MORRERVIVER

Coluna de ROSE ARAUJO

Luis Turiba – Imagem Gerada por IA, sobre fotos do arquivo pessoal.

MORRERVIVER

                                                  Luis Turiba

 

quando morri, nasci
da bolha d’água onde vivia
berrei o sopro de um fim
com a terrível luz do dia

um dia fui feto e morri
bebi líquido amniótico
fui anjo da própria mãe
acalmando-a das neuroses

mundo rodando e eu ali
borbulho de um rei vítreo
quente o feto faz do giro
seu último e futuro filho

quem nasce é porque morre
do aquático mundo velho
a dor é frígida na passagem
água é morna e o ar gélido

tempo feito sem memória
o afeto é mais que células
das sensações nasce a mãe
o filho apenas morre delas

 

Nos primeiros versos da primeira página de uma vida inteira Luis Artur, o menino recém chegado de Olinda – do bairro Casa Amarela – vislumbrava novos mundos e, como poeta além do seu tempo, teceu em múltiplas artes cada um deles.

A notícia da partida de Turiba, na manhã gris da última quarta-feira, nos deixou petrificados de frio e de espanto. Saiu à francesa, sem festa, às pressas, tentando desviar-se, a todos custo, do lúgubre barco de Caronte.
Diante da perda, a ausência intervala memórias, cenas, fragmenta histórias, lágrimas e boas risadas.

Conheci Turiba na cena efervescente dos palcos, recitais e rodas de poesia, os quais frequentávamos regularmente. Chamava-me a atenção seu jeito boa gente, o ajeitar dos cabelos antecipando a emissão de um conceito ou ideia indubitavelmente odara. Sim, vanguardista odara. Ele gesticulava com as mãos, enfaticamente, a eleger a palavra exata e subverter o recado, assertivo e bem dado: preciso, no alvo. Como um ilusionista, estava sempre prestes a sacar um coelho da cartola: fosse uma graça, um sorriso-de-si-mesmo, um trocadilho, um novo prisma, proposta ou encanto a endossar mirabolantes voos e projetos.
Em nossa breve – e não menos bela – história de amor, humor e parceria, lembro-me nitidamente de desvelarmos juntos, página a página , cuidadosamente, os alfarrábios de sua autobiografia de sete décadas, à qual se dedicava nos últimos tempos, sua mais recente menina dos olhos. Na CasAmarÉlinha líamos alto, relíamos, refazíamos parágrafos até fluir, com naturalidade, a embocadura da palavra. Avançávamos os capítulos, um a um, com riqueza de detalhes, brindes e muitas risadas, arredondando a narrativa.

Nada linear, em curioso cronograma, o poeta tinha ponto de partida e pressa de avançar. Sim, em um sexto sentido aguçado, Turiba percebia urgências de tempo e de vida, do tempo da vida. Como jornalista renomado investigava fatos históricos, forrando e afofando as memórias do menino Tuquinha, o xodó da vovó Adalgisa e do vovô Artur.
Na imersão em sua autobiografia “Viva Zé Pereira: Aventuras e Desventuras de uma Geração . Laudas, laudas, laudas”, Turiba revisitou fotos, afetos, dores, amores, perdas, prantos, conquistas, vitórias e voltas ao mundo em seus quatro cantos e alguns quebrados.
De raciocínio ágil, contrapondo o corpo agora franzino, o poeta seguia criando e esperançando, subvertendo imperativos.

São flashes, capturas de instantes e histórias salvaguardadas na memória e no coração.

Turiba/Tiriba, que significa paz, alegria e felicidade em tupi-guarani, trouxe em si a sua mais completa tradução aos filhos, netos, amores e amigos. Nosso querido Luis desnublou os dias de cada um de nós, de todas as gentes que com ele convivia: presença-presente.

Morrerviver: no enquanto da caminhada, um tecer.

Descanse em paz, nosso mestre, amigo, meu ex parceiro e poeta. Voe, revoe outros ares, explore outros picos. Que os deuses da poesia o recebam em bric-abraços, poemares, festas e em novas parcerias …

Abaixo meu poema-homenagem, por ocasião dos seus 75 anos, em março de 2025, agora adaptado em acenos de adeus!

 

SETEPONTOCINCO
Rose Araujo
a Luis Turiba

Esse moço

de lugares tantos

teorias efusivas acalantos

de quandos enquantos

hiatos entreatos entretantos

eclipses elipses sinapses

e como se não bastasse

recifecarioca vanguardista

 

Esse moço

de coração aglomerado

onde cabe boa parte do mundo

multiface multiprisma em não rimas

poema sobre si

poema sobre o outro

poema sobre o todo em

Marielles Zé Pereiras

dores amores Josés e Raimundos

 

Esse moço gaiato

dos versos enfáticos

humor aguçado

trocadilhos andarilhos

filho de Lurdes pai Ico Ogum e mais que isso

militante odara peça rara joia barda

empático e atento

universo em ebulição e sentimento

 

Esse bric-moço

pisciano moço

a brac a breca

flamenguista pra caramba a beça

transcendente sideral

mangueirense alto astral

cuiqueiro avô coisa e tal

abraça e contagia de vida a vida

são sete décadas e uns quebrados

histórias matérias conceitos poetas

Cora Borges Russo Barros

memórias mistérios e alguns trocados

foi “ foca” força afeto e fé

laudas laudas laudas

 

moço efervescente

em missão e legado

transmitiu seu recado

sugerindo novo conjugar

: vamos turibAR!?

