Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos).
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Sentaram-se no alto da pedra de onde se avistava a entrada da favela. Josué deixou os amarrados de jujuba no chão, dividindo um saco de biscoitos com Cidinho. – Troquei com o Grilo. Dei dois amarrados meus por esse…
Assisti a “Bebê Rena”, na Netflix. A série é autobiográfica, tendo Richard Gadd, protagonista e criador da série, sido, de fato, vítima de uma stalker. Sua história pessoal de assédio é narrada, com algumas adaptações dramatúrgicas. Apesar da temática,…
Assim Paulo André Nascimento de Jesus Maria entrou no nosso radar: num grupo de amigos, um colega de profissão mandou o link para a vaquinha de um jovem cantor de ópera, com quem tinha em comum o vínculo com a…
“o amor que morre é uma ilusão e uma ilusão deve morrer” (Coração Vulgar, Paulinho da Viola) Os caroços de feijão separados das pedrinhas que se misturaram na embalagem, jogados na panela de pressão. O arroz lavado no escorredor,…
Se for possível viajar no tempo, não quero máquina para ir ao futuro. Estou esgotada de futuros. As inteligências artificiais criam décadas de um dia para o outro, o cinema projeta futuros improváveis desde minha infância. Estive sempre à espera…
Amanheceu repleta de ausências. Não sabia se sonhara com aqueles que haviam deixado saudade. Não lembrava. Ou se fora o silêncio na casa vazia, de domingo até a manhã de segunda. Talvez algo inconsciente. Embora o Sol inundasse a…
Lar Doce Lar Augusto se entusiasmou com o telefonema do homem procurando um lar para sua família. A casa herdada da avó parecia ser na medida para o comprador: três quartos, um quintal com churrasqueira, um muro protegendo o…
Hoje, no projeto AC Literatura Convida, nossa colunista Ana Lúcia Gosling (@analugosling) nos traz dois poemas de Paulo Reis (@pauloreisnf): “O Homem e A Terra” e “Musical”. O HOMEM E A TERRA Forneces-me o alimento Devolvo-te o excremento Cuspo e…
Jantando com um amigo, disse a seguinte frase: “se eu ainda me apaixonar novamente…” e parei. Levei um susto ao verbalizar o “se”. Sou mulher madura. Contrariando os que, por preconceito, acham que, quando se tem mais idade, menos exigência…
Sorrir é a melhor ginástica facial. Em gargalhadas longas, os músculos fasciais ficam, naturalmente, retesados. Se sacodem a barriga, malha-se, junto, o abdômem. A endorfina enebria a ponto de esquecerem-se rugas e desilusões. Sorrisos são a antítese do botox.…
– Eu não disse que foi maldade. Mas há vinte e cinco apartamentos no prédio e só o meu interfone quebrou? Fui reclamar. O porteiro me disse: “A namorada do ‘Seu’ Paulo apertou o botão com força, quebrou. O…
Eu me lembro do momento exato em que fui criança pela última vez: quando precisei seguir sem você. Um mar se desenhou entre nós, separando-nos. Você, além de onde eu poderia estar. Eu, percebendo seu vulto se dissipando, distante.…
Uma das grandes alegrias da vida é minha varanda ser frequentada por passarinhos. Nossa aproximação começou na pandemia quando, em isolamento, resolvi interagir com os visitantes arredios. Quis agradá-los com frutas e, se no início só um se aproximava, desconfiado,…
“A Sociedade da Neve” me foi recomendado por vários amigos de bom gosto. Adiei a sessão, imaginando as emoções possíveis numa trama tão emotiva. A história é conhecida por mim há tempos. Era neném quando o avião uruguaio caiu…
Descobri o casulo há uns dias, pendurado na Lágrima-de-Cristo. No meu apartamento urbano, qualquer fenômeno da natureza é tratado como um acontecimento importantíssimo. Se houvesse cornetas na casa, soariam. Acalentei o sentimento infantil de ver surgir uma borboleta colorida. Curiosa,…