CONTO DE QUINTA: Poeira sobre os dias ou o relógio adormecido

por César Manzolillo

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POEIRA SOBRE OS DIAS OU O RELÓGIO ADORMECIDO

O despertador tocou às 6 da manhã, mas Jonas não se moveu. Aquele som estridente vinha de outra dimensão, um ruído distante incapaz de romper o casulo maciço construído por ele sob as cobertas. Com um gemido sufocado, esticou os braços e apertou o botão de soneca. Mais dez minutos. Esse era o início de seu ritual de imobilidade. Jonas não odiava o trabalho nem tinha grandes problemas na vida, era apenas governado por uma força invisível e viscosa: o peso do depois. O problema é que o depois dele nunca chegava. O mundo lá fora corria, mudava e exigia atitude, mas Jonas preferia flutuar no limbo da apatia. Quando finalmente se levantou, meio-dia já cobrava seu preço no relógio. Ele então suspirou, se esparramou no sofá e ligou a TV, o esforço de começar algo novo àquela hora era um desperdício de energia. Enquanto a tela brilhava à sua frente, Jonas percebeu, com uma ponta de melancolia, que o tempo era a única coisa que não compartilhava de sua indolência. Este continuava a correr implacável, deixando-o para trás, enterrado vivo na própria comodidade.

 

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

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