BILICA CHORONA, A PEÇA: Um espetáculo sobre infância, vínculos e empatia. Confira nossa entrevista com o elenco!

“Bilica Chorona, a peça” estreia no dia 9 de maio no Sesc Tijuca, no Rio, com direção do premiado Isaac Bernat e dramaturgia da também premiada Marcia Zanelatto, dois nomes de peso do teatro brasileiro.

 

Inspirado no livro de Isabelle Borges, o espetáculo infanto juvenil reúne uma equipe brilhante com nomes como a grande diretora de produção Fernanda Pascoal que tem um histórico de produções incríveis e acaba de receber o prêmio CBTIJ, Aurélio de Simoni, iluminador multipremiado que em 2026 completa 50 anos de carreira, a professora, arquiteta e cenógrafa premiada Doris Rollemberg, a célebre atriz e cantora Soraya Ravenle na preparação vocal e direção de movimento e a figurinista que já virou uma referência na área, Margo Margot. Em conjunto, eles dão forma a este espetáculo que propõe um olhar sensível sobre a infância, abordando com talento, criatividade e uma narrativa encantadora a importância da expressão das emoções, de vínculos familiares saudáveis, além do papel da empatia e da imaginação no amadurecimento.

Fotos: Dalton Valério

 

No palco, o elenco reúne diferentes gerações e trajetórias: Paula Furtado, atriz e multiartista em ascensão; Raquel Penner, que celebra 20 anos de carreira em 2026 e foi reconhecida com o Prêmio Cenym de Melhor Monólogo em 2024; Fábio Freitas, ator, palhaço e performer vencedor do prêmio de Melhor Ator no Fenata 2022, com forte atuação no teatro popular e na linguagem circense; e Isabelle Borges, autora do livro que inspira a montagem, que também integra a cena trazendo uma dimensão poética e onírica à narrativa. Juntos, dão corpo a múltiplos personagens que atravessam o universo emocional de Bilica.

 

Nesta entrevista, conversamos com o elenco e com a autora sobre o processo de criação, os desafios de dialogar com o público infantil e as camadas poéticas do espetáculo. Entre relatos pessoais, memórias de infância e reflexões sobre o ofício, eles revelam como “Bilica Chorona, a peça” transforma o choro, muitas vezes silenciado, em matéria viva de cena.

 

 

Ator Fábio Freitas

1) Quais personagens você interpreta na peça e como a sua experiência com a palhaçaria influencia a sua atuação?

Eu interpreto o avô da Bilica e o “choro” dela, nós damos vida ao choro para que ele possa expressar como se sente ao ser engolido. Além desses dois personagens, que estão mais presentes em cena. Eu interpreto também o pai da Bilica e outras figuras que trazem dinamismo à peça: o grito, que é o irmão do choro, o elevador e o túnel, que são lugares onde as pessoas gostam de dar uma choradinha. Acredito que estar em cena é sempre uma conexão com o meu palhaço. É a partir da liberdade que ele me dá para brincar que embarco nessas diversas aventuras ao longo da peça.

 

Ator Fábio Freitas

2) O que muda para você, em cena, quando a plateia é majoritariamente infantil?

Uma plateia de crianças não é silenciosa e, quando está envolvida com a peça, esses sons se tornam o combustível do jogo em cena. Nada se compara a uma gargalhada sincera, livre de julgamentos, atravessando o espaço e transformando tudo em festa. Isso traz uma enorme alegria e a certeza de que o nosso trabalho é, de fato, muito especial.

 

Atriz e autora Isabelle Borges

3) O que foi mais surpreendente ao ver os personagens do seu livro ganhando vida no palco?

Bilica era meu apelido de infância e, por isso, o título da personagem no livro. Ver o nome da Bilica sendo narrado, falado, repetido, ganhando corpo, voz, expressão, é muito surpreendente. Uma coisa que era tão íntima, das memórias de minha infância, se fazendo em outra dimensão, se expandindo para algo que se tornou uma criação de todos, tem sido muito emocionante. Várias vezes no ensaio me senti como se estivesse tendo a oportunidade de entrar de novo no mundo imaginário da minha criança. Sinto que o resultado dessa peça é o fruto da “Bilica” de todos da equipe brincando.

 

Atriz e autora Isabelle Borges

4) Você está escrevendo um segundo livro. De que forma estar em cena altera a forma como você escreve?

Eu estou com um novo livro no prelo para ser lançado, mas que escrevi antes do processo da peça. Não sei ainda ao certo responder a essa pergunta, em como irá afetar meus próximos trabalhos, mas vejo que estar no teatro ampliou meu corpo que escreve, deu a ele novas formas de estar com as palavras. Como uma lupa, em que posso olhar mais de perto uma história.

