Como foi a experiência de ser jurado no 1º CONCURSO REGIONAL DE QUEIJO ARTESANAL DE ALAGOA/MG 2026

Eu sempre fui um apreciador de queijo, talvez pelo fato de ter crescido ali em Itanhandu, no sul de Minas, na Serra da Mantiqueira – local que, por si só, já respira essa cultura queijeira. E não é de agora…

Minas Gerais conta atualmente com mais de 10 regiões oficialmente delimitadas e reconhecidas para a produção de Queijo Minas Artesanal (QMA) e outros queijos tradicionais: Serra da Canastra (abrange os municípios de São Roque de Minas, Medeiros, Vargem Bonita, Tapiraí, Delfinópolis, Bambuí e Piumnhi), Serro (uma das tradições mais antigas, tombada como patrimônio imaterial pelo Iphan, abrange os municípios Alvorada de Minas, Coluna, Conceição do Mato Dentro, Dom Joaquim, Materlândia, Paulistas, Rio Vermelho, Sabinópolis, Santo Antônio do Itambé, Serra Azul de Minas e Serro), Cerrado (maior região produtora do estado, engloba os municípios de Abadia dos Dourados, Arapuá, Carmo do Paranaíba, Coromandel, Cruzeiro da Fortaleza, Guimarânia, Lagamar, Lagoa Formosa, Matutina, Patos de Minas, Patrocínio, Presidente Olegário, Rio Paranaíba, Santa Rosa da Serra, São Gonçalo do Abaeté, São Gotardo, Tiros e Varjão de Minas), Araxá (localizada no Alto Paranaíba, é composta pelos municípios de Araxá, Campos Altos, Conquista, Ibiá, Pedrinópolis, Perdizes, Pratinha, Sacramento, Santa Juliana, Tapira e Uberaba), Campo das Vertentes (próximo a São João del-Rei e Tiradentes, é formada por 36 municípios, dentre os quais estão Antônio Carlos, Barroso, Conceição da Barra de Minas, Coronel Xavier Chaves, Carrancas, Lagoa Dourada, Madre de Deus de Minas, Nazareno, Prados, Piedade do Rio Grande, Resende Costa, Ritápolis, Santa Cruz de Minas, São João Del Rei, São Tiago, São Vicente de Minas e Tiradentes), Triângulo Mineiro (região composta pelos municípios de Estrela do Sul, Araguari, Cascalho Rico, Indianópolis, Monte Alegre de Minas, Monte Carmelo, Nova Ponte, Romaria, Tupaciguara e Uberlândia), Serra do Salitre (região específica do Alto Paranaíba, antes fazia parte da região queijeira do Cerrado), Diamantina (cidade histórica onde a tradição queijeira se manteve forte desde o ciclo do diamante, a região abrange nove municípios: Diamantina, Gouveia, Datas, Monjolos, Couto de Magalhães de Minas, São Gonçalo do Rio Preto, Felício dos Santos, Senador Modestino Gonçalves e Presidente Kubitschek), Serras da Ibitipoca (área montanhosa que reflete notas únicas nos laticínios artesanais locais, formada pelos municípios de Andrelândia, Arantina, Bias Fortes, Bom Jardim de Minas, Lima Duarte, Olaria, Passa-Vinte, Pedro Teixeira, Rio Preto, Santa Bárbara do Monte Verde, Santa Rita do Ibitipoca, Santa Rita do Jacutinga, Santana do Garambéu, Seritinga e Serranos) e Entre Serras da Piedade ao Caraça (décima região oficial de QMA, englobando Barão de Cocais, Bom Jesus do Amparo, Caeté, Catas Altas, Rio Piracicaba e Santa Bárbara). Cada região tem normas técnicas, práticas tradicionais e sabores únicos moldados pelo terroir (clima, relevo, altitude e flora).

Além do Queijo Minas Artesanal, o estado demarcou regiões com características e métodos específicos para Alagoa –  queijo de montanha produzido na cidade de Alagoa, na Serra da Mantiqueira; Mantiqueira de Minas – reconhecida pela qualidade e maturação típica em clima de serra; e Queijo Cabacinha –  queijo de massa filada típico do Vale do Jequitinhonha.

O queijo artesanal desse pedacinho encantado de Minas Gerais, a Serra da Mantiqueira, tem suas raízes, conforme pesquisas da EMATER-MG, na chegada de um casal de imigrantes italianos – a professora Luiza Altomare Poppa e o sapateiro Pascoal Poppa – a Alagoa, em 1920. Após se estabelecerem na localidade, Pascoal viu a oportunidade de criar ali um produto típico de sua terra natal, Parma: o queijo parmesão. A inspiração surgiu ao notar as semelhanças climáticas entre a região da Mantiqueira e sua cidade de origem, iniciando assim a produção desse renomado queijo italiano.

