Leona traz fogo ao teatro, como uma pira, ela nos queima

Leona Cavalli em Elogio da Loucura. Foto: Annelize Tozetto.

 

“Todos se empenham até em dedicar-me veneração; todos; há séculos, gozam de minhas benesses. Mas nunca houve um só que testemunhasse o seu reconhecimento celebrando em público a Loucura”. (texto)

 

O receio de falar sobre uma atriz que tem deixado sua plateia em estado de fascínio no teatro do CCBB é grande. Mas, como sou um tanto louca, seguirei com as palavras.

“Elogio a Loucura” tem feito efeito em todos nós. Sabe por quê? Porque somos todos um pouco loucos. A loucura não precisa ser uma deusa para ser cultuada; ela já é vivenciada por cada um de nós. Afinal, é impossível atravessar a vida sem cometer algum ato insano. A verdadeira loucura talvez seja acreditar no contrário.

E então surge Leona em cena. Ela chega ao palco encarnando a própria Loucura, filha de Plutão, figura sobre a qual eu pouco sabia. Demorei a acreditar no que via. A personagem estava diante de mim, viva, pulsante, e eu me perguntava: como?

Um texto escrito em 1508 chega às mãos de Leona, e ela, muito loucamente, resolve vestir uma capa e seguir o caminho percorrido por seu autor séculos atrás. Com toda a sensatez que lhe restava, compreendeu que a grande aventura era justamente essa. A atriz, que saiu de uma pequena cidade do Rio Grande do Sul para estrear no Teatro Oficina, já considerava essa trajetória uma loucura. E talvez por isso mesmo este espetáculo tivesse de ser vivido por ela. É quase uma celebração com Baco ou Dionísio, como preferirem chamar, o deus do vinho e do teatro, da ousadia de fazer teatro no Brasil.

A loucura é viciante. Não se trata de viver permanentemente às margens da razão, mas de reconhecer que a vida, por si só, já é uma grande loucura. Veja o casamento: entre bilhões de pessoas no mundo, escolhemos uma para dividir os dias, as noites, os sonhos e os fracassos até o fim da vida. Isso não é uma forma de loucura?

“O que propaga a raça humana, é um ato, com aquelas outras partes, tão loucas, meios estranhas, que nem se pode visualizá-las sem provocar uma certa inquietação. E alguns, chegam a loucura de blasfemar esse ato em foram gerados como pecado”. (Texto)

O texto provoca reflexões profundas. Em muitos momentos eu me vi completamente desnorteada diante de uma dramaturgia afiada e provocadora. O sexo, por exemplo: amamos, nos entregamos, geramos vidas, somos fruto do encontro entre duas pessoas, mas ainda assim tantas vezes o desejo é tratado como pecado. A loucura de Leona é tão sensata quanto as ousadias intelectuais de Einstein. É aquela inteligência que nos obriga a questionar os julgamentos que fazemos o tempo todo.

“Eu acho que o que me impactou em relação ao espetáculo que assistimos ontem é o fato da ousadia e da loucura de tornar um texto, um texto filosófico, escrito no século XVI, transformar isso em matéria teatral. Isso é loucura. Conseguir atualizar e mudar a linguagem, a transformação.”

Palavras da Cláudia Marques, professora de literatura dramática da Escola de Teatro Martins Pena, qual tive a honra de conhecer no teatro no dia que fui assistir a peça.

Fiquei especialmente tocada pela maneira como o espetáculo aborda o amor. A loucura do amor. O esvaziar-se para oferecer tudo ao outro. Quem nunca?

Os jurados deveriam correr para assistir a esta montagem, não apenas para indicá-la, mas para compreender a preciosidade que temos em cartaz. O sucesso de público e crítica já revela o nível artístico de Leona e de toda a equipe envolvida.

A música ao vivo merece destaque. Há momentos em que as notas parecem conduzir a uma celebração dos deuses africanos, detalhe, é isso mesmo. A trilha sonora envolve o público de maneira quase hipnótica. Os músicos, entre eles César Lira e Daniel, somados à direção musical, constroem uma sofisticação que ainda tento decifrar.

E o figurino? Uma mistura improvável de referências que, surpreendentemente, encontram harmonia. Sobriedade e extravagância, riqueza e submundo, ecos históricos e elementos contemporâneos convivem em cena. É uma verdadeira loucura estética. Uma capa, em especial, permanecerá na minha memória por muito tempo.

O cenário também merece elogios. Há força, simbolismo e história em cada escolha visual. O espaço cênico nos conduz a lugares de imaginação e reflexão, ampliando ainda mais a potência do texto. O trono me levou a filmes épicos e também contemporâneos de deuses e deusas, reis e rainha da terra média, tudo bruto e sedutor. Muitos pontos!

