Com Ana Gosling

Foto: Jaredd Craig, em Unsplash
Cronicar e pecar
Ao escrever uma crônica, evite ser genérico. Crônica é texto pessoal. Mesmo ficcional, soa como memória fresca voltando ou como confissão amiga. O cronista se senta com o leitor em um bar imaginário e partilha imagens, sentimentos, reflexões. Ao levantar da mesa, fica a intimidade do encontro: o leitor preencheu lacunas com a própria história.
Mas entenda: o principal não é sobre você. Seu texto é forte quando é universal. Quem escreve só para si, não encontra conexão. São as palavras, e não a história em si, que fazem a emoção materializar-se aos olhos do leitor. Por isso, como você as escolhe e as arruma, como pontua, encurta e alonga períodos, torna seu texto mais relevante.
Então liberte-se: não fique preso à verdade dos fatos. Minta, se precisar. Invente. Aumente. Ou diminua. Faça o necessário para chegar a uma verdade maior, compartilhada no imaginário das ideias humanas (uma espécie de “nuvem” dos sentimentos importantes). Para chegar lá, use escadas, ferramentas, incremente a história porque ela, nua em pêlo, é conteúdo magro para as emoções graúdas.
Mas não seja pretensioso nem chegue fazendo barulho. Um cronista não é arrogante em seu ofício. Se o texto soar assim, é por estratégia. Um bom cronista sabe chegar perto o suficiente para dividir confidência ou piada. Conversa de bar, eu disse. Escreva fácil, escreva próximo, sem abrir mão de escrever bonito.
Não fale demais se podemos sentir com menos. Crônicas são flashes, recortes de vida. Ao narrar um casamento, não descreva desde o padre na sacristia, os detalhes da grinalda, os votos nupciais, a abundância da festa, até o carro dos noivos se afastando. Escolha um detalhe, como o pajem caminhando da porta ao altar. Naqueles vinte passos, caberão emoções inteiras: a dor e a alegria, a vida e a morte. A crônica é um retrato no álbum de uma vivência rica em significados.
Não seja superficial. Para ser profundo, exponha. Abra a lente no detalhe. Não antecipe se a personagem é amarga e fala mal das amigas. Mostre-a atravessando o salão, limpando o batom do canto da boca, e deixe o leitor ver sua malícia. Confia.
Não subestime sua arte. Crônica não é “bico” de escritor, exige envolvimento. Mesmo efêmera, é experiência marcante. Amplia o olhar para os cantos do mundo, os pequenos significados. Os autores do jornal, dos livros de escola, suas anedotas ou reflexões seguem entre as melhores memórias vida afora. Pessoas, tempos e lugares também são efêmeros. Mas o que nos marca nos forma: gostos, valores, percepções, sentimentos. E torna-se fundamento da vida, tão efêmera quanto todo o resto.
DICA DA SEMANA:

Foto: Divulgação
Depois da pré-venda (aqui anunciada) e de rodar o país com seu novo livro de contos, ” O fim da Psiquiatria”, lançado pela Editora Folheando, Walter Macedo Filho pousa em São Paulo, nesta quarta.
“O Fim da Psiquiatria” é o segundo livro do autor, que lançou anteriormente “Nebulosos”, pela Editora 7 Letras. Na atual obra, reúne 28 textos entre contos e monólogos. Alguns, aproveitados em montagens dramatúrgicas, visto que Walter é, também, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro, já tendo integrado o Círculo de Dramaturgia dirigido por Antunes Filho. Também foi gestor cultural, atuando no Sesc São Paulo, no Instituto Augusto Boal, na Biblioteca Parque do Rio de Janeiro e na Arena Carioca Dicró.
Sou fã da escrita do Walter, com quem estudei escrita dramatúrgica por quase cinco anos. Perspicaz, sensível, transgressor e surpreendente como autor, seus textos sempre rumam por caminhos criativos e potentes.
Na sinopse da editora, assim se apresenta a obra: “Em “O fim da psiquiatria e outros contos”, Walter Macedo Filho costura narrativas onde a vingança tem o sabor de uma vitória amarga e o amor é o último lamber em meio ao caos. Do motorista de aplicativo que manipula o sistema para se vingar ao operador de raio X que explora a fé alheia com chapas antigas , e da depressão curada por um ato perverso, a coletânea mergulha no que há de mais sombrio e, paradoxalmente, real em nós. Este livro recusa o conforto, preferindo a chapa fria da verdade sem filtros. Uma leitura intensa e perturbadora da vida contemporânea”.
Passem lá para um abraço e avisem-no que já estou guardando meu lugar na fila de autógrafos do Rio de Janeiro, em novembro!
SERVIÇO:
Livro: “O Fim da Psiquiatria”, de Walter Macedo Filho
Editora: Folheando
Data e horário: 16/09/2026 – a partir das 19h
Local: Livraria da Travessa – Rua dos Pinheiros, 513, Pinheiros, São Paulo, SP
Preço do exemplar (no site): R$ 50,00
Venda on line do livro: https://editorafolheando.com.br/produtos/o-fim-da-psiquiatria-e-outros-contos-5by9s/


com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo















