Dia da Luta Antimanicomial: entre o progresso e os novos manicômios invisíveis

 

O dia 18 de maio – dia nacional da luta antimanicomial – convoca psicólogos e demais profissionais de saúde mental a uma reflexão que vai além da “história da loucura” — ela interroga o presente. Se os muros físicos dos manicômios foram derrubados pela Reforma Psiquiátrica Brasileira e pela Lei 10.216/2001, é preciso perguntar o que os substituiu?
A lógica que sustentava o manicômio — a de que o sofrimento psíquico deve ser isolado, contido, silenciado e gerenciado — encontrou novos endereços. A desinstitucionalização (fim dos manicômios/sanatórios) avançou com conquistas concretas e inegáveis, representadas pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as residências terapêuticas e a rede de atenção psicossocial (RAPS).

TRATAMENTO – O que seria um plano terapêutico consistente?

Como está a Psiquiatria hoje? Pacientes se queixam de prescrições apressadas em consultas de 20 minutos, vemos a multiplicação de farmácias que movimentam bilhões com antidepressivos, ansiolíticos e antipsicóticos receitados sem um plano terapêutico consistente, os algoritmos das redes sociais transformando vulnerabilidade emocional em conteúdo, ampliando sofrimento e busca por diagnósticos como forma de pertencimento, em resumo vemos uma banalização de transtornos em saúde mental.
O Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de psicofármacos, o acesso ao tratamento medicamentoso é um direito. Uma questão importante aqui, um alerta quando o medicamento deixa de ser um recurso dentro de um projeto terapêutico amplo e passa a ser o projeto terapêutico em si.
ATENÇÃO – Faço elogio à psiquiatria contemporânea que produziu avanços reais na compreensão neurobiológica do sofrimento mental e no desenvolvimento de medicamentos que proporcionam qualidade de vida para muitas pessoas. O ponto central não é medicar ou não medicar — é como e por quê. Quando a medicação substitui a escuta, quando o diagnóstico precede o encontro com o sujeito, quando os manuais estatísticos de classificação de doenças CID ou o DSM viram atalhos para encerrar uma conversa que deveria apenas começar, algo da ordem manicomial se reinstala.
A visão social sobre saúde mental vive uma contradição aguda. Por um lado, nunca se falou tanto sobre ansiedade, depressão e burnout. A pauta ocupa timelines, campanhas corporativas e capas de revista. Isso tem um valor real: reduziu parte do estigma histórico e abriu espaço para que pessoas busquem tratamento. Por outro lado, essa visibilidade tem um custo. Quando o sofrimento mental vira tendência de consumo — com estética própria, vocabulário específico e identidade nas redes sociais —, corre-se o risco de tornar superficial o que é profundo e de romantizar o que é doloroso.
O estigma não desapareceu, ele se sofisticou. Hoje, dizer que tem ansiedade pode ser socialmente aceito; mas dizer que tem esquizofrenia, transtorno bipolar severo ou que já foi internado em crise ainda carrega o peso de uma exclusão silenciosa — no trabalho, nas relações, no olhar do outro.

O que cabe ao psicólogo clínico

Nesse cenário, o psicólogo clínico ocupa um lugar de responsabilidade singular, com sua escuta sensível, acompanhando o sujeito de forma continuada, aquele que pode perceber quando a medicação está encobrindo um sofrimento que precisa ser elaborado ou, ao contrário, quando a sua ausência está impedindo que o trabalho clínico avance.
Cabe ao psicólogo clínico sustentar a complexidade do sujeito diante da pressão por respostas rápidas. Trabalhar em articulação com psiquiatras em uma perspectiva colaborativa, não hierárquica. E, sobretudo, manter viva a pergunta que animou o movimento antimanicomial desde o princípio: este cuidado está a serviço de quê e de quem?
O Dia da Luta Antimanicomial não celebra uma batalha vencida. Celebra uma vigilância constante. Os manicômios de hoje são difusos, invisíveis — e, por isso mesmo, exigem um olhar ainda mais atento.

 

 

Author

Regina Murray Loureiro é psicóloga clínica, hospitalar e psicogeriatra pela UFRJ IPUB, mestre em Saúde Pública pela Ensp/Fiocruz. Fundadora da "Vitória-Régia Serviços de Psicologia" e colaboradora do Canal Psicologia no ArteCult.com.

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