SAUDADE DE UM VAMPIRO “RAIZ”

SAUDADE DE UM VAMPIRO “RAIZ”

 

Por Jorge Ventura

 

 

O vampiro da minha geração era alto, magro, esguio e elegante. Tinha os olhos negros, às vezes, vermelhos e um olhar arrebatador. Tinha o porte altivo de um senhor de posses (ou seriam de presas?) e o charme dos antigos galanteadores da realeza medieval.  

Porém, houve antes, nas telas do cinema, o vampiro de Bela Lugosi e o de Max Schreck (o careca feioso Nosferatu), mas nada era comparado ao Conde Drácula mais emblemático dos filmes cult, dos anos 1950, 60 e 70, produzidos pela Hammer Film Productions: o Drácula interpretado por Christhopher Lee.

O ator britânico que encarnou, ao longo de sua carreira, vilões célebres no cinema, como Scaramanga (em 007 contra o Homem da Pistola de Ouro, 1974), Saruman (na saga de O Senhor dos Anéis, 2001-2003) e Conde Dookan (na saga Guerra nas Estrelas – Episódio II: O Ataque dos Clones, 2002, – Episódio III: A Vingança dos Sith, 2005, e A Guerra dos Clones, 2008, no qual participa apenas com a voz), era também cantor, dublador, narrador, escritor e até editor-fantasma. Ele gravou diversos álbuns e, já com a idade avançada, EPs de Heavy Metal, aos quais emprestou sua forte e dominante voz – lamentavelmente, só bem aproveitada no personagem Drácula, após as duas primeiras aventuras vampirescas da Hammer. 

Chistopher Lee como o Conde Drácula

O lendário Chistopher Lee, além de dublar jogos eletrônicos, narrou diversos audiolivros, em sua maioria, contos policiais e grandes obras de terror, suspense, fantasia e ficção, como O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, Frankenstein, de Mary Shelley, e histórias de Sir Arthur Conan Doyle.  

Uma curiosidade: Lee era meio-primo do escritor Ian Fleming, criador do agente secreto James Bond, e, por pouco, foi chamado para ser o protagonista na versão cinematográfica. Outra curiosidade: Lee recebeu da Coroa do Reino Unido o título de Sir por ter servido na Força Aérea Real Britânica (RAF) e na inteligência militar.  

Apesar de Chistopher Lee ter interpretado “a criatura” em A Maldição de Frankenstein (1957), sua carreira ganhou consistência após o filme Horror de Drácula (ou O Vampiro da Noite), produzido pelos estúdios da Hammer e dirigido por Terence Fischer. Podemos dizer que, sob a batuta do talentoso cineasta, o gênero “terror” – que tinha como intérpretes famosos Boris Karloff, Lon Chaney Jr., John Carradine e Vincent Price – foi revitalizado nessa época, consolidando o nome de Lee e também o de Peter Cushing (imortalizado como Van Helsing, o caçador de vampiros).

Cushing, ao lado de Lee, compôs uma dupla emblemática que estrelou diversos filmes de causar calafrios ao público espectador. É outro ator britânico, premiado e renomado, de cinema, teatro e televisão. Sua trajetória artística durou mais de seis décadas, assim como durou a carreira do seu parceiro de trabalho. O diretor Terence Fischer transformou os dois em verdadeiros ícones. Todo filme de terror dirigido por Fischer, realizado pela Hammer Film Productions, era sinal de sucesso de crítica e de bilheteria. O interessante é que, mesmo com a química existente no primeiro no filme, Horror de Drácula (O Vampiro da Noite, 1958), Lee e Cushing só voltariam a contracenar, nos papéis de Drácula e Van Helsing, anos mais tarde. Contudo, atuaram juntos em clássicos como A Maldição de Frankenstein (1957), A Múmia (1959), A casa que pingava sangue (1971) e Expresso do Horror (1972). 

A Hammer Film Productions, que imperou no período de 1955 a 1979, ao produzir o ciclo de filmes de terror, contou com uma equipe de profissionais de primeira grandeza. Destaco o talento magistral das trilhas sonoras compostas por James Bernard e orquestradas por John Hollingsworth. Tanto o tema de abertura quanto as trilhas incidentais eram de arrepiar a alma! Para quem não sabe, muitos atores consagrados começaram a carreira fazendo pequenos papéis em filmes desse gênero, como o premiadíssimo Jack Nicholson e Michael Gough (conhecido como o mordomo Alfred, da franquia Warner, em Batman – O filme (com Michael Keaton e direção de Tim Burton, em 1989), Batman – O retorno (com Michael Keaton, novamente sob a direção de Tim Burton), e Batman Eternamente (com Val Kilmer e Chis O´Donnell, dirigido por Joel Schumacher).

É claro que, para os dias de hoje, esses filmes poderiam ser vistos como um show caricatural do terror. Não faltavam cenários de castelos mal-assombrados, com gárgulas esculturais e salões iluminados por velas em candelabros, cenas de sangue escorrendo das vítimas, de padres orando, de perseguições de caça-vampiros, de morcegos e corujas voando sobre as matas fechadas, de carruagens ou charretes levando caixões, de cocheiros corcundas, de passagens subterrâneas e tumbas semiabertas, de janelas abertas pela força do vento, de relampados e estampidos de trovões, além de, obviamente, cenas antológicas do vampiro seduzindo belas e sensuais mulheres, vestidas apenas de camisolas com decotes acentuados. E para completar: closes em olhos apavorados, dentes com presas à mostra, gritos guturais e crucifixos reluzentes. Tudo isso compunha a receita exitosa desses clássicos, como o já mencionado O Vampiro da Noite (1958), Drácula, o Príncipe das Trevas (1966), Drácula, o Perfil do Diabo (1968), O sangue de Drácula (1970) e O Conde Drácula (1970).

O Drácula com as feições do sedutor Chistopher Lee ganhou sátiras e adaptações para outras mídias, como quadrinhos, anúncios de revistas e comerciais de TV. Mas, passada a era de ouro do terror, outras versões do vampiro Drácula e de Nosferatu chegaram às telonas e, de quando em quando, surge uma aventura nova com vampiros mais modernos. Em alguns casos, produções com alto investimento. A nova geração, que curte um vampirinho bom moço, jovem e galã, com topetinho e cabelo bem engomado, que anda normalmente pela manhã e que, de repente, por ciúmes, se transforma em uma fera raivosa sob efeito digital, talvez não gostasse dos filmes cults da Hammer. Prefiro pensar que cada fã tem o vampiro da sua preferência, seja na literatura, nas séries ou no cinema. Eu tenho saudade de um vampiro “raiz”. 

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

BONUS:

Condira alguns trechos dos filmes com Christopher Lee na pele do maior vampiro de todos os tempos…

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

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