Braulio Tavares: O escritor paraibano, multifacetado e talentoso, é o convidado da vez do AC Encontros Literários

O escritor Braulio Tavares. Foto: Maria Flor Brazil.

Nós, do canal Literatura do portal ArteCult, gostamos de escritores. Admiramos o trabalho daqueles que, com afinco e engenho, se dedicam à nobre arte de escrever. Tudo se torna ainda melhor quando o autor em questão é contista, compositor, poeta, tradutor, ensaísta, dramaturgo e pesquisador de literatura fantástica, por exemplo. Temos certeza de que você vai gostar de conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra de Braulio Tavares.

O escritor Braulio Tavares. Foto: Maria Flor Brazil.

ArteCult: Como a Literatura entrou na sua vida?

Braulio Tavares: Minha ascendência em linha paterna é toda de jornalistas e poetas: meu avô Braulio (de Maceió), meu pai Nilo e meus tios Cláudio, Nabuco e Stélio Tavares (todos do Recife). Minha avó Clotilde, em cuja casa no Recife eu passava minhas férias, me aplicou Agatha Christie, Charlie Chan e Edgar Wallace. Já pelo lado materno, minha mãe cantava folhetos de cordel para nós na infância, gostava muito de música, tinha boa voz, e dela eu assimilei esse gosto por tudo que é popular, musical, etc.

 

AC: Entre outras atividades, você é contista, compositor, poeta, tradutor, ensaísta, dramaturgo e pesquisador de literatura fantástica. Como se divide entre tantas atividades?

BT: Veja só. Para mim, é uma atividade só: a escrita. Tudo consiste em criar textos, produzir e organizar textos. Só seriam muitas atividades se eu fosse ao mesmo tempo romancista, cirurgião, boxeador, piloto comercial e garçom, por exemplo.

 

 

A antologia Detetives do sobrenatural foi organizada por Braulio Tavares. Foto: Divulgação.

ArteCult: Você nasceu em Campina Grande, mas há muito tempo vive no Rio de Janeiro. O que do seu estado natal ainda existe dentro de você?

BT: Tudo, porque eu tenho uma certa facilidade para absorver experiências de forma duradoura. Meus anos de infância são muito presentes na minha memória afetiva, emocional, literária, etc. Programas de rádio na infância, peladas de futebol na adolescência, o colégio, os dois anos que morei em Belo Horizonte, os quatro anos que morei em Salvador, minhas primeiras experiências com teatro, com música… Todas essas memórias constituem para mim um “eterno presente”, como diz a canção de Geraldo Azevedo. Gosto ainda hoje de reler as poesias e os livrinhos de ficção científica que lia aos 15 anos. Tudo continua vivo. Além disso, boa parte do meu trabalho é voltada para a literatura de cordel, a cantoria de viola e outras expressões poéticas do Nordeste e da Paraíba. Há um diálogo permanente. Em 2022, completarei quarenta anos morando no Rio de Janeiro; já é a cidade em que vivi por mais tempo, mas estas vivências mais recentes e mais maduras não apagaram as outras.

 

AC: Fale do trabalho que tem realizado como organizador de antologias de literatura fantástica.

BT: O prazer de ler é acompanhado pelo prazer de compartilhar leituras. Há contos obscuros que li aos 10 anos e me impressionaram, influíram na minha criação literária. Aos 60 anos, reeditei alguns desses contos nas minhas antologias. É uma retribuição, um agradecimento; e uma forma de dar uma sobrevida a essas histórias que admiro. O trabalho do antologista é a criação de um conceito, e a seleção de histórias que ilustrem e aprofundem esse conceito. Em Contos fantásticos no labirinto de Borges (Casa da Palavra), coloquei contos que Jorge Luís Borges afirmava ter gostado, ou que tinham influenciado sua obra, além de contos que ilustravam, de modo muito próximo, os temas que lhe eram caros. Em Detetives do sobrenatural (Casa da Palavra), busquei contos que misturam os elementos do conto detetivesco tipo Sherlock Holmes e do conto de terror tipo Lovecraft, para mostrar que os gêneros literários são fluidos, são líquidos, misturam-se com facilidade. Toda antologia implica na reunião e justaposição de algumas histórias óbvias e de outras inesperadas, que servem para enriquecê-las.

 

A antologia Contos fantásticos no labirinto de Borges foi organizada por Braulio Tavares. Foto: Divulgação.

AC: Você é responsável pelo blog Mundo fantasmo. O que o leitor encontra por lá?

BT: Posto em média 10 vezes por mês, artigos de 7 a 8 mil caracteres. Escrevo sobre cinema, música popular, literatura em geral (inclusive poesia, ficção científica, tradução, etc.), assuntos da atualidade… No momento em que redijo estas respostas, os artigos mais recentes falam dos autores de ficção científica que aparecem na capa do Sgt. Pepper’s dos Beatles; da influência da mescalina na literatura de Jean-Paul Sartre; dos videogames como o cinema do século 21; da série Fundação na TV; das leituras de Jorge Luís Borges; e assim por diante. Está tudo em <mundofantasmo.blogspot.com>. O blog surgiu para abrigar minhas colunas diárias no Jornal da Paraíba (hoje fora de circulação), onde escrevi de 2003 a 2016. Atualmente, reúne cerca de 4.700 artigos. No começo do ano que vem, deve atingir a marca de 2 milhões de acessos. Estou estudando uma maneira de transformá-lo num trabalho patrocinado, talvez criando uma versão em vídeo no YouTube.

