PERCEPÇÕES

Coluna de ROSE ARAUJO

Acervo pessoal da autora

PERCEPÇÕES

Às 16h35 de uma terça-feira de oitavas de final de Copa do Mundo, Maria adoça lentamente o café — como se desenhasse aquilo que gostaria de ver ou sentir — com duas colherinhas de açúcar mascavo.

A xícara amarela, pincelada à mão, desperta memórias ancestrais. Amarelada por um tanto de tempo traz sabor de dias nublados, açucarados por bolinhos de chuva: sabor de causos arrastados por mãe, tias e avós. Jogos icônicos cuidadosamente adornados por saudades daqueles que vibraram e acenaram com a gente, por um país melhor. Recorte de uma tarde em memórias e liturgias, aromas e afetividades.

Tarde de partilha, fatia e legado.
Tarde de partilha, fatia e legado.

Maria senta-se lá fora, abre os pulmões e sorri de volta à montanha verde-pedra, que lhe acena e acolhe. A Grande Pedra abençoa a sua varanda, em paz: ItaiPAZ.

Maria cobra-se novo texto, processo ou lugar: verso, prosa ou aquilo que necessite nascer, sua coluna quinzenal à espera. Tem sido assim, um frenesi, onde conceitos e preceitos se embaralham, buscam tom, som ou bem-estar. No espaço do sonhar Maria espera alguma genialidade, ignorando recorrentes estatísticas: é fato que, no máximo, 15% verdadeiramente inovam. Ao restante cabe novo ângulo ou percepção do olhar.
Isso, anotar: ângulo ou percepção do olhar.

Maria ri de suas viagens, engrenagens, links involuntários. Ri de canto de boca, enquanto sorve um gole de café. Riso de soslaio, assim como o olhar.

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara…”

“Eu tenho o tempo do mundo
Tenho o mundo afora…”

Maria cantarola versos de Lenine e Fred Martins — compositores e cantores vistos há pouco nos palcos do Rio. Imperdíveis, exaltam o bom da nossa cultura, louvada em poesia, arranjos e acordes. Pensa em discorrer sobre suas obras e projetos, tamanha as suas significâncias à cultura nacional. Maria lembra-se que, para tais imersões, teria que entrevistá-los a tempo, sob a urgência de Chronos. Ah, Chronos, em seu tempo e vigência, em não-tempo e urgências…

Maria pensa também em trazer seus afetos e elos venezuelanos, através das famílias Contreras e Alayón: dias de luto e assombro, escombros ceifando vidas, famílias, esperanças.

Maria embaralha tudo, revolve memórias
em nós, em dós, em goles e fábulas.
Revela — à revelia — a poesia contida nos dias,
nos flashes e aromas de café.

Na CasAmarÉlinha, cinco anos se acendem e transcendem: espaço das artes bordado em encontros, tecendo versos em sorriso que alumia. Que venham mais cinco, passarelando em poesia!

ROSE ARAUJO 

Rose Araujo (@rose_araujo_poeta). Foto: Divulgação.

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Author

Rose Araujo considera-se paranaóca: paranaense de raiz e carioca de toda a vida. No entrelaçar das culturas algumas vezes de lá e outras tantas de cá. Assim leva a vida gostando de gente, de bicho, de livro, de planta e - sobretudo - de poesia, tecendo artes, aguçando o olhar, em meio a tantas gentes. Desenhista industrial de formação, é também poeta, fotógrafa e produtora cultural por paixão. Realizou inúmeras produções de shows, eventos e projetos gráfico sendo, alguns, em parceria com o maestro e pianista Haroldo Goldfarb. Desde 2020 Rose coordena o Espaço Cultural da CasAmarElinha, em Itaipu - que carinhosamente renomeou de ItaiPAZ - na Região Oceânica de Niterói- RJ. Em seus seis anos de efervescência, realizou lives, saraus premiados pela Comissão de Arte e Cultura do Rio de Janeiro e APPERJ e lançamentos e entrevistas sob o projeto itinerante da Passarela da Poesia, projeto onde já passaram significantes nomes da poesia contemporânea brasileira. Estreou na literatura em coletâneas e antologias, mas seu primeiro livro solo nasceu em 2022, em plena pandemia. Em Quando Vida Poesia (Editorial Casa, 2022) foi presenteada pelo prefácio de Tanussi Cardoso e orelha de Ricardo Alfaya, tendo grande receptividade de público e crítica. Rose Araujo e membro da APPERJ-RJ, UBE-RJ, IICEM e PEN Clube, segue nas feituras de dois livros, já no forno, com lançamentos despontando logo ali. A convite do editor-chefe Rapha Gomide, vem somando à grande família de colunistas do portal ArteCult, em sua coluna quinzenal Poesia em Todas as Artes, desde janeiro de 2025. Rose acredita no coletivo, nas somas, no vamos juntos, no enquanto e no encanto da vida, sendo mais e mais poesia. @rose_araujo_poeta @passareladapoesia @rosearaujofotosafetivas

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