
por César Manzolillo

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O OURO VIROU CINZA
O relógio de ouro no bolso do paletó de Heitor só não marcava o tempo que ele considerava desperdiçado com qualquer coisa incapaz de gerar lucro. Dono de mais da metade dos imóveis do centro histórico de Santa Brígida, ele era conhecido por cobrar aluguéis abusivos e despejar inquilinos sem um naco de remorso. Heitor não tinha amigos, cônjuge ou herdeiros, sua única paixão era ver os números de suas contas bancárias crescerem, como se os dígitos na tela pudessem preencher o vazio em seu peito. Numa tarde ensolarada de dezembro, um incêndio começou no térreo de seu edifício residencial mais antigo e valorizado, e o fogo subiu rápido pelas paredes descascadas. Avisado pelo síndico, Heitor disparou até o local, mas não para salvar os moradores que gritavam pelas janelas. Ele correu direto para o escritório situado no segundo andar, determinado a resgatar uma maleta de couro que guardava joias e maços de dinheiro. Os bombeiros tentaram detê-lo, mas a ganância do homem conferia-lhe uma força surpreendente, e ele acabou sumindo fumaça adentro. Heitor encontrou a maleta intacta e, ao abraçá-la contra o peito, uma viga em chamas desabou diante da única porta de saída, bloqueando a passagem. Tossindo em desespero, ele correu na direção da janela da sala, emperrada por falta de manutenção. Morreu abraçado ao próprio dinheiro, sufocado pelos escombros do prédio que o isolou do mundo.
CÉSAR MANZOLILLO

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com Márcio Calixto
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