Um poema a você

Coluna de Márcio Calixto

 

Num dia, escutei sua voz
Depois, escutei sua palavra.
Noutro, já como lembrança, você me ensinou a usar o banheiro,
A bibicleta
A amarrar o tênis
A pentear o cabelo.

Depois, como também lembro,
A escolher a melhor blusa
A colocar o perfume
A dizê-la as palavras certas.
E quando ela chegou
Você a chamou de nora
Filha
Mãe de sua neta
De seu neto
E de mais um
E discutimos sobre máquina de lavar
Conserto de geladeira
Melhor forma de estender as roupas
Carros, ah, os carros, sempre no centro de tudo.
Sentado em seu colo, no estacionamento, dirigíamos, um boneco com 4 anos
Depois, naquele chevette vermelho, aceleramos.
Cada pedal, um encontro.
Em todas as ruas, do menino ao homem.
Hoje dirijo o meu
Você dirige o seu
Trocamos os carros
Pela experiência de se guiar a vida.

Depois de tudo,
Eu que me encontro nesse homem
Que persiste na fome masculina
Que ensinou a filha a palavra
A brincadeira
Ao filho, que se seguiu, o desenho, o jogo
Ao mais um, que ri a vida em seu despertar
Em que todos crescem

Agora te vejo solitário
Autoisolado pelas intempéries
Esfumaçando certezas
Ampuletando em areia suas memórias
E daqui de fora
Olhando através desse vidro cada vez mais fino
Mais translúcido
A irreparável saliência de tua pele
Tão fraca
Afunilada
Sutil
Finíssima
Você que se vai
Eu que fico com tudo
Nessa terceira margem do rio
Observando o mar que te leva
E você nesse barquinho cada vez mais miúdo
Olhando com olhos tão sedentos
As lembranças que se esvaem.
“É você, filho?”
“Sempre, pai!”
“Você se parece muito com meu filho!”

O filho, que agora é um pai a mais
Observa novas fraldas
Limpa o contorno das origens
Vê o esvaimento das carnes
Saliências ósseas
Sua intransponível capacidade de voar como uma pena
Com uma pena
Apenado
Penalizado
Irresoluto
Finito em si
Infinito em mim
Meus filhos me observam eu te levar no colo
Te ninar
Como aprendi contigo
A ninar meus filhos
A ninar
Ninhar
Em nada
Sim
Você tem o direito a ir
E voa
Como se a vida fosse esse pássaro de rápido pouso.

E agora que se vai

Eu fico, respirando os contornos da saudade

Vivendo de margem em margem

De alguma lembrança sutil e irreparável

Farpa inominável

Que esgarça, trunca e me faz me esconder em sorrisos

O desejo de me manter vivo, pela necessidade de me manter vivo

Por todos os outros que ficaram

E fincaram em mim

A foice inquestionável da paternidade

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto

 

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.