PORNOTEOLOGIA: Relatos de uma insubmissa

Foto: Clarisse Tarran

Utilizo como ponto de partida dessa investigação meu próprio corpo como plataforma de análise, trazendo uma ritualização artística de minhas inscrições que vou denominar aqui nesse contexto como pornoteologia.

PORNOTEOLOGIA é uma operação de dominação dos sentidos cuja interpelação patriarcal é dada pelo apelo teológico. Atuando assim na produção de desejo por meio de trajetos inconscientes das narrativas mitológicas, momento no qual a noção de culpa inscreve a castração psíquica do cristianismo. Dialogo inclusive com a teoria da sujeição, principalmente quando informa a

“disposição de aceitar à culpa para obter um vínculo forte com a identidade e que esta está ligada a um cenário extremamente religioso de um chamado nominativo que vem de Deus”.

A apresentação é um monologo a dois, em que a gestualidade tem a inspiração no teatro físico, no qual a técnica que conduz a ação escultórica trata-se de uma tortura japonesa reconfigurada para o mundo do fetiche, informando desta maneira apontamentos sobre contenção, flutuação, pausa, silêncio, suspensão, vida intrauterina e gravidade. O espetáculo tem duração de 40 minutos, divididos em quatro ações: Iniciação, Narcisismo, Doma e Suspensão.

Foto: Clarisse Tarran

No trabalho artístico a operação é apontada pelas cordas, questionando desde a dominação dos sentidos na construção social vigiada pela família tradicional, conservadora, heteronormativa às encantarias midiáticas das imagens em ação, que é revelada por uma trama fictocrítica em que links entre os líderes de igrejas neopentecostais e os dominadores de BDSM, expõem o estado alterado de consciência como espaço de ancoragem de paradigmas, ou seja construção de verdades. A ocasião em que a dominação acontece no shibari (técnica japonesa de tortura dos samurais feudais que foi reconfigurada para o mundo de fetiche) é dada quando o ego, nosso sistema de defesa, está distraído, fazendo assim também um apontamento sobre a operação da governança política por meio da mídia e do sagrado, dois palcos de poderes em que se dar a ver a simulação, e, portanto, a manipulação dos sentidos, como em toda operação mágica, ou ainda de transe e hipnose. Assim na Terra como no Céu e vice-versa.

Na investigação o contorno sobre o corpo funciona como dispositivo para acionar estados espectrais e de alteração de consciência. A performance promove diálogos entre dança e escultura, traduzidos como Atos Escultóricos. Para operar a insubmissão e suas projeções psicomágicas foi criada a instalação sonora “relatos de uma insubmissa” em parceria com a sound designer Susana Marcusso. Textos das minhas impressões e descobertas fictocríticas durante uma década de me deixar ser amarrada pelas cordas do shibari são disparados com ambientações atonais, para assim instaurar através dessa atmosfera de convocação do lugar histórico da mulher, um fechamento de corpo sutil durante os efeitos de amarração e suspensão na apresentação, que segundo as pistas dadas pela pesquisa é o momento que se projeta as instalação de crenças. E assim se torna possível a programação da devoção e da obediência.

Foto: Clarisse Tarran

Há dez anos venho experimentando as compressões das cordas e suas suspensões corporais, com isso pude desenvolver apelo estético e sensorial através da tração dos cordames, e ainda aprimorei uma forma não usual de meditação e diminuição de fluxo de pensamento. A primeira amarração aconteceu porque estive na intenção de criticar o romantismo sublime da figura feminina no ballet clássico. A suspensão ocorreu pelas mãos do artista multimídia Claudio Monjope, para possibilitar a inversão dos polos de apoio, tirando então a carga das pontas dos dedos dos pés, deslocando deste modo os apoios para ombros e cabeça. Os pés trazem um simbolismo erótico segundo Freud e Jung. Acredito que exatamente por isso em muitas culturas são objetificados, ou ainda sacrificados, para desta forma produzir uma estética de fragilidade sobre a figura feminizada. Seja pelas sapatilhas com gesso nas pontas, ou pelo salto agulha que lesiona a coluna, ou ainda pelos pés de lótus das chinesas, reduzindo qualquer movimento seguro e ágil pela caminhada, e até mesmo causando a impossibilidade permanente de andar. No caso das chinesas a situação é muito bizarra, mas também existem inúmeras mulheres ocidentais que são obrigadas a trabalhar oito horas por dia calçando saltos que sobrecarregam a lombar mas agrada a sociedade fálica que é estruturada pelo capitalismo. Nem sei ainda o que dizer sobre as bailarinas clássicas e suas curtas carreiras geralmente finalizadas por lesões. Ah, já lembrei… Salve Angel Vianna!