Paschoal Poppa estabeleceu-se no Bairro Boa Vista, a 8km da Capela, onde, atualmente, é o Centro da Cidade e, juntamente com parceiros, agitou a região com a produção de queijo, fazendo uma fusão da vivência italiana com as características naturais de Alagoa.

Com o passar do tempo, os municípios da Serra da Mantiqueira adotaram a prática de produzir queijo em suas pequenas propriedades agrícolas. As técnicas foram adaptadas e ganharam traços regionais. Assim, essa cultura foi transmitida de uma geração para outra ao longo dos anos, mantendo-se viva até os dias de hoje.

Especificamente sobre Alagoa eu não tinha muita informação. Apesar de ter morado na região até meus dezoito anos, só estive na cidade uma única vez. Me lembro que o acesso era ruim, com estrada de chão em quase todo o percurso. Hoje já há calçamento até lá, muito em função do sucesso que a produção queijeira tem atingido nos últimos anos e a procura por hospedagens cresce exponencialmente na época dos eventos relacionados.

Bem, fiz essa pequena introdução pra contextualizar minha alegria e satisfação com o inesperado convite que recebi. Foi, realmente, uma grande honra ter sido convidado pela EMATER – MINAS GERAIS (@ematerminas) e PREFEITURA MUNICIPAL DE ALAGOA para ser um dos jurados do 1º Concurso Regional de Queijo Artesanal Alagoa, que aconteceu durante o XV FESTIVAL DO QUEIJO E AZEITE DE ALAGOA, evento tradicionalíssimo na região.

É claro que, num primeiro momento, bateu uma insegurança danada. Afinal, no que pese estar acostumado a experimentar todos os tipos de queijo, seja utilizando-o na minha cozinha, em uma receita, ou apenas harmonizando com alguma bebida, ter a responsabilidade de avaliar já sobe o sarrafo para um outro patamar. Não se trata apenas de dizer se um queijo é bom ou ruim baseado apenas numa análise superficial, mas entendê-lo como um processo. E isso demanda conhecimento.

Mas sou movido por desafios, né? Por isso, tão logo aceitei o encargo, tratei de buscar toda a informação disponível acerca das características desejáveis no queijo objeto da avaliação, que me possibilitasse fazer uma análise sensorial correta e justa. E quando recebi o manual do jurado, sacramentando a indicação, aumentei consideravelmente minhas pesquisas, não só teóricas, mas práticas também, com degustações de exemplares do queijo de Alagoa,  atrás de suas peculiaridades.

São critérios para a avaliação dos queijos os seguintes parâmetros: apresentação externa, cor externa, apresentação interna, consistência, odor, sabor e gosto. Para cada um deles são atribuídos notas, com determinada faixa de peso. Ou seja, a utilização de todos os sentidos é fundamental!

Mas antes de prosseguir com os detalhes do concurso, deixa eu falar um pouquinho sobre o festival que estava acontecendo em paralelo e que é o ponto alto de apresentação, divulgação, venda e incentivo à valorização da arte de produzir o queijo artesanal de leite cru e o azeite extra-virgem em território alagoense. E a edição desse ano teve um significado especial ao comemorar os 100 anos da tradição do Queijo Artesanal de Alagoa, produto que se tornou símbolo da cidade e referência da gastronomia mineira.

Achei muito bacana a iniciativa de incluir na programação do festival uma homenagem aos familiares do patrono do queijo artesanal de Alagoa Pascoal Poppa. Um reconhecimento merecido! Ah, tive a oportunidade de conhecer sua neta, Regina Lúcia Poppa Scarpa que, gentilmente, me presenteou com o livro de memórias de sua mãe e uma camiseta comemorativa, feita especialmente para o festival.

Alagoa, com apenas 2800 habitantes, é o município mais alto das Terras Altas da Mantiqueira, inserido 100% dentro da APA da Mantiqueira, e foi a primeira cidade da região a realizar o primeiro festival do queijo. Possui em torno de 200 produtores locais e certificação na produção do queijo, tida como região única. É, seguramente, a cidade mais premiada no Brasil em concursos nacionais e internacionais – embora a minha Itanhandu esteja, atualmente, ganhando enorme relevância e prêmios no cenário queijeiro, por conta da diversidade (vaca, cabra, búfala) e grande qualidade.

Além dos queijos, Alagoa também tem produzido azeites de excelente qualidade, reiteradamente premiados em concursos.

Antes de me dirigir ao local onde seria realizado o concurso para uma reunião com a equipe organizadora, fiz um reconhecimento do terreno. Percorri a área do evento, que havia começado na quinta-feira (04/06). Era um sábado (06/06) ensolarado e a festa prometia ser bastante animada…

Vencido o nervosismo inicial, entrei no local onde seria feita a reunião. As palavras iniciais foram dadas pelo Prefeito Municipal Sebastião Mendes Pinto Neto, que ressaltou a importância do evento, seguido pelo gerente regional da EMATER-MG em Lavras, Marcos Antônio Fabri Júnior.