 

Atriz Paula Furtado

5) Quem é a Bilica pra você, o que ela simboliza além do texto?

Para mim, a Bilica simboliza a coragem de sentir por inteiro. Ela é a materialização de uma infância luminosa, onde tudo importa, tudo toca, tudo reverbera. Ela é a Paulinha criança, de bochechas avermelhadas que, segundo meu avô, chorava tanto e tão alto que seu falsete seria capaz de quebrar todos os copos de vidro da casa. Ela é um pequeno território de liberdade, onde sinto antes de entender, e vivo antes de nomear. Quando a Bilica dá voz aos seus transbordamentos, ela cria pontes, torna-se espelho e aprendizado para as crianças e, ao mesmo tempo, um convite para que os adultos reencontrem sua sensibilidade e olhem para as próprias emoções com mais carinho.

 

Atriz Paula Furtado

6) É a sua primeira personagem voltada para o público infantil?

Como atriz, é a primeira vez que atuo em um espetáculo voltado ao público infantil, e estou muito animada pra essa aventura. Tive a oportunidade de fazer a assistência de direção do Isaac Bernat na peça A História de Kafka e a Boneca Viajante, um infantil com Laura Becker e João Lucas Romero. Foi um processo muito rico, que despertou ainda mais o meu interesse por esse universo. Estar, agora, em cena com um espetáculo voltado para esse público tem sido um desafio delicioso, porque exige escuta e entrega específicas, além de uma conexão muito sincera com a brincadeira e com a imaginação.

 

Atriz Raquel Penner

7) Como foi o seu encontro com Bilica Chorona e o que mais te interessou na proposta da peça?

O encontro com Bilica Chorona, a peça começa a partir de uma conexão gerada pelo universo que me deixa encantada. Eu e Isaac estávamos em Brasília, apresentando o meu solo Cora do Rio Vermelho. Não conhecíamos a Isabelle e nem ela nos conhecia. Ela chegou até Cora como espectadora. No debate após a peça, ela se apresentou como poeta e escritora. Contou que era de Brasília, mas morava no Rio. E a partir daí, o encontro se estabeleceu graças também a um talento do Isaac de cuidar desses encontros que a vida nos proporciona. Meses depois, Isaac me liga convidando para entrar no projeto Bilica Chorona, a peça, que ele estava idealizando, a partir do livro da Isabelle. Eu ainda não tinha lido Bilica, mas topei na hora. Um convite do Isaac e essa equipe maravilhosa, não pensei duas vezes. Quando li o livro, me emocionei demais. A poesia e as ilustrações são lindas! Falar de emoção e de sentimentos para crianças, de forma tão poética, me encantou na hora. Tive a sensação que estava participando de um projeto com o potencial de tocar o coração de muitas pessoas. E essa sensação só cresce a cada ensaio.

 

Atriz Raquel Penner

8) Ao longo da sua trajetória como atriz, que completa 20 anos em 2026, o que foi sendo desconstruído e o que emergiu como linguagem a partir disso?

É uma trajetória longa e intensa desde os meus 17 anos. Uma dedicação diária. Estudo, pesquiso, sou plateia e transformo as vivências e o contato com outras linguagens artísticas em repertório para os meus personagens. E a cada dia aprendo a me compreender no mundo como artista. Fui construindo e tendo consciência da minha responsabilidade como atriz, que reflete na minha atitude mais ativa como cidadã. Cora do Rio Vermelho é o meu primeiro solo e primeira idealização. Considero um divisor de águas na minha carreira. Passo a trabalhar com a poesia em cena, como texto teatral. Com esse trabalho e a partir dele, amplio a minha potência de criação e realização. A partir das experiências em inúmeros espetáculos e circulações pelo Brasil, também produzindo os meus projetos, vivencio a importância do nosso trabalho e a força transformadora do teatro na vida de cada pessoa.

 

 

Author

A coluna Circulando registra iniciativas da cidade que que valem a pena conhecer e traduzem o espírito carioca. Um evento inovador, um show imperdível, um artista talentoso, uma tendência, etc. É um recorte bem específico que reflete o meu olhar pelos locais por onde passo e frequento dessa nossa cidade tão grande e diversificada. Cristiana Lobo: jornalista e assessora de imprensa à frente da Círculo Comunicação. Formada em Jornalismo pela UFRJ, com pós em Literatura pela PUC-Rio, atua na área cultural há mais de 15 anos. Já colaborou com veículos como portal Le Monde, Revista Vogue Jóias, Jornal do Comércio, Revista Info, site Radar55, entre outros.

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