. Tanto tempo disponível e era difícil fazer tudo que sempre se quis ter tempo de fazer. Agora, a mente se organiza melhor. Adaptada à previsibilidade de acordar, viver o dia, voltar a dormir.

Até que uma saudade me fissure a carapaça. Dói, como se doesse há 100.000 dias, a distância dos amados. Dói, como os cortes nas pontas dos dedos incomodam mais do que o joelho ralado.

À noite, os trabalhos entregues, as louças lavadas, o silêncio é melancolia. Até quando os dias se repetirão? Até quando me faltarão os abraços que alimentam, os risos que atropelam as falas? Por quanto tempo durará o luto pelos que partem sem despedida? Para quem havia se esquecido do amor, terá passado definitivamente a chance de amar?

Faço arranjos artificiais. Mando mensagens. Uso “emoticons” na tentativa de, com as palavras, fazer seguirem reações, gargalhadas ou lágrimas. Falo pelo telefone, sem a proximidade que conforta. Tento através da câmera, pelo aplicativo. Toco a tela na despedida, mas é só a visão da mão, sem calor, sem que se possa sentir seu leve tremor ou adivinhar as solidões. Às duas da manhã, quem se pode chamar para uma conversa sobre nada?

Tudo para transpor a distância já não transpõe as saudades. Estamos verdadeiramente isolados.

Foto da autora.

No início, compartilhávamos da grande desordem mundial. Chorávamos por outros países enquanto chorávamos por nós. Agora, o resto do mundo arrisca um retorno. Ainda longe da naturalidade de comportamentos, mas há encontros, alegria nas ruas, movimento em direção ao futuro. Aqui, a sensação de isolamento permanece e se agrava: como se fôssemos deixados para trás, só nós nessa dor. Esquecidos pela mãe no pátio da escola no fim do dia escolar. A noite cai e pensamos que ela nunca virá nos buscar. Seu atraso fertiliza o nosso desespero. Como acharemos o caminho de volta ao lar?

Um grande fogo queima dentro de mim mas ninguém pára para se aquecer nele. E quem passa apenas vê um pouco de fumaça” (Vicent Van Gogh).

Como se realizarão meus sonhos se essas paredes o guardarem ainda mais demoradamente? Como estancarei meu amor se permanecer interditado? Como nos encontraremos no tal novo mundo se habitamos o velho e ele ainda não parou de afundar?

No centésimo dia, o sol na varanda estava fortíssimo. Tenho vindo ao encontro dele todas as tardes. Uma nova rotina da quarentena. Nos dias em que ele está mais forte, as copas das árvores brilham de tão verdes. Sobressaem diante de mim, como se não existissem o asfalto ou as fumaças dos carros. Só o sol, as folhas e os pássaros que, alienados da espera humana, cantam e pulam, como em todas as tardes de um dia qualquer.

Foto da autora

O mundo está nos esperando, penso. Com suas luzes e cantos. Com a vida. O mundo se mostra diante do nariz. Será que pensa como será se não puder contar conosco atravessando suas fronteiras, compartilhando suas imagens em câmeras de celular? Será que sua vaidade se ressente do nosso silêncio? Será que nos agradece ou nos desafia, deixando a natureza avançar contra os centros urbanos – ontem a recuamos, hoje somos nós os recuados.

O mundo nos espera, nos abriga, nos ensina. No silêncio do seu esplendor. Exibindo sua força para lembrar-nos da nossa força interior. Ofertando horizontes onde mergulharemos, em comunhão, nos rituais da volta. O mundo está lá e nos acena.

Por isso, sei: em breve, vamos voltar.

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Ana Lúcia se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo esgarçado pra sempre. Continua experimentando cursos em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 400 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não estão só nos livros mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Links: Contos, poemas, crônicas: anagosling.com Artigos, crônicas: http://obviousmag.org/puro_achismo Redes Sociais: Twitter: https://twitter.com/gosling_ana Facebook: https://www.facebook.com/analucia.gosling

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