CRI ATIVIDADE

Arte Autoral: André Bringuenti (@andre.bringuenti). Disponível para venda!

 

Outro dia, numa prosa despretensiosa, alguém me disse com toda a convicção: “nem todo mundo é criativo”.

Me espantei. Para mim, a criatividade sempre foi inerente ao ser humano. É de fábrica.

Na hora me veio Pablo Picasso na cabeça:

“Toda criança é um artista. O problema é continuar artista depois de crescer.”

Então onde acontece a ruptura? Em que momento a gente para de criar e passa a apenas viver o já criado? Calma aí. Mas todo brasileiro não é criativo? Desde criança eu ouço que para sobreviver no Brasil é preciso ser criativo.

Infelizmente, não. Não somos mais.

Numa palestra, ouvi algo que não saiu da minha cabeça: perdemos o nosso tempo de abstração. A gente não espera mais o ônibus. Não espera o metrô. Não espera nem o elevador chegar no andar desejado. Cada segundo de silêncio hoje é preenchido por um vídeo curto, por uma enxurrada de informação. Como bem diz Cortella, vivemos um tempo de muita informação e pouca formação.

E assim, estamos sendo privados do que o sociólogo Domenico De Masi chamava de ócio criativo.

Aquele tempo precioso do nada, que poderia criar o tudo.

E tenho certeza que a perda desse precioso tempo, está matando a nossa capacidade criativa.

Nem vou entrar na seara da inteligência artificial, isso daria um livro, e aqui é só uma coluna.

Nos projetos que realizo em escolas públicas, é recorrente ouvir das crianças: “Eu não sei desenhar”.

Aqui faço uma ressalva importante:

“não sei desenhar” (técnica) é muito diferente de “não sei o que desenhar” (criatividade).

E eu sempre digo a eles: – vocês sabem desenhar, sim. Quando vocês dizem que não sabem, estão se comparando ao desenho da TV, do celular, do colega. Mas quando o assunto é encontrar o próprio traço, vocês são os melhores desenhistas do mundo.

Na minha área, as artes plásticas, eu repito que saber desenhar é importante e saber pintar também, mas ser criativo é essencial, pois o mercado da arte sempre pede pelo novo.

Trabalho com arte há mais de vinte anos, mas só quando encontrei e assumi meu próprio traço é que as portas realmente se abriram. Inclusive participar de uma exposição no museu mais famoso do mundo, o Louvre.

E agora vou fazer uma declaração que vai fazer muita gente torcer o nariz, parar de ler este texto e talvez até me cancelar: Se você quer viver de arte, de pintura, eu não indico começar por um curso de desenho. Você vai cair no que eu chamo de academicismo. Aquilo que ao invés de libertar, aprisiona. Que ao invés de potencializar, tolhe a sua criatividade.

Nenhum curso clássico vai te ensinar a colocar um olho mais alto que o outro. Nenhum vai te ensinar a pintar um nariz como se estivesse quebrado. Então, com essas informações, teríamos que reprovar a arte de Pablo Picasso.

Nos cursos, iriam te ensinar que a distância correta entre os olhos é de um terceiro olho no meio. Uma regra que o próprio Léo (Leonardo da Vinci) já refutou há alguns bons anos.

Olhem para arte do Pollock, olhem para Basquiat e para tantos outros. Ninguém pode dizer que eram exímios desenhistas, e isso não os impediu de conquistarem fatias enormes da história da arte. Porque no final, eu acredito que para arte, não existe o desenhar certo. Ela quer saber mesmo é se você tem coragem de desenhar do seu jeito.

A ruptura acontece aí, quando trocamos o nosso traço pelo traço dos outros.

Existem outros fatores que acredito que também sequestram a nossa liberdade criativa. O primeiro é o comércio: Eu preciso vender, minha obra precisa agradar… Então começo a me podar:

“Não posso fazer esses olhos maiores que a face (face, não Facebook), melhor tirar essa lua da frente da montanha, pois isso não existe”.

E assim vamos nos moldando, nos adequando ao que julgamos ser mais viável. Na verdade, mais vendável. Entramos no modo sobrevivência, e quem está em modo sobrevivência, não cria, apenas repete.

O segundo fator é o medo. Medo de errar, de inovar e não ser aceito. Medo do fracasso.

Nessa hora, cito de novo o mestre Picasso:

“Outros viram o que é e perguntaram por quê. Eu vi o que poderia ser e perguntei: por que não?”

Mantive essa frase pintada na parede do meu ateliê por anos.

Era meu antídoto diário contra o medo.

Outro dia meu irmão me enviou um artigo bem interessante:

“A morte lenta das cores”.

E é exatamente isso. O medo de errar está causando uma unificação assustadora das formas e das cores. Basta lembrar como eram os carros nos anos 70 e 80, a arquitetura, os móveis… até os objetos mais modernos, como os celulares.

As curvas deram lugar a linhas retas. As cores vibrantes deram lugar ao preto, ao branco e aos seus tons de cinza.

O mundo está ficando chato. Monocromático. Reto.

Então, se fomos nós que provocamos essa ruptura, rogo aos Deuses da Arte e da Criação que tenhamos coragem para resgatar a criatividade.

Que possamos viver o que Platão chamava de Loucura Divina.

Que volte o ócio. Que volte o olhar vazio e a mente brincando livre. Afinal, como disse aquele cara bem inteligente:

“A criatividade é a inteligência se divertindo”. Albert Einstein.

Viva arte!!!

 

ANDRÉ BRINGUENTI

@andre.bringuenti

 

 

 

 

 

 

Author

Nascido em 70, no Rio de Janeiro, Andre Bringuenti mudou com a família para Nova Friburgo em 2001, e passou a viver da arte. Em 2011, devido a uma forte chuva, perdeu a casa e o atelier. Voltou para o Rio, e foi um período importante, pois o colorido da cidade influenciou em seus trabalhos. Em 2015 voltou para a cidade que escolheu viver com sua família, e se baseou em Lumiar. Em sua caminhada artística passou por vários estilos, sempre bebendo de várias fontes: pop art, impressionismo, entre outras. Nessa busca pela desconstrução, acabou desenvolvendo um estilo próprio, que batizou de Bringuentino. O primeiro quadro que fez nesse estilo, foi uma homenagem ao seu filho Iago, que sofreu um acidente de skate em 2016, e veio a falecer. O estilo Bringuentino tem um traço mais fluídico, solto, como se os personagens não tivessem uma estrutura óssea, sem a preocupação com proporções. Os olhos saltam da face, não tem boca, as mãos com cinco dedos, mas os pés com quatro, e geralmente os personagens estão descalços. André já fez diversas exposições individuais e coletivas, inclusive no Salão Internacional do Carrossel Du Louvre, em Paris.

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