 

AC: Fale de sua relação com a literatura de cordel. Acha que o gênero é suficientemente reconhecido no Brasil?

BT: Isto tem melhorado muito nas últimas décadas. São numerosas as “cordeltecas” pelo Brasil, mantidas principalmente por instituições universitárias. Cresce a cada ano o número de teses e dissertações estudando essa literatura. Do ponto de vista comercial, o computador, a impressão a laser e depois a internet vieram facilitar a produção dos folhetos. E poetas jovens e talentosos não param de aparecer – principalmente mulheres. Nos tempos mais recentes, elas estão muito ativas nessa área, que tradicionalmente era um universo masculino. Acabei de gravar uma série que deverá ser exibida no canal CineBrasilTV, No País da Poesia Popular, escrita e apresentada por mim, e dirigida por José Araripe, para a produtora Truque, de Salvador. Estamos num ótimo momento da literatura de cordel.

 

AC: Sei que você também publicou obras dedicadas ao público infantil e juvenil. Como se relaciona com esses leitores?

BT: Meus livros nessa área são bem recebidos, o que não deixa de me surpreender um pouco, porque não foram escritos pensando no público infantil: são cordéis de aventura, um deles adaptando a lenda do flautista de Hamelin.  Não existe “cordel infantil”. As histórias de princesas e dragões, no cordel, são lidas por todos, interessam a todos. E foi para todos que escrevi. Por outro lado, meu livro que ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura Infantil, A invenção do mundo pelo Deus-Curumim (Ed. 34, SP) foi escrito inicialmente como roteiro para um espetáculo de balé, que acabou não sendo produzido. Só depois tive a ideia de publicá-lo em livro e contei com um maravilhoso trabalho gráfico de Fernando Vilela. De qualquer modo, gosto muito de falar para a garotada, principalmente quando eles já conhecem os livros, porque eles perguntam sobre tudo e mais um pouco, têm olhares sempre surpreendentes.

 

A invenção do mundo pelo Deus-curumim, de Braulio Tavares. Foto: Divulgação.

AC: No último dia 29 de outubro, o ArteCult realizou uma bonita campanha alusiva ao Dia Nacional do Livro. Recomendo a quem ainda não viu que procure essa postagem em nosso site. Poderia citar três títulos de Literatura Brasileira que, na sua opinião, todos deveríamos ler?

BT: Não vou falar dos “clássicos obrigatórios”, porque isso acaba trazendo de volta um repertório inevitável. Prefiro lembrar alguns livros que foram (e são) preciosos para mim e que talvez nem todo mundo conheça. Não esqueço o impacto que senti ao conhecer os romances de José Agrippino de Paula: Lugar público (1965) e Panamérica (1967). Não sei se são romances, porque de fato são colagens de episódios meio absurdistas, com personagens famosos da História ou da Cultura Pop (ou pelo menos os nomes deles), envolvidos em situações bizarras, angustiantes. Uma autora pouco conhecida é Lília Pereira da Silva, paulista de Itapira, que publicou vários romances e volumes de contos. De um deles, Monstros e gênios (1965) extraí um conto para minha antologia Páginas de sombra – contos fantásticos brasileiros (2003). São contos curtos, sombrios, numa ambientação de Ciência Gótica rara em nossa literatura. Outro talento peculiar é o de Campos de Carvalho, autor de romances irreverentes, alucinatórios, e que chegou a ser colaborador do Pasquim. Maria Amélia Mello reeditou na Ed. José Olympio, num só volume, seus quatro romances essenciais: A lua vem da Ásia (1956), Vaca de nariz sutil (1961), A chuva imóvel (1963) e O púcaro búlgaro (1964).

 

AC: Em que projetos você está trabalhando atualmente? O que vem por aí nos próximos meses? 

BT: Trabalho em trinta coisas ao mesmo tempo, mas projetos bem adiantados, ou quase prontos, tem alguns. Tenho uma coletânea de artigos sobre cultura popular e cordel, A fonte dos relâmpagos, a sair pela Editora Arribaçã, uma editora recentemente criada por Linaldo Guedes e Lenilson Oliveira em Sousa, uma importante cidade do alto sertão paraibano. No Recife, deve sair em breve pela CEPE (Companhia Editora de Pernambuco), Na torre da lua cheia, um romance fantástico em versos, ilustrado pelo meu velho parceiro Cavani Rosas. Pela Editora Bandeirola (SP), deve sair uma coletânea, ainda sem título, de meus ensaios teóricos e críticos sobre ficção científica e literatura fantástica, textos dos últimos 40 anos, que estavam dispersos por fanzines, revistas, jornais, etc. E a editora da Universidade Estadual da Paraíba pretende relançar, em volume único, meus dois primeiros livros de poesia: Balada do andarilho Ramón e outros textos (1980) e Sai do meio, que lá vem o filósofo (1982).

 

AC: Entre os seguidores do canal de Literatura do Portal ArteCult, muitos são aqueles que escrevem ou que desejam escrever. Que conselho ou dica você poderia dar a eles?

BT: Primeiro, que leia muito, e não leia apenas na área onde pretende escrever. Amplie seus horizontes. Se quer ser romancista, leia romances, mas não só eles: leia muita poesia. Se quer ser poeta, leia poesia, mas leia também a prosa de ficção. E assim por diante.

 

Até a próxima!

César Manzolillo – Colunista do canal LITERATURA

 

 

 

 

 

 

 

Atenção : veja a Live com o autor em 23/11 às 19h

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César Manzolillo
Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de vinte e quatro antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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