“Afinal de que adiantaria empanturrar o estômago com iguarias abundantes, se os olhos, os ouvidos e a alma toda não se nutrissem também de risadas e palavras alegres?” (texto)

Um dos momentos mais marcantes acontece quando a personagem fala sobre a importância das pessoas consideradas loucas. Ao comentar como elas alegram os ambientes e movimentam os corações, a peça nos faz refletir sobre o quanto a diferença é necessária. É uma provocação divertida, mas também profundamente humana.

“Se verdadeira ou simulada, vier a faltar a loucura de um maluco, logo se providencia a vinda de um bobo pago ou convidado parasita e engraçado que, com suas tiradas loucas, consiga expulsar da mesa o aborrecimento.”

Vi muito do cotidiano na encenação.

Vi a loucura infantil. Lembrei-me de quando minha sobrinha encontrou um cabelo no prato de biscoitos, retirou-o e, logo depois, colocou-o de volta na cabeça, como se nada tivesse acontecido. Pequenos gestos absurdos e encantadores que só a infância é capaz de produzir. O texto tem razão: existe uma preciosidade nessa loucura.

E o rompimento da quarta parede? Leona conduz a plateia com maestria. Ela nos lembra que, às vezes, dizer um belo “foda-se” é necessário para aliviar o peso da existência. Não por acaso, livros inteiros foram escritos sobre a arte de desapegar do que nos oprime.

A construção visual do espetáculo também merece atenção. A paleta de cores jamais conduz a personagem para um lugar sombrio ou perverso. Pelo contrário: ela nos recorda que existem muitas formas de loucura, e nem todas causam dano. É justamente essa loucura leve, humana e cotidiana que o espetáculo celebra.

Ao final, fica uma pergunta: como uma atriz da estatura de Leona consegue crescer ainda mais no palco? Mesmo sem os recursos que ampliam a presença física de uma personagem, ela pareceria imensa. É assim que a Loucura se manifesta através dela: grandiosa, irresistível e profundamente humana.

O espetáculo é inteligente e nada óbvio. Como disse meu amigo e companheiro de críticas, Gilberto Bartholo: isso é teatro de verdade.

“Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social. Que tudo isso seja lembrado quando tentarem conversar sem dicionário com esses loucos sobre os quais, reconheçam, os senhores só têm a superioridade da força. Exigimos que sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade”. Antonin Artaud

E assim segue as artes cênicas que descobre através das pesquisas que “mitos” protegidos por parte da sociedade fazem parte dessa loucura toda desde 1508…

Que loucura boa, inteligente e despudorada da Leona, que peça meus caros, assistam, porque essa montagem é doida demais. Ela quebra todas as paredes, se joga para a gente como esses roqueiros, se joga de alma e nós a acolhemos, porque a loucura precisa ser bem vinda, seja no teatro ou na vida!

Ah! Nessa loucura que nós mulheres estamos tão acostumadas, onde nos colocam como loucas, percebi o cuidado do diretor Paulo Paixão, o respeito a atriz, assim como as parabenizações e indicações ao diretor Eduardo Figueiredo que não peca, pela própria atriz.

Ficha técnica

‘Elogio da Loucura’
Da obra de Erasmo de Rotterdam
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Dramaturgia: Leona Cavalli e Eduardo Figueiredo
Direção: Eduardo Figueiredo
Assistente de direção: Alex Bartelli
Elenco: Leona Cavalli
Músicos: Daniel Líbano (Violoncelo
Dani Dobbin (Percussão)
Voz em off: Antonio Petrin
Figurinos: Kelly Siqueira e Mariana Baffa
Cenário e Adereços: Paula Mares e Kelly Siqueira
Visagismo: Eduardo Figueiredo
Maquiagem: Thiago Baréa
Perucas: Wellington Fontenele
Light designer: Gabriele Souza
Fotos de divulgação: Henrique Butcher
Ambientação fotos de divulgação: Ricardo Ishihama
Projeto de vídeo e projeções: Jonas Golfeto
Direção musical e trilha original: Guga Stroeter
Preparação corporal e movimento cênico: Roberto Alencar
Produção executiva: Paulo Travassos
Assistente de produção: Renan Correia
Administração: Paulo Paixão
Financeiro: Thaiss Vasconcelos
Leis de Incentivo: Renata Vieira
Realização e produção: Manhas & Manias Projetos Culturais
Realização: Governo do Brasil e CCBB

Serviço
‘Elogio da Loucura’
28 de maio a 28 de junho de 2026
Quinta a sábado, 19h | Domingo, 18h
Classificação indicativa: 16 anos
Gênero: Tragicomédia
Duração: 80 minutos
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada) à venda na bilheteria ou pelo site bb.com.br/cultura

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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