
Paula Parisot em seu ateliê | Foto: Divulgação
Exposições em Brasília e no Rio de Janeiro articulam memória, feminismo e linguagem artística
A memória não é apenas aquilo que guardamos do passado: ela é matéria viva que molda o corpo, a linguagem e as formas de existir no presente. É a partir dessa compreensão que Paula Parisot constrói sua obra: um trabalho atravessado por experiências pessoais e afetos. Essa investigação ganha forma em Geometria da Memória, trabalho mais recente da artista, que será apresentado em duas importantes instituições no Brasil: o Museu de Arte de Brasília (MAB), com abertura em 14 de março, e o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, a partir de 16 de maio. As mostras marcam um reencontro significativo entre a artista – que atualmente vive em Buenos Aires – e o público brasileiro, país que segue como eixo central de sua produção.
Para Parisot, criar nunca foi um capricho estético ou algo “decorativo”. É, antes de tudo, uma questão de sobrevivência e presença no mundo. “A arte que eu faço é a minha identidade. É o direito que eu tenho de estar viva, de não desaparecer”, afirma. Na visão dela, a criação não funciona como fuga da realidade, mas como uma maneira de alinhar pensamento, corpo e experiência – uma forma de organizar o que sente e vive.
Diferente de quem busca na arte um simples refúgio, Paula encara a criação como algo colado à própria pele e trajetória. Sua obra não ignora dores, feridas ou cicatrizes, mas também se recusa a ser definida apenas por elas. O medo e o conflito aparecem, sim, mas o que ganha destaque é o movimento: a tentativa constante de compreender o que passou para conseguir seguir adiante.
“Contar a própria história – recontar o nosso passado – é falar da mitologia da nossa própria vida. Assim como as mitologias clássicas organizam a experiência humana em narrativas, ao narrar a minha própria trajetória eu identifico um conjunto de histórias, arquétipos e figuras simbólicas: padrões que se repetem, como quedas, retornos, conflitos e transformações. Reconhecer esses padrões me permite não confundir repetição com destino e, assim, não ficar condenada a repetir o repetido”, reflete Paula.
É nesse contexto que Geometria da Memória ganha forma. Linhas e formas geométricas aparecem como uma tentativa de dar alguma ordem ao que é, por natureza, fragmentado e emocional, mas essa ordem nunca é rígida ou fechada:
“A memória não é fixa. Ela se desmonta e se reconstrói o tempo todo, ganhando novos sentidos à medida que a gente muda e cresce”.
Quando o “eu” encontra o “nós”
Na trajetória de Parisot, o feminismo funciona como uma lente e um dicionário ao mesmo tempo. Ele ajuda a dar nome a incômodos que, por muito tempo, pareciam apenas sentimentos individuais, mas que, na verdade, estão ligados a estruturas sociais muito maiores.
“Nomear é encarar de frente aquilo que antes era só um mal-estar difuso”, explica.
Essa percepção transformou o tom e o alcance de sua obra. Em “Literatura do Eu” (BienalSur 2021, Buenos Aires), o ponto de partida era profundamente pessoal: um mergulho íntimo em sua própria história, linguagem e processos. Já em “Eu, Todas”, exposição apresentada em 2023 na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa; em 2024, na Casa de América, em Madri; e, no início de 2025, no Centro Cultural de Lagos, no Algarve, esse olhar se desloca do individual para o coletivo. A experiência pessoal passa a ser colocada em diálogo direto com outras mulheres, revelando como aquilo que parecia íntimo e singular é, na verdade, atravessado por estruturas compartilhadas. Assim, o pessoal deixa de ser apenas autobiográfico e se afirma como político, coletivo e estrutural.
“Quando você começa a falar de si, percebe que não está sozinha – a sua história atravessa centenas de outras mulheres”, afirma Paula.
Longe de se limitar à denúncia, o trabalho de Paula é sobretudo sobre sustentação, sobre como continuar criando, falando e acreditando mesmo quando o caminho é difícil:
“Resistir é sustentar aquilo em que se acredita, mesmo quando tudo parece estar contra você”.
Sua arte funciona como um convite ao desabafo, mas também ao equilíbrio, um lembrete de que revisitar a própria história não é apenas um gesto artístico, mas um dos atos mais genuínos de liberdade.

CHRIS HERRMANN
Escritora, musicista, editora, designer.
Editora-chefe Redação e Colunista ArteCult.com
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