A 1a crônica do minicaderninho

Coluna de Márcio Calixto

A primeira crônica do minicaderninho

 

 

Como dever ser a experiência de escrever em um caderno pequeno, absurdamente pequeno? Quando comprei os outros, sem pauta, com os quais me acostumei a escrever e de onde têm saído as crônicas que ora ilustram essa coluna, me trouxeram uma experiência à literatura que eu não havia experimentado, o de produzir com vigor tudo aquilo que eu poderia ter escrito ao longo de uma vida. Por sorte eu ainda tenho algum tempo para produzir. Nesse processo mesmo em que agora texto a experiência de escrever em um caderno ainda menor, não nego, me traz uma liberdade.

É dessa experiência e liberdade de que preciso para poder escrever o que imagino ser possível escrever. Penso principalmente nos meus romances. Quero poder produzi-los o quanto antes, no entanto o ato de escrever textos menores, como as crônicas e os poemas tem sido muito mais produtivo. Me movo pelo desejo de produzir logo as mil crônicas.

Eu fiz um levantamento de datas. Tenho publicado semanalmente no ArteCult. Eu deveria ter tomado essa decisão há muito mais tempo, estaria muito mais próximo desse objetivo. Penso, inclusive, em resgatar o que já escrevi para o Pictorescos e ressignificar, exatamente, para engordar esse volume das substâncias àquilo que já escrevi.

Sei que demorarei a ser lido. Principalmente pelas atuais gerações, que parecem não querer ler ou o que leem é bem diferente do que eu escrevo. Poderia postar para escrever apenas material de entretenimento, o que não é muito distante do que já escrevo. Ter alguns de entretenimento no que tenho escrito, claro, que não é meramente categórico, escrevo para fazer pensar, não apenas como escapismo. Não apenas como fuga da realidade. Não que eu questione. Não mesmo. Só não consigo produzir tão feio parto. Gosto de pensar e de fazer pensar (eu e meu constante papel professoral). Quero que tenham esse ativismo intelectual. É o que me move. Ainda a dar aulas, nesse momento, me lembro de um amigo que foi cercado por policiais em nome de um esporro em sala de aula. Esse amigo não quis mais voltar para sala de aula. Total compreensível.

Eu acho que eu também não voltaria. Prefiro nem pensar. Como desejar que pensam se não há mesmo material encefálico para tal? Não serei também o autor que escreve para si porque nunca escreveram para mim. Não entro nessa vibração exótica e vil. Escrevo pensando em um público. Quando serei descoberto?

Termino na pergunta a experiência de escrever nesse minicaderninho. Para se ter uma ideia, é uma caderneta, menor do que um celular comum. Aconselho essa experiência. É maravilhosa.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.