
Com Ana Gosling

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POR ÚLTIMO
Desejo ter ainda muitas décadas de vida. Pretendo morrer tarde, ter saúde longe, sonhar infinito. Mas ando nostálgica. Quando a tarde se afasta, no rápido momento em que a noite toca o dia, o coração aperta. Faltam-me as despedidas das rotinas abandonadas.
Lembro-me do último amor. De quando o revi e, ao despedir-me, guardei as palavras que não podia mais dizer-lhe. Nossos caminhos seriam diferentes, o tempo nos afastaria, as estradas não se cruzariam. Meu coração pode acená-lo em silêncio e seguir. Fechei o capítulo. Nem sempre, na vida, fechamos.
Coleciono uma variedade de fins não anunciados. Quando a lua aponta, penso, o que faria se reconhecesse determinada situação como sendo a última.
A última vez que dei a mão a meu filho na rua, para ele sentir-se protegido. A última história que lhe contei antes de dormir. O último colo. A última papinha. O último banho que lhe dei. O último desenho animado a que ele fez questão de assistir em minha companhia. O último bilhetinho com que me presenteou. Se soubéssemos, fantasio, talvez durassem horas os minutos gastos, sentindo a maciez e o calor da infância do meu menino.
Sinto sua maturidade diante de mim ter surgido numa piscadela. Era menino ontem e amanheceu assim, diferente, fazendo a barba, indo ao trabalho, terminando a faculdade, assumindo dívidas e compromissos. Quando deixou no ar o último rastro de insegurança ou timidez antes de amadurecer? Se procuro, não há resposta na memória.
Ao amor perdido, eu ligaria, se soubesse ele afastar-se? Aos amigos que se foram, eu demoraria no abraço final, entregaria um souvenir para os dias divididos serem recordados? À distância, tudo congela em foto e mensagem escrita – onde nosso calor?
Embora meus pais se afastassem da vida, não anotei suas últimas frases lúcidas nem seus conselhos derradeiros. Esqueci o cheiro do xampu marcado nos cabelos de mamãe; embora o sentisse todo os dias, não o fiz uma última vez, retendo lembrança mais viva. Se fecho os olhos e me perguntam, respondo: pensava ter com meu pai mais uma manhã; ter com minha mãe mais algumas horas.
Sigo adiando inventários de despedida.
Mas, sabe-se lá, talvez a ignorância intensifique a ternura, garanta a espontaneidade, polindo melhor o momento. Talvez nos obrigue a garimpar as peças mais significativas, memórias secundárias, descobrindo-as novas, como se tesouros fossem.
Controlar o campo afetivo é inútil.
Se este fosse meu último texto ou hoje fosse o último dia em que nos falamos, nada definitivo nem marcante eu teria a dizer-lhes. Vejo a noite cair, escrevo, sinto saudades, mas, ao terminar, viverei o agora alienadamente, como vivi todos os anos da minha vida. Tropeçando no inesquecível sem dar-me conta. Amando profundo em reflexo automático, sem obrigação. Agradecendo a vida boa antes de adormecer, tendo o filho seguro, a casa trancada, o privilégio de ter pessoas especiais no meu mundo, uma saúde boa.
A nostalgia, às vezes, lamenta a ausência da pausa. Mas viver é fluxo, fazer o quê?


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
















Roubou-me uma última lágrima nessa manhã de quarta. Essas lembranças são sempre imponderadamente absurdas.
Ah Márcio, que devolutiva especial! Muito obrigada por esse carinho.