
Com Ana Gosling

Foto: Divulgação
MICHAEL
Michael Jackson é uma força. Acima das polêmicas que o envolveram e do massacre midiático sofrido em vida, o mito arrebata plateias mundiais. “Michael”, o filme, estreou com bilheteria histórica, mesmo recebendo notas baixas da crítica especializada mundo afora.
O artista é uma personagem naturalmente dramática. Menino negro e pobre nos Estados Unidos dos anos 60, mergulhado numa espécie de apartheid social, desde muito cedo trabalhou na carreira que se consolidaria. Sem tempo nem direito a uma infância comum. Seu dom artístico lhe trouxe reconhecimento mas também uma série de sacrifícios e traumas: a cobrança e a violência paterna, a solidão pessoal, o desencaixe no mundo, a sobrecarga de trabalho. Pontes para o aparecimento de suas idiossincrasias e de uma doença autoimune, o vitiligo. Vivia com dor permanente, dependente de analgésicos, e mergulhado em especulações graves, questionamentos acerca de caráter, preferências sexuais, perversões, racismo etc.
O filme pega leve com o controverso, daí a frustração de muitos críticos: dói desperdiçar-se uma personagem com tanto apelo dramatúrgico e cobra-se compromisso com a inteira verdade. Mas, para mim, o propósito de “Michael” é mais simples: contar a construção do ídolo pop. O filme faz um recorte da sua carreira até a turnê de “Bad”. De propósito, termina no momento em que ele adquire independência dos irmãos e do controle exercido pelo pai, fechando o primeiro ciclo de sucesso de sua vida profissional, após a consagração mundial do disco “Thriller”.
No percurso, a parte biográfica é suficiente para fazer funcionar a narrativa do período, sem explorar a complexidade humana de MJ. Falta Janet Jackson e, principalmente, Diana Ross. Falta mais Quincy Jones. E “Rock with you”. Mas entendemos o entorno: a pressão, as dificuldades, a angústia, o medo, o talento único, a vocação e a vontade de fazer sua música ser para todos, negando-se a ocupar um gueto cultural, o que o fez revolucionário.
Na plateia de “Michael”, razão e emoção ocupam cadeiras diferentes. A crítica é engolida pelo efeito de um filme pretendendo enaltecer e homenagear Michael Jackson. Dizer que se reduziu a profundidade do artista tem pouco peso diante de um artista que é tanto, mesmo se mostrando menos, e de uma plateia hipnotizada pela nostalgia e pelo legado do ídolo, com sua personalidade histriônica e seus gestos diferenciados.
Como não ceder a “Michael”? Juliano Valdi, que o faz criança, é adorável. Jaafar Jackson é impressionante! Com o texto certo, as coreografias e os maneirismos estudados, a fala e o sorriso, inúmeras vezes, faz-nos enxergar MJ na tela. O que o ator produz, vê-se, é resultado de muito trabalho.
Penso em MJ com tristeza. Fenomenal mas preso a uma história trágica, um morte precoce, a suposições terríveis. O ruído em torno do homem ofuscando, nos últimos anos, o entendimento da sua arte. Mas “o pop não poupa ninguém”, já dizia aquela canção. Nem mesmo seu rei.
Na tela, ele dança, sorri, é generoso, sonha futuros e segue em ascensão do início ao fim do filme. Como não sentir a força do mito, imersos em seu mundo, longe de escândalos e questionamentos? O recorte chega regenerador a quem pretende, apenas, amar sua música, dançar como ele. A arte esvazia a controvérsia em torno do humano, na tela como, muitas vezes, na vida real.
Saí feliz do cinema. Bati os pés, dublei canções amadas pela minha geração, lembrei da minha versão mais livre. Estava com meu filho, diante de um universo maravilhoso, repleto de músicas icônicas. Conversamos muito, depois, inclusive sobre o que não se mostrou. Não me esperem torcer o nariz para o filme. O recorte pode ser estratégico, mas preciso dizer: é imperdível!


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
















Obrigado minha cronista preferida. Estava em dúvida se assistia, mas, depois dessa delícia de crítica, irei correndo ao cinema. E viva Michael!
Ah que responsabilidade a minha! rs É como disse: é pra relevar as lacunas e curtir como fã da arte. Tomara que goste!
Ana,
Depois de sua narrativa, não dá para deixar de ver esse filme!!! Grata!!!!
Tem que ir! rs Pra curtir a música, a atuação, a dança.