“Essa Menina” e a oralidade gostosa de um Brasil que precisa ser escrito

Tornei-me com o tempo um leitor voraz. Ultimamente, tenho lido obras muito boas, no entanto, algumas apresentam uma linearidade poética que se coletiviza, que parece atender a vontades também coletivas. Algumas até me soam pasteurizadas. Posso estar errado. Não sou crítico literário. Quando aceitei o desafio para a coluna de literatura aqui no ArteCult, em um primeiro momento me propus a não ser um crítico, no sentido lauto e negativo que a palavra acampou ao longo do tempo.

Passei a escrever primordialmente sobre o que me agradava, algo que é fácil de acontecer, principalmente nesse universo da literatura. Amo ler. Ponto. Ultimamente tenho dado maior chance às autoras, às mulheres. Há romancistas, contistas e poetisas que aproveitaram as conquistas que homogeneizaram as chances à publicação no século XX e XXI e têm escrito cada obra maravilhosa. Ok, há um longo caminho ainda a ser percorrido, a literatura escrita por mulheres tem muito a conquistar.

Dando começo a uma série de textos que vou escrever sobre essas fantásticas escritoras, resolvo iniciar com Essa Menina, de Tina Correia. Livro de estreia da autora, que muito me assusta positivamente pela maturidade da obra em si. enredo verte pelo caminho da oralidade, do causo, daquela voz matuta bem típica do narrador do interior do Brasil. Na verdade, encontramos uma narradora, Esperança, que resgata suas lembranças bem ao final da vida, quando elas parecem se esgotarem, se esvaírem.

O livro aos poucos vai nos conduzindo por um Brasil de memórias reais, de história verídica, sob a perspectiva de uma menina que assim foi em todas as suas idades. Uma menina. Essa Menina: chamada desta forma desde o início das primeiras memórias. Essa alcunha, que vai ilustrar o título, não deve ser avaliada sobre a égide de algo singular, simplista. Como obra, o livro deve ser encarado como um verdadeiro romance, plural, distinto, que atende a várias perspectivas, que ao mesmo tempo nos torna confidente e nostálgico com um tempo e com uma linguagem que parecem sumirem, não mais são naturalmente vistos. Vítimas de uma globalização que pasteuriza tudo? Possível. Porém, ler um livro como este, tão contemporâneo e tão atento a essa voz que já encontrara em Graciliano Ramos, em Rachel de Queiroz, em Antônio Torres, em Gabriel Garcia Marques tão reluzentes escritores, ler essa volúpia literária em uma obra de estreia é de despertar os meus mais íntimos sorrisos de leitor.

É assim que deve ser visto esse livro: um romance. No seu sentido mais amplo e primordial. Em uma cadência que se musicaliza e que nos faz participar daquelas memórias tão narrativas, bem humoradas e típicas de um matuto, agora neste caso uma matuta, que viaja continentes de terra, sentimento e percepções. Quando vi o título, na hora lembrei Essa Terra, de Antônio Torres. Em uma das partes há a citação do homem capitalista, ou seja, aquele que nasce na Capital. Comparem com trecho abaixo, em que há esse mesmo encanto pelo senso da palavra, na exploração da linguagem.

“E no alto do céu, a lua cheia imperava toda branca na toalha negra furada de três linhas. Vovó dizia que no momento em que cheguei a este mundo, lá pelas 10 horas da noite, uma girândola iluminava a rua, encerrando a inauguração da Casa dos Peixes. Eu nasci empelicada, o que era bom Presságio. Teria sorte na vida. Quando, meio desconfiada, abri os olhinhos, titia afirmou que eu sorri:

“As crianças demoravam uma semana para abri os olhos. Você na mesma noite observava tudo. Até sorriu. Parecia trazer esperança para todos nós. Nunca vi uma criança tão especulativa.”

Essa Menina, página 11.

Ler Essa Menina é ler um tempo. Uma época. Uma voz. É trazer para si essa Esperança. Só a título de curiosidade: originalmente essa obra tinha algo em torno de novecentas páginas, confessou-me a autora, quando nos conhecemos após um convite que a fiz para palestrar para meus alunos em um evento chamado FLIC – Festa Literária do Castelo – do Instituto Nossa Senhora da Glória, em Macaé, no interior do Rio. Melhor lugar para escutar Essa Menina Tina Correia não havia.

E aqui fica o meu pedido a vocês para lerem Essa Menina. Que é Muita!

MÁRCIO CALIXTO

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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