ÀS QUARTAS – O túnel

 

 

Foto: Nathan Dumlao em Unsplash

Para Carlos, só na literatura cabia falar de um ponto no espaço e no tempo que abarcasse todas as realidades.

– Borges, né?

Até quando físicos, mesmo a NASA, começaram a falar da probabilidade de universos paralelos, Carlos riu-se.

– Borges, Hawking, ensaios, teorias… Literatura!

Carlos sabia do hoje, do momento real, do que a vista alcança, do que a mente pode explicar. Mas se reservava a curiosidade pelo mistério. Para ele, o inexplicável era um quebra-cabeças, ainda desmontado, mas nada extraordinário: as peças dispostas sobre a mesa, esperando a mente organizá-las.

Experimentou o chá do Daime quando saiu com Thais, que era da seita e pesquisava sobre a profundidade da alma. Embora ele achasse isso entediante, fingia interesse em troca das noites de amor e por ela ter um interesse real no bem estar dele. O chá não lhe revelou coisa alguma.

Praticou vivências psicoimersivas com Sandra, que sempre buscava o núcleo dos problemas, das dores, dos prazeres. Mesmo achando desnecessária a busca, adorava as discussões filosóficas durante o jantar, coroando seu interesse na companhia dela.

Até num vidente um amigo o levou, certa vez, para mostrar revelações entre os mundos físico e espiritual. Ele foi, curioso, e calou-se para que o amigo, viúvo, continuasse a acreditar que a esposa morta ainda seria capaz de amá-lo em nova existência. No fundo, duvidou de tudo. Hipóteses, crendice, alento para o desespero.

Mas as coisas acontecem de repente. Mexendo nas gavetas de casa, numa noite, Carlos achou a caixa da bebê. Maria, sua ex-mulher, tinha guardado algumas lembranças da filha deles, falecida ao 1º ano de idade: primeiras unhas cortadas, marca do pezinho no mata-borrão, primeira chupeta. A mãe abandonara a caixa numa gaveta do armário, antes de deixar o casamento que não sobreviveu às dores da perda. Compreendeu: a caixa de lembranças era um pequeno túmulo das alegrias vividas. Talvez Maria pensasse serem alegrias desperdiçadas.

Foto: Mon Petit Chou Photography em Unsplash

Carlos deixou a caixa sobre a cama enquanto pensava se deveria abrí-la. A memória da filha amada, a dor anestesiada pelas atividades do dia, era pungente ao cair da noite. Tomou banho, jantou sozinho, não se demorou na frente da TV, recolheu-se.

Sentado na cama, abriu a caixa. O cheiro de talco ainda ali, abrindo a memória dos dias em que a casa inteira cheirava a neném. Carlos mexeu nas idiotices colecionadas e sentiu uma grande ternura renascida no peito. Deitou-se, após chorar as lembranças felizes e rezou, lamentando não acreditar em rezar.

À entrada do quarto, um grande portal se abriu. Carlos achou que sonhava e levantou-se. O túnel se alargou ainda mais. Caminhou para dentro dele. Nas paredes etéreas, as fotos dos momentos em que o filha sorria sem dentes, a mulher iluminada pela maternidade. Antes, Maria era a menina que ele beijou no bar. Carlos, jovem, o rosto coberto de espinhas encolhido ao fundo da sala de aula, sonhando tocá-la. Passos à frente, estava sentado à mesa, na última noite em que jantou com seu pai. Na sequência de imagens, a mãe abrindo os braços amorosos para acolhê-lo, pequenino, na corrida de volta do mar, sentada na areia, sob a sombra da barraca que o pai tinha dificuldade em fixar. Deteve-se diante dos olhos grandes da mãe fixados nos seus e ele, aninhado na manta, no seu colo, via girarem, sobre sua cabeça, as estrelas de pano sob o som da canção de ninar.

Foto: Leandro Ruiz em Unsplash.com

Carlos se encolheu, numa pose fetal, cercado pela rede de memórias. Não era passado, tudo estava ali: os sons, as risadas, até o cheiro das pessoas o cercavam. Podia sentí-las. Ficou preso ali, sem dar mais um passo, com medo de afastar-se daquelas paredes fluidas.

Seis horas. Amanhecera. Carlos permanecia deitado no chão, até a faxineira chegar mais tarde e sacudí-lo. Tentou levantá-lo, fazer-se ouvir. Nada. Nos seus olhos, viu: ele não estava ali. Jamais se imaginaria em que memória ele tinha escolhido morar.

 

 

ANA LÚCIA GOSLING

Ana Lucia Gosling (@analugosling)

 

 

 

 

 

 

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Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, aqui no ArteCult, há texto novo da autora. Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

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