 

Apresento também a vocês uma pérola garimpada pela Revista IstoÉ, em sua homenagem. No livro Luminares (1983) Turiba escreve uma espécie de Manual de Despedida, um roteiro de velório bem ao seu estilo: irônico, despojado e afetuosoo:

 

Coloquem Imagine na vitrola / retirem—lhe o coração em frangalhos / e enterrem-no enrolado na bandeira do Flamengo / Quanto ao resto / corpo — subproduto da vida / qualquer cerimônia (simples) cabe / Afinal a morte é sempre um gol de placa / aos 45 minutos / do segundo tempo da existência / No mais: —foi bom ponta-de-lança / Comemorem pois nada disso lhe pertence mais.

 

 

Na CasAmarÉlinha, cinco anos se acendem e transcendem: espaço das artes bordado em encontros, tecendo versos em sorriso que alumia. Que venham mais cinco, passarelando em poesia!

 Instagram:

@rose_araujo_poeta @passareladapoesia @rosearaujofotosafetivas

 

ROSE ARAUJO 

Rose Araujo (@rose_araujo_poeta). Foto: Divulgação.

Conheça a coluna de Rose Araujo

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com Rose Araújo

Author

Rose Araujo considera-se paranaóca: paranaense de raiz e carioca de toda a vida. No entrelaçar das culturas algumas vezes de lá e outras tantas de cá. Assim leva a vida gostando de gente, de bicho, de livro, de planta e - sobretudo - de poesia, tecendo artes, aguçando o olhar, em meio a tantas gentes. Desenhista industrial de formação, é também poeta, fotógrafa e produtora cultural por paixão. Realizou inúmeras produções de shows, eventos e projetos gráfico sendo, alguns, em parceria com o maestro e pianista Haroldo Goldfarb. Desde 2020 Rose coordena o Espaço Cultural da CasAmarElinha, em Itaipu - que carinhosamente renomeou de ItaiPAZ - na Região Oceânica de Niterói- RJ. Em seus seis anos de efervescência, realizou lives, saraus premiados pela Comissão de Arte e Cultura do Rio de Janeiro e APPERJ e lançamentos e entrevistas sob o projeto itinerante da Passarela da Poesia, projeto onde já passaram significantes nomes da poesia contemporânea brasileira. Estreou na literatura em coletâneas e antologias, mas seu primeiro livro solo nasceu em 2022, em plena pandemia. Em Quando Vida Poesia (Editorial Casa, 2022) foi presenteada pelo prefácio de Tanussi Cardoso e orelha de Ricardo Alfaya, tendo grande receptividade de público e crítica. Rose Araujo e membro da APPERJ-RJ, UBE-RJ, IICEM e PEN Clube, segue nas feituras de dois livros, já no forno, com lançamentos despontando logo ali. A convite do editor-chefe Rapha Gomide, vem somando à grande família de colunistas do portal ArteCult, em sua coluna quinzenal Poesia em Todas as Artes, desde janeiro de 2025. Rose acredita no coletivo, nas somas, no vamos juntos, no enquanto e no encanto da vida, sendo mais e mais poesia. @rose_araujo_poeta @passareladapoesia @rosearaujofotosafetivas

5 comments

  • Linda e amorosa homenagem, Rose!
    Que a tristeza deste momento se retraduza em espaço pra gratidão pelo vivido em parceria.
    Meus sentimentos, querida.

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  • Homenagem grata a um poeta de ofício. Emocionante, amorosamente inteligente, eticamente presente. Um percurso colocou um ponto e vírgula em seu haver…

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  • Muito bonita homenagem ao nosso querido amigo poeta. Emocionante. Turiba deixa saudades e num de seus atos, nos apresentou. Bjãozão.

    Walter Silveira – Multiartista DF

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  • Rose querida, que linda homenagem póstuma ao poetaço Turiba. Pelas suas palavras, pude conhecer melhor um Turiba doce, quase menino, bem-humorado, sagaz, criativo, ótimo escritor.
    Não consegui fazer comentário online.
    Um beijo especial ❤️

    Alice Monteiro – escritora e poeta RJ

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  • Lindo, Rose querida.
    Fiquei bastante emocionado lendo sua crônica sobretudo amorosa.

    Alexandre Brandão – escritor e poeta RJ

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