Jessé Andarilho: Autor de Fiel e Efetivo variável, conversa com a gente no primeiro AC Encontros Literários do ano

Jessé Andarilho tem uma trajetória de vida (literária também) singular. Segundo informações contidas no blog da Companhia das Letras, o autor nasceu e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, ele mesmo trabalhou em diversas atividades. Aos 24 anos de idade, leu o primeiro livro. No trajeto de aproximadamente 3 horas que fazia de trem de sua casa para o trabalho, começou a usar o bloco de notas do celular para escrever. Atuou como redator da novela teen Malhação (TV Globo) e como diretor de reportagem do programa Aglomerado (TV Brasil). Foi ainda produtor da Cufa (Central Única das Favelas) e fundador do C.R.I.A. (Centro Revolucionário de Inovação e Arte) e do Marginow, que pretendem dar visibilidade a artistas de periferia. Atualmente, fazendo jus ao ¨sobrenome¨, Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, nas quais relata como sua vida foi transformada pela Literatura.
ArteCult: Como a Literatura entrou na sua vida?
Jessé Andarilho: Uma amiga chamada Michele disse que tinha um livro que eu precisava ler, porque era a minha cara. O livro era o No coração do Comando (Julio Ludemir). Pensei comigo  “se tem a minha cara, deve ser bom”. Depois desse livro, comecei a gostar da literatura.
AC: Com relação ao ofício de escrever, que procedimentos você costuma adotar? Escreve todos os dias? Reescreve muito? Mostra para alguém durante o processo?
JA: Não tenho a disciplina de escrever todos os dias. Reescrevo mais do que escrevo, mas nunca desisto de um texto. Pego partes dos textos e mando para algumas pessoas que tenham a ver com o que estou escrevendo, isso ajuda muito pra eu não dar mole nos papos.
AC: No seu caso, de onde vem a inspiração?
JA: Gosto de escrever sobre personagens que imagino que outras pessoas não vão escrever pela perspectiva deles. Tipo aqueles caras do filme Rambo, que tomam apenas um tiro e morrem, ou aqueles ninjas, que tomam apenas um chute e caem de cima das escadas. É essa galera que me inspira.

Jessé Andarilho já atuou como roteirista de Malhação (TV Globo). Foto: Reprodução internet.

AC: O fantasma da página em branco: mito ou realidade? Isso acontece com você?

JA: Gosto de cumprir com os prazos. Se a página está em branco, jogo um montão de palavras nela e vamos que vamos!
AC: Fale um pouco dos livros que publicou até hoje.
JA: Meu primeiro romance se chama Fiel (ed. Objetiva). Ele me abriu as portas para o mercado e para o universo por trás dos livros. Depois, lancei o Efetivo variável (ed. Alfaguara). E ano passado publiquei 3 livros infantis pelo Itaú no projeto Leia Para uma Criança.

Efetivo variável, de Jessé Andarilho, foi lançado em 2017. Foto: Reprodução internet.

AC: Algum escritor o influenciou de modo particular? Por que acha que o contato com ele foi importante?

JA: O Julio Ludemir me influenciou a gostar de ler livros, e o Marcos Lopes (Zona de guerra) me inspirou a começar a escrever meus próprios livros.
AC: Um livro marcante. Por quê?
JA: Fiel, porque mudou a minha vida e a vida de um montão de pessoas.
AC: Como você se relaciona com seu público?
JA: Me relaciono da melhor maneira possível. Estou nos eventos literários, faço palestras em escolas e montei uma biblioteca comunitária na favela onde nasci.

Fiel, de Jessé Andarilho, foi lançado em 2014. Foto: Reprodução internet.

AC: Que tipo de pessoa você se tornou a partir do seu contato com a Literatura? Essa convivência modificou você de alguma maneira?

JA: Sou a mesma pessoa, mas agora tenho uma profissão que é respeitada em todos os lugares aonde vou.
AC: A que projetos você se dedica atualmente? O que vem por aí nos próximos meses?
JA: Em 2022, vou lançar um romance chamado Esquema pelo grupo Companhia das Letras. Ultimamente, tenho me dedicado bastante à Biblioteca Marginow. O bagulho é doido, eu achava que montar uma biblioteca era só colocar os livros organizados nas estantes e pronto. Me fodi. Agora,  a minha vida virou uma loucura pra manter o espaço em funcionamento. Mas cada esforço vale a pena pra dar o acesso aos livros às crianças da favela onde eu nasci.
Bem, é isso. Até a próxima.

César Manzolillo

 

 

 

 

ATENÇÃO: Confira a live realizada em 17/01/22 com o escritor :

 

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AC Encontros Literários

AC Encontros Literários tem curadoria e apresentação (live) de César Manzolillo (@cesarmanzolillo).

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de vinte e quatro antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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