Com Ana Gosling

Foto: Vinicius Amnx Amano, em Unsplash
APITO FINAL
Você pode não ter acreditado muito. Não reconhecer os jogadores por seus números. Ter zicado a seleção por implicar com algum atleta ou com a confederação ou com a ideia de festa num mundo de políticas sombrias. Você pode nem ter ligado a tevê. Mas, de alguma forma, essa tristeza o atinge, não?
A tarde silenciando as cornetas do dia em expectativa. As lágrimas nos olhos das crianças. Os desenhos no asfalto lembrando a fé desperdiçada.
Você anda por aí sem a esperança alheia para provocá-lo. À vontade para apontar culpados mas sem ter com quem dividir a satisfação de um “eu disse!”. Porque ter razão não satisfaz; às vezes, o melhor é estar errado e ser abraçado pela surpresa e pela alegria. Talvez você esteja certo em suas críticas, talvez tenham sido outros os motivos, não importa. A vitória é sempre melhor.
Tendo perdido várias vezes, você não entende por que chora quem está aprendendo a acreditar. Quem pode esperar mais quatro, oito anos, quando você já não sabe se os terá, agora que a vida lhe apresenta despedidas frequentes: os pais, os tios, um ou outro parente ou amigo que costumava torcer a seu lado.
Você percebe o peito em luto também. Da oportunidade de ser campeão quando se é gente comum. E de não sê-lo sozinho mas dando a mão ao mundo. Da capacidade de dar a mesma importância ao que, na infância, era clímax da vida real. Da ausência de quem lhe ensinou sobre o futebol, a conversa que importaria no recolhimento da noite.
Parece só futebol. Habilidade. Decisões técnicas. Inteligência tática. (Negociatas?) Não é só isso. Alimenta-se de sentimento. Da paixão pelo esporte. De memórias da nossa infância, de identidade cultural, de vontade de pertencimento. De sonhos a serem plantados em gerações futuras. De uma alegria que se fabrica para dopar os dias em marcha difícil.
Parece só futebol. Mas é o espaço em que o improvável pode materializar-se diante dos olhos. Coroar heróis. Unir nações. Trazer de volta um país ao colo dos exilados. Exorcizar em grito de gol o peso de uma dor. Cobrir de glória fugaz uma multidão anônima.
Há beleza. Há paixão. Não faltará esperança. Para nós, daqui a quatro anos.


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo

















Emocionante! Memórias de uma infância vivida com alma!
Obrigada, Natália! Décadas de copas, lembranças, saudades. Beijos.
Parece só futebol. Mas é mais uma crônica muito sensível e atual de Ana Lúcia Gosling.
Ah, amigo, obrigada! Bom que tenha chegado ao seu coração.