A estrutura artística da apresentação acontece na relação entre a performer que vos escreve e o escultor Franklin Cassaro, em que a dominação é colocada em questão na própria composição coreográfica e ainda na narrativa que se desenrola ao longo do espetáculo.  Apontamentos sobre contorno corporal e gravidade também aparecem na estética escultórica desse trabalho. O subspace, estado alterado de consciência ativado pela pressão das cordas em pontos energéticos da fisicalidade, é traduzido por um vídeo arte construído em parceria com o videomaker Marco Antonio Rezende. Amplio o conceito de shibari expandido, com a parceria do escultor Franklin Cassaro, pois não utilizamos nem as cordas, nem as amarrações tradicionais dos rituais. A pesquisa que já me rendeu algumas outras parcerias aponta algumas conclusões em que conecto o prazer em se submeter a um dominador à castração psíquica traçada pelo cristianismo. O convite dessa proposta artística é criar outros modos de existência através da conscientização sobre o lugar histórico da mulher no mundo, da expansão das potências corporais e erógenas, para a partir disso derrubar o dominador dos sentidos e manipulador de desejos, mais conhecido como patriarcado, assim como informo abaixo no trecho do texto do espetáculo,  em que evoco tal intensidade:

 “Proponho por meio do dispositivo simbólico, ao menos durante a investigação sobre o corpo da mulher que confere a essa pesquisa, o útero atualizado como Santo Graal e a vagina como o caos criativo de onde tudo o que é, saiu. Para assim poder através de outra mitologia gerir novos processos de pensamento. E claro, para embucetar as piroquinhas falidas do patriarcado.“

 

SERVIÇO

  • Onde: Teatro Cacilda Becker, Rua do Catete 338, Rio de Janeiro RJ
  • Quando: 18/12/2019, às 19h
  • Performers: Andreia Evangelista e Franklin Cassaro.
  • Trilha: Carlos Laufer e Susana Mancuso.
  • Vídeomaker: Marco Antonio Rezende
  • Roteiro: Andreia Evangelista.
  • Escultura: Franklin Cassaro
  • Sound Designer: Susana Mancuso
  • Composição: Carlos Laufer

Este espetáculo faz parte da ocupação Cacilda Becker em homenagem aos 100 anos de Helenita Sá Earp

 

 

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ANDREIA EVANGELISTA
Andréia Evangelista é Geminiana com ascendente em Libra e lua em Peixes, da leva de 1983, mestranda em Artes Visuais pelo PPGAV- EBA - UFRJ (Pesquisa: "O corpo como continente de espectros: o contorno nos processos performativos"), atriz, bailarina, e coreógrafa formada pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) – 2005, licenciada em dança pela faculdade Angel Vianna – 2010. Colaborou como bailarina no núcleo de pesquisa da FAV (Faculdade Angel Vianna), com a direção de Ana Bevilaqua. No teatro foi premiada como melhor atriz com a peça "Viva o Cordel Encantado" de autoria e direção de Benvindo Sequeira - 2006. Participou por três anos do festival de performance em Cuba, pelo qual apresentou trabalhos em dança contemporânea, teatro físico e cavalo marinho (dança folclórica da região zona da mata de Pernambuco). Atualmente ministra aulas de dança contemporânea e terapia através do movimento.

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