
Coluna de Márcio Calixto

IArte – Chris Herrmann
UM FILHO QUE LEMBRA MEU PAI
Meu pai reencarnou sem ter morrido. Pai ainda está aqui, duas vezes. Alguns bem sabem que eu tive um terceiro filho. A semelhança é tão absurda que não consigo deixar de ver um no outro. Como tal processo de retorno tão imediato é impossível, eu passei a pedir fotos dos parentes antigos para ver quem realmente veio.
Minha mãe, em um processo particular de busca de passados, também afirmou que viu seu pai no neto que acabara de nascer. Para mim, eu passei a ver meu pai quando meu filho completou um ano. Agora, os trejeitos, os traços, algumas marcas antes de família começam a sobressair e ali está meu pai.
Minha família passou a atender meu pedido. Fotos chegaram com alguma frequência, vi que meu filho tem traços que pareciam não mais reproduzidos nos que vieram na minha geração. Meu filho zero dois veio uma cópia minha. A minha filha, de sua mãe. Zero três reuniu um mundo que parecia perdido nas decisões genéticas dos últimos filhos que vieram nas primeiras décadas do século XXI. Théo nasce em 23. Passei a me assustar com a semelhança com alguns parentes com pouca idade, que vieram depois de 2020. Os mesmos traços. O que parecia ser algo genuíno de meu pai e de meu filho, ali estava exposto em fordismo genético. Profundo. Era meu pai várias vezes, em filhos fabricados divinamente nos anos 20. Ao comparar com familiares do início do século XX, as fotos eram claras, estavam todos de novo aqui. Quem veio como meu filho?
Desse ponto, surgiu-me o desejo de reunir características psicológicas desses indivíduos que parecem ansiar pelo retorno. Movo a pergunta aos parentes mais velhos, alguns beirando os 100 anos. É como se fisgasse um peixe que desejava o anzol e ali se mostra magnânimo. Esses parentes abriram o bico. Áudios e mais áudios surgiram. É um material que deixarei para escrever mais tarde. É impossível colocar aqui como texto.
Movo-me à pergunta aos que leem essa crônica, também veem essa reprodução genética de um passado longevo nos filhos de vocês? E o que mais enxergam? Alimentem a minha curiosidade, por favor.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

Coluna de Márcio Calixto


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O título já fez meus olhos ficarem marejados, pois em jan/26 nasceu meu segundo filho, quase 2 anos após o falecimento do meu sogro… E a semelhança é inegável. O osso do tórax avantajado, o tipo sanguíneo (que só ele tinha na família), os olhos, o franzir da testa, o tamanho…. Ele ainda é um bebê, mas todos os dias vemos algum traço. E num dia dolorido, observei meu marido olhar pra ele e dizer: “Vou cuidar de vc filho e vou cuidar de vc pai, vou te dar o que não teve”. Enfim, vivemos para sempre na continuidade de nossa família.
Linda crônica, parabéns!
Como é gratificante poder ler tão sensível comentário, que vem tão cheio de vida e de felicidade. Também choro ao ver meu filho e meu pai, juntos, como uma cópia das sortes. Como choro ao ler o que me escreve, como resposta a uma crônica minha. Ao ler que ele cuidará do filho e ali cuidará do pai, ele se cuida como um profundo pai a ter para si a sorte genética de onde veio, a sorte genética de poder transferir ao filho o pai. Esse é o mundo que nos faz feliz. O seu filho terá um paizão em um mundo de pais plenos. Que sorte!
Sua crônica é muito linda, Márcio. Eu imagino como deve ser incrível pra você perceber essa semelhança, porque algo assim também acontece comigo. Meu filho também se parece muito com meu pai e, além disso, com meu irmão. E não são somente características físicas. Traços de personalidade e alguns gostos/manias. Parece tudo tão mágico, não é? Eu diria que é poesia viva!
Quando a poetisa vê poesia no todo, tudo se torna ainda mais válido. Eu concordo plenamente, companheira de batalha e de bancada! Quando olho meh filho, que tem meu pai ali, é como se me houvesse o ensinamento a um dia eu ser também o pai de meu pai. Esse dia se aproxima. Hoje, com eles, eu tenho a diversão. A estrela fulgurante da lividez do sorriso. Pura maravilha.
Muito interessante essa dinâmica de perceber características do antigo no novo. Sim, vejo muitas nos recém chegados, inclusive de quem nem tem convivência diária. Isso daria para se estender quase que ao infinito!
Márcia, minha maior e mais contundente leitora. Sei que passa por isso, ao ver seus netinhos crescendo com o sorriso de sua filha se reproduzindo em seus netinhos. A vida está nessa maravilha sutil.