Com Ana Gosling

Foto: “Good Faces”, em Unsplash.
SOLIDÃO E TECNOLOGIA
Li que uma mulher brasileira, com mais de 60 anos, acreditou viver um romance virtual com Johnny Deep. Era golpe. Ela perdeu 200 mil reais o ajudando a custear processos judiciais. Vendeu um carro, uma casa. Fez uma cirurgia plástica, alimentada pelo sonho de morar com o astro em Los Angeles.
Com todo respeito à dor dessa mulher, que se descobriu ludibriada e viu pulverizado seu projeto romântico, trago o assunto e me pergunto: o que nos faz acreditar no impossível no campo romântico?
Em outro caso, outra mulher, francesa, perdeu 850 mil euros (mais de 5 milhões de reais!) custeando o tratamento de câncer de um Brad Pitt, com as contas bloqueadas por Angelina Jolie. Um ano e meio de declarações de amor, poemas e promessa de casamento. Ela, no meio do mundo, além da fronteira, escolhida pelo superastro hollywoodiano, que conversava com ela usando imagens geradas por inteligência artificial. A tecnologia a hipnotizou, escondendo o golpista.
Já fui abordada por um perfil falso do Alexandre Nero, porque, eventualmente, curto uma ou outra coisa na página do ator. Entrei no radar como vítima possível. Um golpista se aproximou com um papo mole. Elogios ao meu comentário e, depois, a minha foto. Pés no chão, eu sabia ser improvável que o ator saísse pela rede paquerando aleatoriamente suas fãs. Resolvi dar-lhe trabalho. Fiquei igual a Chapeuzinho para o Lobo: “Por que outro perfil?”, “Por que você gostaria de me conhecer?”, “Mas o que eu disse que você gostou tanto?”, obrigando o homem a procurar meu comentário de duas palavras entre milhares de comentários na página do artista.
Anos atrás, adicionei, sem querer, um homem desconhecido à página de autora. Bonito, meia-idade, perfil norte-americano, bandeira dos EUA, uniforme da Marinha. Ele me mandou um “Oi!”. Eu o ignorei. Ele continuou: “você é tão bonita, gostaria de conhece-la”. Golpe explícito. Na terceira mensagem e sem eu ter respondido nenhuma vez, ele estava apaixonado e sofrendo com o meu silêncio. Inconsolável, precisava conhecer-me. Bloqueei-o, claro.
Mulheres de uma certa faixa etária parecem ser consideradas alvos fáceis na internet. Nas minhas redes sociais e nas de amigas, chovem novos pedidos de amizade de homens com perfis claramente forjados, a maioria falando inglês e dizendo gracejos. Penso: se é tão constante é porque, em muitos casos, cola.
Por que muitas se arriscam nessas armadilhas? Se ouvimos sobre os golpes, se sabemos que perfis são recortes da melhor face (mesmo os de pessoas conhecidas) e podem ser totalmente inventados, o que nos faz acreditar que um galã dos sonhos nos descobriu entre milhões de pessoas e, à distância, escolheu nos amar? A solidão parece ser pouco para afastar o senso lógico mas, surpresa: é suficiente.
Sinto compaixão por quem se sente profundamente solitário a ponto de abraçar fina ilusão.
Pela manhã, um amigo envia reportagem sobre os chatbots darem conselhos ruins (sem crítica real) e bajularem usuários. Novas relações sociais se estabelecem através do campo virtual, que nos desacostumam da complexidade de pensamento e favorecem o egocentrismo – se estou sempre certa, para que ouvir que estou errada? Há sites em que se pode criar o amante ideal (corpo e mente), na medida da nossa carência, do nosso desejo, 100% do tempo disponível para nós.
A tecnologia evolui e, em breve, não haverá golpista com cacife para concorrer em pé de igualdade com parceiros virtuais perfeitos, que potencializam os defeitos e falhas da nossa humanidade confusa e imperfeita. Chatbots, sites, robôs não pedem dinheiro nem fazem promessa vazia. Talvez isso proteja as pessoas contra os golpes românticos na internet.
Mas e a solidão? A ausência de corpos, do toque, do colo a resolverá?
(Nota da autora: Sobre os falsos perfis românticos, já escrevi anteriormente em https://artecult.com/as-quartas-michael-douglas-quer-ser-meu-amigo/)


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
Coluna de Thereza Christina Rocque da Motta

















Parabéns pela reflexiva crônica, Ana!