Cabe, aqui, uma pequena explicação.

Durante esse XV FESTIVAL DO QUEIJO E AZEITE DE ALAGOA foram realizados dois concursos simultâneos: um concurso MUNICIPAL de queijos, realizado pela Secretaria de Agricultura e Pecuária e outro, REGIONAL, realizado pela primeira vez em Alagoa, pelo Governo de Minas Gerais, por meio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER-MG), vinculada à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (SEAPA), da Prefeitura Municipal de Alagoa (MG) e da Associação dos produtores de Queijo Artesanal da Alagoa (APROALAGOA).

Os queijos foram divididos nas seguintes categorias: Jovens (15-30 dias), Maturados (> 60 dias) e Condimentados ou Defumados. Essa primeira edição do concurso estadual selecionou os 10 primeiros classificados em cada categoria para representar Alagoa no CONCURSO ESTADUAL DOS QUEIJOS ARTESANAIS, cuja final acontecerá na cidade de Diamantina.

Olhei para o salão e as diversas mesas espalhadas por ele estavam repletas de amostra de queijo. Ao todo, 61 queijos produzidos por 22 queijarias do município participaram da competição, divididos nas categorias citadas.

Os jurados foram divididos pelas categorias. Eu fui designado para a categoria Jovens e teria que avaliar 17 amostras, que estavam dispostas em duas mesas, identificadas apenas por números. A partir daí, bastava escanear o QR Code exclusivo da amostra e ingressar no sistema, avaliando itens como: apresentação externa (casca lisa ou rugosa, presença de trincas, marcas ou rachaduras, adequação da toalete etc), cor externa (se brilhante ou fosco, presença ou ausência de manchas, cor uniforme ou não etc), apresentação interna (presença de olhaduras, cor interna etc), consistência (se dura, macia, untuosa, seca etc), aromas (se lático, frutado, adocicado etc), gostos (doce, salgado, amargo etc), sensações na boca (picância, ranço etc), sabores (lático, floral, gramíneo etc) e, por fim, sua impressão global.

Fiz uma análise criteriosa de cada amostra, detendo-me em cada uma delas o tempo necessário para compreender o queijo examinado na sua essência, não importava o tempo que demorasse. Todos os aspectos mencionados tinham que ser valorados com exatidão e seriedade, pois entendo ser esse o papel do jurado, na medida em que não se avalia apenas o produto, mas toda a história que ele carrega até chegar ali.

Finalizei os trabalhos com a sensação do dever cumprido. Certamente, para o caso de uma nova oportunidade, procurarei estudar ainda mais, aprimorando a análise sensorial, de forma a também fornecer um feedback ao produtor, pois sei que isso é bastante importante.

No evento, encontrei com a Natália, médica veterinária do Serviço de Inspeção Municipal, que ajudou na minha indicação para participar desse 1º Concurso Regional de Queijo Artesanal Alagoa  e com Letícia Chaves, da POUSADA BONANI (@pousada_bonani) de itanhandu, também jurada do concurso e grande divulgadora dos queijos da região.

Como amante que sou da gastronomia – e, principalmente, do produto em questão –  sabedor da relevância da cultura queijeira, não só em Alagoa mas em toda a região da Serra da Mantiqueira, foi uma experiência ímpar e engrandecedora. Sei que minha atuação e dos demais jurados é fundamental para validar o exaustivo trabalho dos produtores artesanais, promover o reconhecimento do mercado e garantir a imparcialidade nas premiações. Sei que uma avaliação com critérios ajuda a elevar o padrão de qualidade do setor e foi isso que tentei fazer.

Espero ter conseguido.

Que venham novas experiências.

Até a próxima!

DEL SCHIMMELPFENG

@del.schimmelpfeng

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Author

Del Schimmelpfeng é Analista Judiciário do TJERJ, mas desde que se lembra - e coloca tempo nisso! - ama cozinhar! Apesar de ter feito as faculdades de arquitetura e direito, é se misturando aos pratos, panelas e temperos que se sente inteiro, completo, pleno. É autodidata, nunca fez curso de culinária, tampouco se imaginou um profissional da área. Considera-se apenas um curioso, que procura o conhecimento em tudo e que tenta, de todo jeito, viver da melhor forma possível - apesar de todas as dificuldades. Afinal, não haveria graça se elas não existissem... Participou da seletiva da segunda edição do Masterchef e da décima nona edição do reality "Jogo de Panelas", apresentado por Ana Maria Braga no programa "Mais Você" da Rede Globo, na qual sagrou-se campeão. Possui, ainda, textos publicados em livros de conto e poesia. Blog: http://delschimmelpfeng.blogspot.com Instagram: @del.schimmelpfeng

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